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Leonardo Trevisan: Trump muda o tom com Lula porque a concorrência chinesa chegou ao Brasil

Professor avalia que encontro na Casa Branca expôs disputa entre Estados Unidos e China por investimentos, tarifas e terras raras

Leonardo Trevisan: Trump muda o tom com Lula porque a concorrência chinesa chegou ao Brasil (Foto: Brasil 247)

247 – O professor Leonardo Trevisan afirmou que a mudança de tom do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diante do presidente Lula, revela uma nova percepção de Washington sobre o Brasil: a concorrência chinesa chegou com força ao país e passou a disputar espaço estratégico com os norte-americanos. A análise foi feita em entrevista à TV 247. Para Trevisan, o encontro entre Lula e Trump representou uma inflexão importante, marcada pela substituição da “gritaria” pela diplomacia.

A mudança de tom de Trump diante de Lula

Trevisan disse ter ficado surpreso com o perfil do encontro e, sobretudo, com a postura de Trump. Segundo ele, o presidente norte-americano abandonou o tom tenso adotado em momentos anteriores e passou a tratar Lula de maneira mais pragmática.

“O que mais me chamou atenção foi a mudança de tom. Aquele tom mais tenso, aquele tom que até na Malásia ainda apareceu, desapareceu por completo”, afirmou.

O professor destacou que Trump saiu do encontro chamando Lula de “dinâmico” e demonstrando expectativa positiva em relação aos grupos de trabalho anunciados para tratar de temas como tarifas, comércio e segurança.

Para Trevisan, esse movimento indica que o governo norte-americano começa a perceber que não pode tratar o Brasil apenas pelo viés ideológico. “A gritaria cedeu lugar à diplomacia”, resumiu.

China avança e muda o cálculo dos Estados Unidos

Na avaliação de Trevisan, uma das razões centrais para a mudança de postura de Trump é o avanço dos investimentos chineses no Brasil. Ele citou dados divulgados pela Câmara de Comércio Brasil-China, segundo os quais os investimentos chineses no país em 2025 superaram em 45% os de 2024.

“O Brasil é o grande alvo de investimento chinês. É 10% do total. O segundo é Estados Unidos com 6%. Olha o tamanho da economia brasileira e o tamanho da economia americana”, afirmou.

Segundo ele, esse dado ajuda a explicar a nova disposição de Washington em reabrir canais com Brasília. “Parece que alguma coisa mudou. De fato há uma alteração profunda na visão dos Estados Unidos sobre o Brasil, porque a concorrência chegou”, disse.

Ausência de Marco Rubio chamou atenção

Outro ponto destacado por Trevisan foi a ausência do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, no encontro. Para ele, a falta de um representante direto da diplomacia dos Estados Unidos não parece casual.

“Eu fui procurar, quando terminou, fui fuçar no Google. Eu, pelo menos, na minha pesquisa, não achei nenhuma visita de presidente para os Estados Unidos em que o secretário de Estado não está presente, nem nenhum representante da Secretaria de Estado”, afirmou.

Trevisan avaliou que a ausência pode indicar uma mudança interna no governo Trump e até um possível desgaste de Rubio. “Parece que Rubio está começando a pagar a conta ou há um cansaço em torno de Rubio”, disse.

Lula se apresenta como defensor dos interesses nacionais

Durante a entrevista, Trevisan afirmou que Lula se apresentou em Washington não apenas como um líder de esquerda, mas como um chefe de Estado disposto a negociar com pragmatismo em defesa dos interesses brasileiros.

“Ele se apresenta lá como um candidato que diz: ‘Eu quero trabalhar com os Estados Unidos. Eu quero investimento americano. Eu quero dinheiro deles. Eu quero apoio para as causas aqui. Nós vamos sentar para conversar sobre as terras raras’”, afirmou.

Para o professor, Lula mudou o tom da contestação para uma postura de negociação. A apresentadora Teresa Cruvinel classificou essa postura como “pragmatismo”, e Trevisan concordou: “Você lembrou uma expressão boa: pragmatismo responsável”.

Terras raras e soberania tecnológica

Trevisan também comentou o debate sobre terras raras e a proposta de criação de uma estatal para o setor. Ele demonstrou cautela com a ideia de uma “TerraBras”, mas afirmou que o Brasil precisa construir uma estratégia nacional para não exportar apenas matéria-prima.

“Não adianta nada a gente descobrir os metais, as terras raras, botar num avião e mandar embora”, disse.

Segundo ele, o desafio não está apenas na posse dos minerais, mas no domínio do processamento e da tecnologia. “A China levou mais de 10 anos para organizar toda a estrutura para fazer o processamento de terras raras”, afirmou.

Trevisan destacou que o tema envolve inovação, indústria, inteligência artificial e novos modelos de negócio. “Atrás de terras raras estão essencialmente uma inovação tecnológica. Está uma outra concepção sobre o que é indústria, está uma outra lógica negocial, que é a lógica negocial da era da inteligência artificial”, disse.

Brasil precisa pensar a era da inteligência artificial

Ao final, o professor ampliou a análise e afirmou que a disputa por terras raras deve ser entendida dentro de um novo ciclo tecnológico global. Para ele, o Brasil precisa acordar para a centralidade da inteligência artificial, da inovação e da soberania produtiva.

“Nós vamos ter que aprender a fazer negócio na era da IA e aprender a defender os interesses nacionais na era da IA”, afirmou.

Na avaliação de Trevisan, o encontro entre Lula e Trump deve ser lido como parte de uma disputa maior entre potências por influência econômica, tecnológica e estratégica no Brasil. A presença crescente da China, disse ele, tornou o país ainda mais relevante para os Estados Unidos.

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