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“Legitimar Conselho da Paz é legitimar a violência”, diz Genoino

Ex-presidente do PT afirma que convite feito por Trump ao Brasil afronta o multilateralismo e os princípios da política externa brasileira

Donald Trump e José Genoino (Foto: REUTERS/Nathan Howard | ABR)

247 - O ex-presidente nacional do PT José Genoino criticou de forma direta a proposta de criação do chamado Conselho da Paz, anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. Para Genoino, a iniciativa não tem relação com a promoção da paz e representa uma tentativa de legitimar ações de força conduzidas pelo governo norte-americano no cenário internacional.

Em entrevista ao programa Bom Dia 247, Genoino afirmou que a participação do Brasil no conselho seria incompatível com os princípios constitucionais que orientam a política externa do país. Segundo ele, o convite feito a líderes internacionais, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, deve ser recusado por representar uma adesão simbólica à hegemonia dos Estados Unidos.

Ao comentar o anúncio feito por Donald Trump, Genoino foi enfático ao rejeitar a proposta. “O imperialismo hoje mata, massacra, elimina, mas ao mesmo tempo ele tenta se legitimar. Aí monta o Conselho da Paz”, afirmou. Na avaliação do ex-dirigente do PT, a iniciativa deveria receber outra denominação: “Podia se chamar o conselho da guerra, o conselho da violência, o conselho da dominação escrachada”.

Genoino argumentou que aceitar integrar o órgão significaria chancelar práticas que violam o direito internacional. “Legitimar o Conselho da Paz é legitimar a violência. É passar a mão na cabeça dos genocidas, é legitimar o que eles querem fazer em Gaza”, declarou, ao relacionar a proposta à política externa adotada pelo governo dos Estados Unidos em conflitos recentes.

O ex-presidente do PT também ressaltou que a defesa da paz e do multilateralismo já está prevista na Constituição brasileira. “A defesa da paz, do multilateralismo, da solidariedade e da autodeterminação dos povos são bandeiras inegociáveis que estão no artigo 4º da Constituição”, disse. Para ele, a participação no conselho significaria negar esses fundamentos. “Participar deste conselho é aceitar a hegemonia americana. É negar a política multilateral e a necessidade de reformar as instituições internacionais”.

Genoino avaliou ainda que uma eventual adesão representaria uma ruptura profunda com a tradição diplomática brasileira. “Uma decisão de integrar esse conselho significaria uma tragédia política, uma virada profunda na política externa do Brasil, na trajetória do Lula e do próprio PT. É impensável”, afirmou.

Segundo ele, o governo brasileiro deve seguir buscando articulações internacionais para evitar o isolamento, sem abrir mão de princípios. “O mundo hoje caminha com duas facetas: enfrentamento e negociação. Não é só negociação. Se você entra na lógica da ameaça permanente, o resultado é a submissão”, disse.

Ao comentar o cenário internacional, Genoino sustentou que a proposta de Donald Trump não encontra respaldo global. “Ninguém acredita nessa paz alardeada pelo Trump. A opinião pública mundial não confia nesse autoritarismo de um único país querendo decidir tudo”, afirmou, defendendo que o Brasil mantenha uma posição autônoma e articulada com outras nações.

Para o ex-presidente do PT, a recusa ao Conselho da Paz não representa isolamento, mas coerência com uma estratégia de longo prazo. “O Brasil tem que construir alternativas de diálogo e fortalecer um caminho que não seja o da submissão. Aderir por medo é o caminho do suicídio político”, concluiu.

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