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Marandi vê derrota dos EUA no Irã como ponto de inflexão

Acadêmico da Universidade de Teerã sustenta que a resistência iraniana pode abrir uma nova etapa na correlação de forças internacional

Seyed Marandi (Foto: Divulgação)

247 - A guerra contra o Irã pode representar, na visão do professor Seyed Marandi, uma inflexão histórica com efeitos muito além do Oriente Médio. Ao analisar o conflito, o acadêmico sustenta que a resistência iraniana diante da ofensiva atribuída aos Estados Unidos e a Israel pode abrir uma nova etapa na correlação de forças internacional, com impacto sobre a hegemonia ocidental, o papel do chamado sul global e o futuro da ordem mundial.

Em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, Marandi, professor da Universidade de Teerã, afirmou que o embate atual precisa ser compreendido a partir de uma perspectiva histórica mais ampla. Segundo ele, a hostilidade contra o Irã estaria ligada à decisão do país, após a Revolução de 1979, de afirmar sua independência e não se alinhar nem ao bloco ocidental nem ao oriental de então.

Na avaliação do entrevistado, a postura adotada por Teerã desde então, com apoio a movimentos anti-imperialistas e aproximação com países que buscam maior autonomia internacional, teria aprofundado o confronto com Washington. Ao longo da conversa, Marandi citou o apoio iraniano à Palestina, à África do Sul no período do apartheid, a Cuba, à Venezuela e a articulações multilaterais como o Movimento dos Não Alinhados, os BRICS e a Organização para Cooperação de Xangai.Para ele, o pano de fundo do conflito atual está na recusa iraniana em aceitar a posição de excepcionalidade dos Estados Unidos na política internacional. “O império precisa ser derrotado e os Estados Unidos devem se comportar como qualquer outro país do planeta”, afirmou. Em outro trecho, resumiu sua leitura do momento histórico: “Acho que este é um ponto de virada na história”.

Marandi também associou a origem das tensões contemporâneas a episódios anteriores à Revolução Islâmica. Ele mencionou o golpe de 1953, organizado por americanos e britânicos após a nacionalização do petróleo iraniano, e disse que o xá foi mantido no poder com apoio dos EUA e de Israel. Na entrevista, citou ainda a criação da polícia secreta Savak, que, segundo ele, teria sido treinada pela CIA e pelo Mossad.

Conflito é apresentado como disputa histórica

Ao ser questionado sobre o que estaria em jogo na guerra, Marandi afirmou que uma eventual vitória dos Estados Unidos sobre o Irã teria consequências profundas para todo o mundo. Segundo ele, o sucesso de Washington significaria uma reafirmação da ordem imperial ocidental por meios mais diretos e violentos.

“Se os Estados Unidos vencerem, isso será uma notícia muito sombria para o mundo inteiro”, declarou. Na sequência, acrescentou que os métodos antes revestidos por discursos sobre direitos humanos e valores universais teriam sido substituídos, agora, por uma lógica de “brutalidade pura”.

Segundo o professor, uma vitória iraniana produziria o efeito oposto. “Se o Irã vencer, e vai vencer apesar do alto custo, isso significará que, em toda a maioria global, as pessoas poderão se sentir mais fortalecidas diante do império”, disse. Ainda de acordo com ele, esse desfecho seria visto como “um grande sinal do colapso do império americano”.

A entrevista também tratou da percepção de Marandi sobre o apoio popular interno ao Estado iraniano. Para o professor, a capacidade de resistência do país decorre não apenas de recursos militares, mas de uma combinação entre legitimidade política, identidade nacional, tradição religiosa e investimento continuado em capacidades próprias.

Nesse ponto, ele destacou que o Irã passou décadas tentando reduzir sua dependência do Ocidente, desenvolvendo indústrias nacionais, incentivando estudantes e graduados a permanecerem no país e ampliando sua base tecnológica e militar. “Esse sentimento de autoconfiança criado após a revolução permitiu que o país se tornasse muito mais forte e resiliente”, afirmou.

Ataques a civis e acusação de guerra contra a sociedade

Um dos eixos centrais da entrevista foi a acusação de que os ataques não estariam dirigidos apenas a estruturas militares, mas também à sociedade civil iraniana. Marandi relatou episódios que, segundo ele, simbolizam essa estratégia. O mais grave, em sua avaliação, foi o bombardeio de uma escola primária, que teria matado dezenas de meninas, professores e funcionários.

“Foi definitivamente intencional”, afirmou ao comentar o ataque. Segundo Marandi, a escola integrava a primeira leva de alvos da guerra, o que, em sua leitura, afastaria a hipótese de erro operacional. “A primeira onda de alvos em qualquer guerra é cuidadosamente planejada com meses de antecedência”, disse.

