Carlos Minc: 'É mais difícil despoluir a Alerj do que a Baía da Guanabara'
Ex-ministro critica escândalos no Rio, alerta para crimes ambientais e prevê novos desdobramentos políticos no estado
247 - Em entrevista à TV 247, o deputado estadual e ex-ministro do Meio Ambiente Carlos Minc (PSB-RJ) traçou um retrato contundente da crise política fluminense ao comentar os escândalos que atingem o governo estadual, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e o entorno do governador afastado Cláudio Castro. Para resumir sua avaliação sobre o cenário institucional do estado, lançou uma frase que sintetizou o tom de suas críticas: “Hoje é mais difícil despoluir a Alerj do que a Baía da Guanabara.”
Segundo Minc, a comparação não é mero recurso retórico, mas o reflexo de um ambiente político marcado por sucessivos escândalos e pela presença crescente de agentes ligados ao crime organizado. “Tenho vários mandatos e nunca vi três deputados presos simultaneamente por ligação com organizações criminosas. Isso mostra o grau de degradação que atingiu a Assembleia”, afirmou.
Ao comentar as investigações envolvendo o Banco Master e os aportes realizados pela RioPrevidência, o parlamentar disse acreditar que a crise ainda está longe de chegar ao fim e previu novos desdobramentos em curto prazo. “Não dou dez dias para que surjam novos desdobramentos. Essa rede de relações está cada vez mais exposta”, declarou. Para ele, integrantes do grupo político que comandou o estado nos últimos anos tentam agora se desvincular de antigas alianças. “Eles tentam apagar fotografias e vínculos políticos, mas os fatos permanecem. O grupo que governou o estado está cada vez mais enredado nas próprias contradições.”
Minc também demonstrou preocupação com os impactos financeiros que os episódios investigados podem causar aos cofres públicos. Na sua avaliação, eventuais prejuízos acabarão recaindo sobre a população. “O Estado terá de ressarcir os pensionistas. No fim das contas, quem paga a conta dessa irresponsabilidade é toda a sociedade fluminense.”
Apesar das críticas à gestão anterior, o deputado fez uma avaliação positiva da administração interina que assumiu o comando do governo estadual. Segundo ele, medidas de reorganização administrativa e revisão de estruturas consideradas ineficientes estão sendo adotadas. “Ele está desmontando estruturas que funcionavam como cabides políticos e revendo esquemas que se consolidaram ao longo dos últimos anos”, disse.
A conversa também abordou a pauta ambiental, área na qual Minc construiu sua trajetória política. O ex-ministro criticou duramente iniciativas aprovadas pelo Congresso Nacional que, em sua visão, enfraquecem os mecanismos de fiscalização contra crimes ambientais. Como exemplo, citou propostas que limitam o uso de imagens de satélite para monitorar o desmatamento. “Querem impedir o uso de satélites para identificar desmatamento. É como proibir radares de flagrar motoristas que avançam sinais vermelhos”, comparou. Para ele, o país corre o risco de comprometer avanços importantes conquistados nos últimos anos. “Se não mudarmos a composição do Congresso, continuaremos enfrentando obstáculos permanentes para avançar na agenda ambiental.”
Ao falar sobre o avanço tecnológico e a expansão dos data centers no Brasil, Minc adotou uma posição de cautela. Embora tenha afirmado não ser contrário à inteligência artificial nem à instalação dessas estruturas, defendeu que o tema seja debatido de forma mais ampla pela sociedade. “Não sou contra os data centers nem contra a inteligência artificial. O problema é fazer tudo de forma apressada, sem debate público e sem avaliar adequadamente os impactos ambientais.” Entre as preocupações apontadas estão o elevado consumo de água e energia, além do tratamento de resíduos tecnológicos. “É preciso garantir que essa modernização não aconteça às custas do meio ambiente e da população”, ressaltou.
Em um momento mais descontraído da entrevista, Minc relembrou sua convivência com Dilma Rousseff nos tempos da resistência à ditadura militar e destacou a trajetória da ex-presidente, atualmente à frente do Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics. “Quem diria que aquela jovem guerrilheira que enfrentou a ditadura estaria hoje comandando uma instituição capaz de influenciar a arquitetura financeira global”, observou. Ele também recordou, em tom bem-humorado, episódios da época em que Dilma ocupava a Presidência da República. “Quando ela vinha me dar bronca, eu dizia: ‘Calma, Vanda’. Era o nome de guerra dela. Ela se surpreendia e o clima ficava mais leve.”
Ao encerrar suas reflexões sobre o cenário político nacional e estadual, Minc voltou a defender a necessidade de renovação das instituições e de fortalecimento dos mecanismos de controle público. Para ele, o enfrentamento da corrupção e a preservação das políticas ambientais são desafios inseparáveis para o futuro do país.



