Genoino diz que classe dominante brasileira é “corrupta, autoritária e entreguista” e cobra enfrentamento ao imperialismo
Em entrevista à TV 247, ex-presidente do PT critica governadores que apoiam Trump, defende mobilização popular e uma nova política de defesa nacional
247 – O ex-deputado federal e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores José Genoino afirmou que a classe dominante brasileira é “corrupta, autoritária e entreguista” e que o país vive uma encruzilhada histórica que exige enfrentamento político, mobilização popular e clareza de lado.
Logo no início da conversa, Genoino sintetizou sua avaliação do momento político brasileiro e internacional. “A classe dominante brasileira é corrupta, autoritária e entreguista. Por isso que nós temos que ter essa clareza para lutar por um Brasil diferente do que tá aí”, afirmou, ao comentar desde o escândalo do Banco Master até a postura de autoridades brasileiras diante da ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela.
Segundo ele, não se trata sequer de uma elite no sentido clássico do termo. “Isso não é elite. Coisa em lugar nenhum do mundo ser elite. É baixo nível demais”, disse, ao criticar governadores que manifestaram apoio a Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Para Genoino, essas posições revelam um “espírito vira-lata” e uma tradição histórica de subserviência. “Essa subserviência, esse entreguismo não tem ideia de projeto nacional, de soberania nacional, de democracia, de amor pelo povo”, afirmou.
Durante a entrevista, Genoino avaliou que a crise atual tem um aspecto pedagógico. “A crise tá deixando claro as coisas. Não precisa interpretar muito, é só ver. É um verdadeiro manual de política, um verdadeiro manual de teoria política”, disse. Para ele, a conjuntura junta, de forma explícita, a luta antiimperialista, a defesa da democracia e a luta por direitos sociais.
O dirigente histórico do PT relatou sua participação em atos recentes e disse ver o início do ano marcado por mobilização. “Eu sou otimista, até porque o ano tá se iniciando no clima de luta”, afirmou. Ele citou o ato em frente ao consulado dos Estados Unidos em solidariedade à Venezuela e a mobilização em memória do 8 de janeiro. Também declarou apoio à decisão do presidente Lula de vetar o projeto que alterava a dosimetria das penas dos condenados pelos atos golpistas. “O Lula deu uma grande contribuição”, disse.
Genoino foi enfático ao criticar a tentativa de relativizar as penas dos golpistas. “Quando era o andar de baixo, eles não falavam em dosimetria. Quando chegou no andar de cima, aí vem a dosimetria e eles se vitimizam como coitadinhos”, afirmou. Para ele, há uma tentativa recorrente de “passar o pano” e repetir o padrão histórico brasileiro de “mudar alguma coisa para que nada mude”.
Na avaliação do ex-deputado, a grande mídia tem papel central nesse processo. “A maneira como a grande mídia monopolista cobre essa questão da dosimetria é uma vergonha”, afirmou. Segundo ele, práticas que antes eram tratadas como inaceitáveis estão sendo normalizadas. “O grande problema é que a barbárie tá sendo normalizada como algo que faz parte da vida”, alertou.
No plano internacional, Genoino afirmou que o mundo vive uma situação de extrema gravidade diante da postura dos Estados Unidos sob o governo Trump. “Nós estamos diante de uma grave ameaça. É uma situação muito extremada o que esse imperador tá fazendo com o mundo”, disse. Ele criticou a ideia de “paz pela força” e afirmou que Trump “perdeu qualquer vergonha de assumir os seus interesses”, citando explicitamente o petróleo da Venezuela e ameaças a outros países, como Cuba e a Groenlândia.
Para Genoino, a resposta do Brasil deve passar por uma política externa ativa e pela integração regional. Ele elogiou os contatos feitos pelo presidente Lula com Colômbia, México e outros países. “O presidente Lula tomou uma decisão correta. A posição dele tá evoluindo para uma definição mais clara sobre a integração latino-americana”, avaliou. Ao mesmo tempo, criticou duramente a Europa. “A Europa é vassala. A Europa é uma vergonha”, afirmou.
Outro eixo central da entrevista foi a política de defesa nacional. Genoino defendeu uma profunda reformulação das Forças Armadas, com nova doutrina e subordinação efetiva ao poder civil. “Não basta só botar dinheiro. Simplesmente aumentar o orçamento sem discutir uma política é um equívoco”, disse. Para ele, é necessário abandonar a lógica do “inimigo interno” e reconhecer que as ameaças são externas. “Não é o inimigo interno, é o externo com todas as letras”, afirmou.
Ele defendeu investimentos em áreas estratégicas. “O Brasil tem que investir na guerra cibernética, no enriquecimento do urânio, na tecnologia do espaço aéreo”, disse, alertando para riscos à soberania, como a cessão da base de Alcântara e a gestão estrangeira de satélites brasileiros. Segundo Genoino, sem um projeto de desenvolvimento autônomo, não há política de defesa consistente.
Genoino também fez críticas à trajetória histórica das Forças Armadas, marcada, segundo ele, pela doutrina da tutela e pela formação voltada contra o próprio povo. “O conceito do povo como inimigo gerou um despreparo total para a verdadeira defesa da soberania nacional”, afirmou. Para ele, é urgente estabelecer uma nova doutrina de defesa nacional, alinhada às exigências de um mundo em crise.
Ao longo da entrevista, o ex-presidente do PT ressaltou que o Brasil vive uma disputa profunda. “É um Brasil em disputa”, afirmou, destacando que estão em jogo a democracia, os direitos do povo negro, das mulheres, dos povos originários, o desenvolvimento econômico e a soberania nacional. “Tudo tá em disputa, tudo escancarado”, disse.
Na avaliação final, Genoino afirmou que não há espaço para ilusões. “Não dá para esperar bons modos do capitalismo”, declarou. Para ele, o único caminho possível é o da luta política e social. “O caminho é o da luta, é o do protesto, é o da indignação, é o de organizar essas energias que tão dispersas”, afirmou, concluindo que a resistência ao imperialismo e à barbárie exige clareza, mobilização e enfrentamento permanente.



