Disputa pelo governo do Rio antecipa rearranjos na direita e na esquerda
Carlos Minc analisa possível saída de Cláudio Castro, planos de Flávio Bolsonaro e dilemas eleitorais para 2026 no estado
247 - A cena política do Rio de Janeiro começa a se reorganizar com antecedência diante da possibilidade de mudanças no comando do Palácio Guanabara e da abertura de uma disputa estratégica envolvendo direita e esquerda. O deputado estadual e ex-ministro do Meio Ambiente Carlos Minc avaliou que o cenário caminha para uma eleição indireta para o governo estadual, caso o atual governador deixe o cargo antes do fim do mandato para disputar o Senado.
Em entrevista ao Bom dia 247, Minc detalhou como a movimentação do governador Cláudio Castro e do senador Flávio Bolsonaro influencia diretamente a formação de alianças e candidaturas no estado. Segundo ele, a expectativa é de que Castro se desincompatibilize ainda no primeiro semestre: “Castro vai sair antes para ter uma eleição extraordinária. Vai, com certeza. O que eles já estão discutindo é que o Castro se desincompatibilizando em fevereiro a março para sair candidato a senador”.
De acordo com Minc, a saída antecipada abriria caminho para que a Assembleia Legislativa escolha um governador tampão até o fim do mandato. Nesse contexto, surgem divergências dentro do próprio campo da direita. “A ideia original do Cláudio Castro era botar um secretário dele, o Nicola Miccione, que é um técnico habilidoso, conversa com todo mundo, mas o Flávio Bolsonaro não quer”, afirmou. Para o deputado, o senador busca um nome com perfil mais ideológico e eleitoralmente competitivo: “Ele quer alguém da direita forte, que seja governador e candidato à reeleição para ele ter um palanque para enfrentar o Eduardo Paes”.
Minc citou como exemplo a preferência de Flávio Bolsonaro por um nome com base na Baixada Fluminense: “O Flávio fala: ‘Não, eu quero alguém tipo Canela’, que é o prefeito de Belford Roxo, para ele virar o governador e ser candidato à reeleição”. Segundo o deputado, a estratégia seria criar um palanque estadual robusto para a disputa presidencial de 2026.
Do lado da esquerda e da centro-esquerda, Minc afirmou que o cenário é de apoio majoritário ao prefeito do Rio, Eduardo Paes, apesar de tensões políticas. “Grande parte da esquerda, excluindo o PSOL, nós estamos com o Eduardo Paes”, disse. Ele reconheceu incômodos com a postura do prefeito: “Às vezes a gente põe um pregador no nariz porque o Eduardo fica bajulando muito à direita”, mas ponderou que Paes mantém uma lógica pragmática. Segundo Minc, o prefeito parte do princípio de que já conta com o voto progressista e busca ampliar apoio em outros campos.
O deputado destacou que a principal preocupação do campo progressista não está apenas no Executivo estadual, mas no Senado. “Hoje em dia as três cadeiras do Senado no Rio são da direita”, afirmou. Ao lembrar a eleição passada, Minc ressaltou a dispersão de votos como fator decisivo: “O Molon teve 1.800.000 votos. O André Ceciliano teve 1.200. Os dois somados teriam mais do que o Romário e o Romário acabou eleito”. Para ele, a lição foi assimilada: “A gente não vai repetir”.
Segundo Minc, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já teria sinalizado o critério para o apoio em 2026. “O Lula já falou: ‘Eu só apoio o candidato a senador que tem a chance real de se eleger’”, relatou. Nesse sentido, o deputado afirmou que nomes como Alessandro Molon e Benedita da Silva discutem uma estratégia comum para evitar divisão: “Quem tiver melhor, a gente vai apoiar pra gente ter um candidato competitivo para eleger pelo menos um senador da esquerda ou da centro-esquerda”.
Minc também comentou especulações sobre outras possíveis candidaturas e tratou como definida a estratégia de alguns quadros: “Anielle é candidata a deputada federal. Freixo federal, Lindbergh federal. Os nomes mais fortes já se definiram como federais”. Para ele, o foco deve ser ampliar bancadas e alterar a correlação de forças no Congresso: “Este Congresso é uma vergonha total. A maioria desse congresso é predatório, corrupto, careta”.
Na avaliação do deputado, o Senado se tornou um objetivo central da direita. “A direita tá de olho no Senado para fazer impeachment pros ministros”, afirmou. Diante disso, defendeu a disciplina política no campo progressista: “Não adianta votar só no Lula, a gente tem que melhorar esse Congresso”.
Ao concluir sua análise, Minc avaliou que, apesar de erros recorrentes, a esquerda ainda mantém vantagem estratégica no Rio. “A esquerda erra muito, felizmente a direita erra muito mais”, disse, ao citar movimentos recentes do bolsonarismo que, segundo ele, acabaram fortalecendo adversários. Para o deputado, o desafio central será evitar divisões internas e estruturar candidaturas competitivas para enfrentar um cenário que já começa a se desenhar antes mesmo do calendário eleitoral oficial. Assista:



