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Breno Altman: “Não há motivos de comemoração na vitória de Peter Magyar”

Breno Altman aponta que resultado fortalece a OTAN e a estratégia militar na Ucrânia

Péter Magyar, vencedor das eleições na Hungria (Foto: Reuters)

247 - “Não há motivos de comemoração na vitória de Peter Magyar”, afirmou Breno Altman ao analisar o resultado das eleições na Hungria, destacando que, apesar da derrota de Viktor Orbán, o novo cenário político fortalece a estratégia da OTAN na guerra contra a Rússia.

Em participação no Bom Dia 247, Altman avaliou que a saída de Orbán representa um fato relevante no plano interno húngaro, mas não configura uma vitória para a esquerda ou para forças progressistas no cenário internacional. Segundo ele, a mudança ocorre dentro do mesmo campo político-ideológico, ainda que com diferenças de posicionamento.

O jornalista reconheceu que há um aspecto positivo na derrota de um líder associado à extrema direita global. “O aspecto positivo é a derrota de um expoente da extrema-direita. Não há dúvidas de que essa é uma boa notícia”, declarou. Ele ressaltou que Orbán governava o país há 16 anos e promoveu alterações institucionais significativas. “Ele foi provocando uma mudança de regime político na Hungria”, afirmou.

Altman, no entanto, ponderou que o sucessor não representa uma ruptura com esse campo político. “Não é uma troca de seis por meia dúzia, mas é uma troca dentro do mesmo campo político-ideológico”, disse. Ao descrever o perfil de Peter Magyar, ele o classificou como um dirigente oriundo da direita, ainda que dissidente do grupo de Orbán. “Sai uma figura da extrema-direita e entra uma figura da direita, da dissidência da extrema-direita”, explicou.

Segundo o jornalista, Magyar construiu uma ampla coalizão para viabilizar sua vitória eleitoral, o que o levou a moderar o discurso. “Ele se deslocou mais ao centro, a coalizão dele teve apoio até da minúscula esquerda húngara”, afirmou. Ainda assim, Altman ressaltou que essa moderação não altera o caráter político do novo governo.

O ponto central de sua análise está nos efeitos geopolíticos da mudança. Para ele, a vitória de Magyar reforça diretamente a posição da União Europeia e da OTAN na guerra na Ucrânia. “A vitória de Peter Magyar reforça as posições de Bruxelas e reforça a estratégia militar de apoio à Ucrânia”, declarou. Em seguida, concluiu: “Essa não é uma boa notícia, decisivamente”.

Altman afirmou que a Hungria, sob Orbán, atuava como um elemento de tensão dentro da União Europeia e da aliança militar ocidental, ainda que de forma limitada. “A Hungria chiava, mas acabava aquiescendo com as decisões da OTAN e da União Europeia”, disse. Mesmo assim, acrescentou, havia espaço para dissidências pontuais que agora tendem a desaparecer.

Com a mudança de governo, segundo ele, o país deve se alinhar mais firmemente ao eixo franco-germânico. “A Hungria deixa de ser esse voto dissidente, ela passa a compor essa coalizão franco-germânica”, afirmou. Para Altman, isso contribui para aumentar a unidade europeia em torno da estratégia militar contra a Rússia.

Ele também destacou que o resultado foi recebido de forma positiva pelos setores dominantes da Europa. “A imprensa europeia amanheceu abrindo garrafas de champanhe, comemorando”, disse. De acordo com sua análise, a vitória de Magyar é interpretada como uma derrota política tanto para Vladimir Putin quanto para Donald Trump, devido à relação de Orbán com esses líderes.

Apesar disso, Altman advertiu que a avaliação não deve ser feita de forma simplificada. “Às vezes, a gente sabe que a esquerda brasileira é entusiasmada, gosta de comemorar qualquer coisa. Não há motivos de comemoração”, afirmou. Para ele, a análise deve separar a derrota de um líder da extrema direita dos efeitos concretos da nova configuração política.

O jornalista também levantou dúvidas sobre o comportamento futuro do novo governo diante de mobilizações sociais. “O que vai acontecer na Hungria se tivermos manifestações contra a guerra na Ucrânia ou manifestações pró-Palestina?”, questionou. Em sua avaliação, esse será um teste importante para compreender os limites democráticos da nova administração.

Ao final, Altman sintetizou sua posição ao indicar que o resultado eleitoral deve ser analisado com cautela. “Peter Magyar não é flor que se cheire”, afirmou. Segundo ele, trata-se de um dirigente alinhado ao atlantismo e ao liberalismo econômico, com compromissos políticos que ainda precisarão ser testados na prática.

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