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Breno Altman: nenhum país é capaz de sobreviver como Cuba está sobrevivendo

Jornalista relata crise energética na ilha e aponta bloqueio dos EUA como fator central para dificuldades econômicas

Cidade de Havana, capital de Cuba (Foto: REUTERS/Alexandre Meneghini)

247 - Cuba atravessa uma das fases mais delicadas de sua história recente, marcada por uma crise energética profunda que afeta praticamente todos os setores da vida cotidiana. Apesar das restrições, o país mantém sua estrutura social e institucional, o que, segundo o jornalista Breno Altman, evidencia uma capacidade de resistência incomum diante de pressões externas prolongadas.

As declarações foram feitas por Altman em entrevista ao programa Bom Dia 247, após viagem recente à ilha. O analista descreveu um cenário de dificuldades severas, mas destacou que a situação não resultou em desagregação social, mesmo com impactos diretos sobre transporte, produção, educação e serviços básicos.

De acordo com ele, o principal fator por trás da crise atual é o bloqueio energético que limita o acesso de Cuba a combustíveis. O país, segundo explicou, produz apenas parte do petróleo de que necessita e depende de importações que foram interrompidas em determinados períodos recentes, agravando o déficit energético.

“O principal elemento é a crise energética”, afirmou. Em seguida, ressaltou a dimensão da situação: “Nenhum país é capaz de sobreviver como Cuba está sobrevivendo. Isso é um sinal de fortaleza de Cuba e não de fragilidade”.

A escassez de combustível tem provocado apagões frequentes e compromete atividades essenciais. O transporte público e privado sofre restrições, a agricultura enfrenta dificuldades operacionais e o sistema educacional precisou se adaptar, com maior uso de ensino remoto devido à impossibilidade de deslocamento regular.

Mesmo diante desse quadro, Altman afirmou não ter observado um colapso social. Segundo ele, há tensão e insatisfação, mas não um processo de ruptura coletiva. “Você não vê um ambiente de decomposição, de erosão da coesão social”, disse. “A vida está muito difícil, mas não há um cenário de desagregação nacional”.

Durante a visita, o jornalista percorreu áreas periféricas de Havana, como o município de Guanabacoa, com o objetivo de observar as condições de vida fora das regiões centrais. A partir dessa experiência, afirmou que, embora exista pobreza, o país não apresenta o fenômeno das favelas ou da população em situação de rua, comuns em grandes cidades latino-americanas.

Ele comparou a realidade cubana com a brasileira para ilustrar essa diferença. “Se vocês querem saber o que é miséria, vocês têm que ir ao Brasil”, declarou, ressaltando que não pretende minimizar as dificuldades de Cuba, mas contextualizá-las.

Altman também respondeu a críticas sobre a Revolução Cubana, argumentando que qualquer avaliação precisa considerar o bloqueio imposto pelos Estados Unidos há mais de seis décadas. Segundo ele, esse fator é determinante para entender as limitações econômicas da ilha.

“Cuba está submetida a 64 anos de bloqueio. Ininterrupto”, afirmou. Para o jornalista, ignorar esse contexto leva a análises distorcidas sobre o desempenho do país. Ele comparou o caso cubano ao da China, que, segundo disse, só acelerou seu desenvolvimento após o fim de sanções econômicas.

Ao abordar os resultados do modelo cubano, Altman defendeu que o sucesso de um sistema não deve ser medido apenas por indicadores econômicos como o PIB, mas pelo bem-estar social. Nesse sentido, destacou avanços em áreas como saúde e educação.

“A quantidade de médicos por habitante em Cuba é a maior do mundo”, disse. Em outro momento, questionou críticas mais amplas ao sistema: “Que diabo de fracasso seria esse?”.

Ele reconheceu, no entanto, que houve erros ao longo do processo revolucionário. Citou decisões econômicas que mantiveram o país dependente da monocultura e a estatização ampla da economia em determinados períodos. Segundo ele, essas falhas são reconhecidas pelos próprios cubanos, que passaram a adotar modelos mais flexíveis, combinando presença estatal e mecanismos de mercado.

Na área energética, Altman destacou que Cuba vem buscando alternativas para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis. O país estaria investindo na expansão da energia solar, com apoio internacional, especialmente da China, como parte de uma estratégia para enfrentar a crise estrutural.

“A prioridade do governo cubano em termos energéticos é essa”, afirmou. Segundo ele, a mudança da matriz energética é essencial tanto por razões econômicas quanto ambientais.

Ao projetar o futuro da ilha, o jornalista foi categórico ao apontar o bloqueio como o principal obstáculo. “Não existe futuro harmonioso para Cuba enquanto durar o bloqueio”, disse. Para ele, o país tem condições de encontrar soluções próprias caso deixe de enfrentar restrições externas.

“O problema principal de Cuba é externo, não é interno”, acrescentou.

Altman também mencionou a chegada recente de petróleo russo ao país, destacando que esse tipo de ajuda contribui apenas de forma temporária para aliviar a crise. Na avaliação dele, sem mudanças estruturais nas relações internacionais, Cuba continuará enfrentando dificuldades recorrentes.

Ao longo da entrevista, o jornalista reforçou que, apesar das limitações econômicas, a experiência cubana apresenta indicadores sociais relevantes e mantém uma base de coesão que, em sua análise, explica a capacidade de resistência da ilha diante de um cenário prolongado de adversidade.

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