Ele também mencionou o bombardeio de um ginásio onde meninas jogavam vôlei e acusou EUA e Israel de realizar ataques de “duplo toque”, em que um local é atingido, equipes de socorro se aproximam e uma nova explosão ocorre. “Eles fazem isso todos os dias”, declarou. Em outro momento, resumiu sua denúncia de forma contundente: “Quando dizem que querem levar o Irã de volta à Idade da Pedra, isso significa matar crianças, destruir a sociedade e apagar um povo”.

Ao longo da entrevista, Marandi argumentou que a ofensiva estaria voltada à desorganização da vida cotidiana no país. Ele relatou bombardeios a hospitais, fábricas farmacêuticas, escolas, universidades, pontes, ferrovias, ambulâncias, caminhões de abastecimento e bases do Crescente Vermelho. “Eles não estão bombardeando os militares. Estão se vingando da população porque não conseguem derrotar os militares”, afirmou.

Em outro trecho, ao descrever a situação em Teerã, o professor foi direto: “As pessoas estão se perguntando se vão sobreviver”. Segundo ele, parte dos hospitais foi fechada, medicamentos ficaram indisponíveis e a rotina de transporte e circulação passou a ser marcada pelo risco permanente.

Referências bíblicas e disputa ideológica

Questionado sobre a referência aos amalequitas, Marandi afirmou que lideranças sionistas recorreram a essa imagem bíblica no início da guerra em Gaza para justificar a eliminação total do inimigo. Segundo ele, a ideia remete a um povo que deveria ser exterminado, incluindo crianças e animais.

Na entrevista, o professor mencionou que a referência aparece, segundo ele, em falas de autoridades israelenses e também na ação apresentada pela África do Sul à Corte Internacional de Justiça. Para Marandi, a evocação dos amalequitas expressaria uma lógica de aniquilação que não se limitaria aos palestinos.

“Para eles, os palestinos são Amalec, mas todos são Amalec”, disse. Na mesma linha, afirmou que o mesmo raciocínio estaria sendo aplicado ao Líbano e, agora, ao Irã. O entrevistado também fez questão de separar sionismo de judaísmo. Ao comentar o bombardeio de uma sinagoga em Teerã, disse: “O regime israelense não apoia os judeus. Ele apoia o sionismo”.

Resistência iraniana, BRICS e efeitos regionais

Ao longo da conversa, Marandi relacionou a resistência iraniana a uma trajetória mais longa de construção de autonomia. Segundo ele, esse processo pode servir de exemplo para outros países em desenvolvimento, inclusive membros dos BRICS, ao mostrar a importância da capacidade industrial, tecnológica e militar própria.

“Há grande razão para estudar o sucesso do Irã, e isso pode ajudar outras nações a desenvolver seus próprios meios de resistência”, afirmou. Ele citou, como base dessa força, tanto a política de desenvolvimento interno quanto a tradição cultural e religiosa ligada à memória de Hussein ibn Ali e à resistência contra a opressão.

O professor também criticou a atuação dos BRICS no conflito. Para ele, o bloco ainda está aquém do que seria esperado por países do sul global. “No momento, os BRICS têm sido basicamente uma decepção”, disse, argumentando que nenhum governo teria adotado sanções, rompido relações ou imposto restrições econômicas a Israel em resposta à guerra.

Na parte final da entrevista, Marandi defendeu boicotes e pressão social contra governos e empresas ocidentais. “Se nós, como seres humanos, não resistirmos quando outros estão sendo oprimidos, esmagados e massacrados, um dia chegará a nossa vez também”, afirmou.

Vida em Teerã sob bombardeios e censura digital

Ao descrever o cotidiano na capital iraniana, Marandi afirmou que a vida segue, mas sob forte tensão. Segundo ele, parte do comércio continua funcionando, embora algumas pessoas tenham deixado a cidade por medo dos bombardeios. Mesmo assim, relatou que manifestações de apoio às Forças Armadas e ao Estado seguem reunindo multidões.

“As pessoas saem às ruas todas as noites, em milhões, apesar dos bombardeios”, disse. O professor relatou ter presenciado ataques contra atos públicos e afirmou que, ainda assim, “ninguém correu, não houve pânico”.

Outro ponto abordado foi o papel das plataformas digitais. Marandi afirmou que contas suas e de outros iranianos foram apagadas ou sofreram restrições em redes como Facebook, Instagram e X. Segundo ele, a circulação de narrativas favoráveis ao Irã estaria sendo limitada em meio à guerra. “As vozes alternativas definitivamente não têm permissão para ter muita presença”, declarou.

A entrevista foi encerrada com uma defesa da legitimidade política da República Islâmica. Ao responder à classificação do regime iraniano como teocrático, Marandi afirmou que o Ocidente recorre a essa definição como instrumento de deslegitimação. Em sua avaliação, a principal evidência de apoio interno está na própria capacidade de resistência do país.

“Se a República Islâmica do Irã não tivesse legitimidade popular, como poderia sobreviver a uma guerra travada por uma superpotência apoiada pelo Ocidente coletivo e por seus aliados na região?”, questionou. Em seguida, concluiu: “Isso significa que a população e o Estado são uma só coisa”.

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