Breno Altman: “Trump quer subjugar a América Latina”
Analista afirma que classificação do PCC e do Comando Vermelho como terroristas amplia instrumentos de pressão dos EUA sobre o Brasil
247 - A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas deve ser compreendida dentro de uma estratégia mais ampla de intervenção norte-americana na América Latina. Essa foi a avaliação do jornalista e analista geopolítico Breno Altman durante participação no programa Bom Dia 247.
Segundo Altman, a medida anunciada pela Casa Branca não representa uma surpresa, mas faz parte de uma orientação estratégica já explicitada pela administração de Donald Trump. Na análise do jornalista, o objetivo central é reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos sobre o continente e ampliar sua capacidade de influência sobre os países latino-americanos.
“O governo norte-americano tem sua agenda. Do ponto de vista estratégico, ela é muito clara: subjugar a América Latina”, afirmou.
Altman citou documentos divulgados pelo governo dos Estados Unidos que, segundo ele, atualizam a chamada Doutrina Monroe, baseada na ideia de que a América Latina constitui uma área de influência prioritária de Washington. Nesse contexto, a luta contra o narcotráfico funcionaria como um dos mecanismos utilizados para justificar ações de ingerência na região.
De acordo com o analista, a classificação de grupos criminosos brasileiros como organizações terroristas produz efeitos que vão além do combate ao crime. A medida aciona dispositivos da legislação norte-americana que permitem a adoção de sanções, bloqueios e até intervenções fora do território dos Estados Unidos sob a justificativa de combate ao terrorismo.
“Se cria uma nova base jurídica para que os Estados Unidos possam sancionar, bloquear e intervir militarmente”, declarou.
Para Altman, a decisão também possui implicações políticas no cenário eleitoral brasileiro. Ele argumenta que o governo Trump busca influenciar a disputa presidencial de 2026 ao favorecer setores alinhados ao bolsonarismo. Embora mantenha relações institucionais com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Washington teria interesse em limitar o papel do Brasil como articulador de posições independentes na América Latina.
Na avaliação do jornalista, a medida pode inicialmente deslocar o debate público para o tema da segurança pública, pauta que historicamente beneficia candidaturas conservadoras. Contudo, ele considera que o impacto mais relevante tende a ocorrer no campo da soberania nacional.
Altman observou que a população brasileira costuma reagir negativamente a iniciativas percebidas como interferência estrangeira em assuntos internos. Por isso, acredita que a decisão norte-americana pode acabar fortalecendo o discurso de defesa da soberania nacional adotado pelo governo federal.
O analista também destacou a resposta oficial do Palácio do Planalto ao anúncio dos Estados Unidos. Segundo ele, a nota divulgada pelo governo brasileiro foi firme ao reafirmar a autonomia das instituições nacionais e ao rejeitar qualquer forma de tutela externa sobre o combate ao crime organizado.
Para Breno Altman, a disputa política gerada pela decisão da Casa Branca não será definida apenas pela agenda da segurança pública. O resultado dependerá da capacidade dos diferentes campos políticos de influenciar a percepção da sociedade sobre a relação entre combate ao crime e defesa da soberania nacional.



