João Cezar: podemos estar diante do princípio da terceira guerra mundial
João Cezar de Castro Rocha afirma que a ofensiva dos EUA contra a Venezuela pode destruir a ordem internacional
247 - A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela pode representar muito mais do que uma crise regional. Para o historiador e ensaísta João Cezar de Castro Rocha, o mundo vive um momento-limite, em que decisões tomadas por Washington colocam em risco toda a arquitetura internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, a conjuntura atual aponta para um cenário extremo, sem precedentes desde o século XX.
A avaliação foi feita durante entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, em análise que também repercutiu no Brasil 247. Ao longo da conversa, Castro Rocha afirmou de forma direta: “Nós estamos assistindo, na verdade, potencialmente, ou ao princípio da Terceira Guerra Mundial ou ao princípio final da decadência americana”. A declaração sintetiza a gravidade do momento geopolítico, segundo sua leitura histórica.
O retorno explícito da lógica imperial
Na entrevista, o historiador sustentou que a política externa dos Estados Unidos deixou de operar sob disfarces ideológicos. Para ele, não se trata mais da Doutrina Monroe em sua forma retórica, mas da aplicação radical do corolário Roosevelt, formulado em 1904, que autorizava intervenções militares na América Latina para proteger interesses econômicos norte-americanos.
Castro Rocha explicou que esse princípio sempre esteve presente na política externa dos EUA, mas agora retorna de forma aberta e cínica. Segundo ele, a lógica atual é simples e brutal: países que concentram recursos estratégicos, como petróleo e terras raras, não podem permanecer fora do controle norte-americano. Essa postura, afirmou, rompe qualquer verniz diplomático e escancara a lógica do poder.
Venezuela como ponto de ruptura global
Ao analisar o caso venezuelano, o historiador destacou que o país reúne condições estratégicas centrais: grandes reservas de petróleo, minerais essenciais para a tecnologia da informação e posição geopolítica sensível. Para Castro Rocha, se os Estados Unidos conseguirem impor sua vontade sobre a Venezuela, abrirão um precedente devastador.
Ele alertou que uma eventual vitória norte-americana teria efeito dominó imediato. Em suas palavras, a China não ficaria inerte em relação a Taiwan, e a Rússia passaria a considerar legítima a ocupação integral da Ucrânia. “Acabará qualquer espécie de regulação no plano internacional”, afirmou, ressaltando que o respeito às instituições multilaterais se tornaria irrelevante diante da lei do mais forte.
O colapso da ordem do pós-guerra
Durante a entrevista, Castro Rocha relembrou que, após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações foi criada para evitar novos conflitos globais — tentativa que fracassou quando as grandes potências passaram a desrespeitar suas regras. Depois da Segunda Guerra, a Organização das Nações Unidas assumiu esse papel, estabelecendo limites formais à ação militar dos Estados.
Segundo o historiador, o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atua deliberadamente para minar esse sistema. Ele citou o desmonte do financiamento à ONU e o desprezo aberto pelas normas do direito internacional como sinais de que Washington já não reconhece qualquer instância reguladora acima de seus interesses imediatos.
Para Castro Rocha, se o sequestro de um chefe de Estado e a intervenção direta em um país soberano forem normalizados, o mundo entrará em uma fase de completa instabilidade. Países mais fortes passarão a agir sem restrições contra países mais fracos, repetindo padrões do imperialismo do início do século XX.
Entre a guerra mundial e a decadência dos Estados Unidos
A análise apresentada no Boa Noite 247 não se limita ao plano externo. Castro Rocha ressaltou que há também implicações internas graves para os próprios Estados Unidos. Ele lembrou que, pela Constituição norte-americana, o presidente não pode se engajar em ações de guerra sem autorização do Congresso, o que levanta questionamentos jurídicos profundos sobre a legalidade das operações.
Nesse contexto, a tentativa de enquadrar ações militares como combate ao terrorismo seria, segundo ele, a única saída para evitar uma crise institucional ainda maior. Mesmo assim, o historiador observou que, diferentemente de outros momentos históricos, não houve mobilização patriótica significativa dentro dos Estados Unidos, o que revela fragilidade política e isolamento do governo.
Um mundo à beira do colapso
Ao final da entrevista, Castro Rocha enfatizou que o desfecho da crise dependerá, em grande medida, da resistência interna na Venezuela e da reação da comunidade internacional. Para ele, a história mostra que guerras de libertação nacional têm enorme capacidade de mobilização e desgaste do invasor, o que pode transformar a Venezuela em um conflito prolongado, com impactos imprevisíveis.
Ainda assim, o alerta central permanece: o mundo entrou em uma zona de perigo. Seja pelo caminho de uma escalada militar global, seja pela corrosão definitiva da autoridade dos Estados Unidos, a conjuntura atual, segundo o historiador, marca um ponto de inflexão histórico cujas consequências ainda estão em aberto.


