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Estamos numa terceira guerra? Pedro Costa Jr analisa disputa entre EUA e China

Cientista político aponta riscos da escalada global e seus efeitos sobre o Brasil

Xi, Trump e Putin (Foto: Reuters)

247 - A intensificação das tensões internacionais, a guerra na Ucrânia, a rivalidade entre Estados Unidos e China e a pressão crescente sobre a América Latina deram o tom da entrevista do cientista político Pedro Costa Jr ao programa Horta da Verdade, da TV 247. Ao longo da conversa, ele analisou se o mundo já vive, na prática, uma terceira guerra mundial, ainda que sem a formalização histórica que costuma marcar o início dos grandes conflitos.

Na entrevista exibida pela TV 247, Pedro Costa Jr afirmou que a disputa entre Washington e Pequim passou a estruturar o cenário global e sustentou que a parceria entre Rússia e China abriu uma nova etapa de enfrentamento estratégico com o Ocidente.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de o planeta já ter ingressado em uma terceira guerra mundial, o cientista político evitou uma resposta definitiva, mas ressaltou que o tema já ocupa o centro das discussões internacionais. “Essa é uma questão global”, disse. Em seguida, acrescentou: “Essa questão está presente, ela tá na mesa, ela tá na pauta do dia”.

Na avaliação de Pedro Costa Jr, um ponto de inflexão decisivo ocorreu em fevereiro de 2022, quando Vladimir Putin e Xi Jinping consolidaram uma parceria estratégica que, segundo ele, alterou de forma profunda a correlação de forças no sistema internacional. Para o analista, aquele movimento representou um desafio direto à ordem liderada pelos Estados Unidos no pós-Guerra Fria. “A hegemonia americana acabou”, afirmou.

Segundo ele, a guerra na Ucrânia não deve ser lida apenas como um confronto regional, mas como um embate que envolve o conjunto do aparato político e militar da OTAN. Ainda assim, Pedro Costa Jr sustenta que o significado mais amplo do conflito está na demonstração de que o Ocidente já não opera em uma posição de conforto absoluto. “Há uma vontade militar da Rússia suportada pela China e jogada na guerra da Ucrânia. Isso muda a circunstância, muda o eixo”, declarou.

Durante a entrevista, ele também destacou que a superioridade militar dos Estados Unidos não elimina a mudança estrutural em curso. Na sua leitura, além da dimensão nuclear, o fator decisivo passa a ser a disposição de sustentar zonas de influência consideradas estratégicas. Nesse ponto, apontou Taiwan e o Mar do Sul da China como os limites mais sensíveis para Pequim. “O que ela não vai abrir mão é dessas zonas estratégicas, Mar do Sul da China e Taiwan. Isso para ela é inegociável”, afirmou.

Ao tratar da posição chinesa, Pedro Costa Jr observou que Pequim não busca a guerra como objetivo político. Ao contrário, seu interesse central seria preservar a estabilidade necessária para manter sua expansão econômica e comercial. “Para a China não interessa a instabilidade global, não interessa guerra”, disse. Em seguida, resumiu: “Ela quer fazer negócios”.

A análise do cientista político também se voltou para a estratégia dos Estados Unidos diante da ascensão chinesa. Segundo ele, Washington passou a agir de forma mais agressiva para tentar recuperar espaços perdidos no sistema internacional, especialmente na América Latina. Em sua avaliação, esse movimento já alcança diretamente países estratégicos da região. “Os Estados Unidos perceberam que eles perderam território para a China num sistema internacional. Eles estão tentando fazer a retomada do poder global”, declarou.

O Brasil apareceu como um dos pontos centrais dessa disputa. Ao comentar a posição brasileira no atual tabuleiro geopolítico, Pedro Costa Jr afirmou que o país enfrenta riscos concretos em meio à nova ofensiva norte-americana, sobretudo por seu peso econômico, por suas reservas minerais e por sua crescente inserção em circuitos alternativos de poder. “Primeiramente, o papel do Brasil é sobreviver”, afirmou.

Apesar do alerta, ele também avaliou que o atual momento abre possibilidades que não existiam sob uma hegemonia incontestada dos Estados Unidos. Para o cientista político, a disputa entre grandes potências cria brechas que podem ser aproveitadas por países com projeto nacional e política externa soberana. “Se a gente tiver um projeto nacional articulado com a política externa soberana, dá para pensar grande”, disse.

A entrevista também serviu para a apresentação do livro Estados Unidos versus China: a luta pelo poder global, obra em que Pedro Costa Jr examina a ascensão chinesa e o declínio relativo da potência norte-americana. Segundo ele, o século XXI está em aberto e será definido pela disputa entre os dois países. “O segundo quartel, os próximos 25 anos deste século, vai ser e já é a disputa pelo poder global entre Estados Unidos e China”, afirmou.

Ao resumir sua leitura histórica, o cientista político rejeitou a ideia de que o século XXI será apenas uma continuação automática da predominância dos Estados Unidos. “Esse é um século aberto, é um século em disputa”, declarou.

Sem cravar que o planeta já entrou formalmente em uma terceira guerra mundial, Pedro Costa Jr deixou claro que o sistema internacional atravessa uma fase de ruptura, marcada pela erosão da ordem unipolar, pela escalada da rivalidade entre potências e pelo aumento da pressão sobre países periféricos como o Brasil.

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