Auditor do Banco Central questionou Vorcaro sobre Rioprevidência: "não há garantia"
Auditor do BC questionou Daniel Vorcaro sobre garantias em aplicações do Rioprevidência no Banco Master
247 - Um auditor do Banco Central questionou Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sobre a existência de garantias para recursos aplicados pelo Rioprevidência em caso de quebra da instituição financeira. As mensagens, obtidas pela Polícia Federal em celulares apreendidos de Vorcaro, integram a representação que embasou a mais recente fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na terça-feira (26), e que teve como principal alvo o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), informa a Folha de São Paulo.
Os diálogos envolvem Márcio Contador Camargo, chefe da Subunidade de Supervisão Bancária do Banco Central, responsável por acompanhar instituições financeiras. Em abril de 2025, Camargo enviou a Vorcaro uma reportagem que mencionava depoimento de Euchério Lerner Rodrigues, ex-diretor de investimentos do Rioprevidência, ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.
O depoimento citado tratava da mudança na estratégia de investimentos do fundo previdenciário, que deixou aplicações em grandes bancos para concentrar recursos em letras financeiras emitidas pelo Banco Master. Euchério afirmou ao TCE que o Master mantinha uma carteira de crédito consignado junto ao Rioprevidência e que, em uma eventual quebra do banco, o fundo conseguiria recompor perdas em 23 meses com a receita dessa carteira.
A informação foi contestada por Vorcaro na conversa com o auditor do Banco Central. Ao ser questionado por Camargo sobre o relato, o ex-banqueiro respondeu que a afirmação era “incorreta e imprecisa”. Em seguida, o funcionário do BC perguntou: “Ou seja, não há qualquer garantia na captação da Rio Prev, correto?”.
Antes de responder a Camargo, Vorcaro consultou Alberto Félix, tesoureiro do Banco Master. Em mensagem, perguntou: “Lf da rioprev não tem garantia, né”. Alberto respondeu que não. Depois disso, Vorcaro confirmou ao auditor: “Não há”.
As mensagens são citadas tanto na representação da PF quanto na manifestação da Procuradoria-Geral da República que fundamentaram a operação. Camargo não foi alvo de medidas cautelares nem de pedidos de investigação.
Procurado pela Folha de São Paulo por WhatsApp na quinta-feira (28), Márcio Contador Camargo não se manifestou. O Banco Central também foi consultado por e-mail, mas não havia se posicionado até a publicação da reportagem original. A defesa de Daniel Vorcaro também não respondeu.
PF aponta compra de R$ 970 milhões em letras financeiras do Master
Segundo os investigadores, o Rioprevidência fez, em 2024, um aporte de R$ 120 milhões em letras financeiras do Banco Master. Entre 2023 e 2024, de acordo com a PF, o fundo comprou R$ 970 milhões em letras financeiras da instituição comandada por Vorcaro. Esses papéis não contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.
As conversas entre Camargo e Vorcaro ocorreram pouco depois de o BRB (Banco de Brasília) anunciar interesse na compra de parte dos ativos do Banco Master, em 28 de março de 2025. Naquele momento, o banco enfrentava dificuldades para captar recursos no mercado e precisava cumprir compromissos relacionados ao pagamento de CDBs vendidos com promessa de rentabilidade elevada.
No mercado, a operação com o BRB foi interpretada como uma tentativa de Vorcaro de dar fôlego ao Banco Master. Desde o ano anterior, a instituição já vinha enfrentando obstáculos no recolhimento de compulsórios e na rolagem de obrigações. Em 2024, Vorcaro havia firmado um compromisso que estabelecia prazo de seis meses para corrigir os problemas.
O teor do diálogo mostra que o auditor do Banco Central já avaliava possíveis consequências para o fundo previdenciário do Rio em um cenário de colapso do Banco Master. A fase da Operação Compliance Zero deflagrada na terça-feira foi um desdobramento da Operação Barco de Papel, iniciada em janeiro.
Suspeitas envolvendo o Rioprevidência chegam a R$ 3 bilhões
A PF afirma que o volume de recursos do Rioprevidência no Banco Master sob suspeita alcança R$ 3 bilhões. O valor inclui novos aportes de R$ 2,01 bilhões realizados a partir de julho de 2024 em fundos de investimento ligados à instituição financeira.
A decisão do ministro André Mendonça aponta uma cifra ainda maior. Segundo o documento, os investimentos no Master teriam chegado a R$ 3,69 bilhões, incluindo aplicações em letras financeiras e fundos associados a empresas de fachada vinculadas ao banco.
O Rioprevidência é uma autarquia estadual responsável pela gestão do Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) dos servidores públicos do Rio de Janeiro. O órgão centraliza a arrecadação das contribuições previdenciárias e administra o pagamento de aposentadorias e pensões, com a função de preservar o equilíbrio financeiro necessário ao pagamento dos benefícios no longo prazo.
Em nota, a instituição afirmou que está à disposição para prestar esclarecimentos e colaborar com os órgãos de controle e com a Justiça. “A atual gestão da autarquia ressalta ainda que tem adotado medidas saneadoras e que fortalecem o compliance interno e a segurança dos investimentos”, declarou o Rioprevidência.



