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Mascaro expõe a nova etapa do imperialismo: “É a lei do mais forte, que vem e rouba”

Em entrevista à TV 247, jurista afirma que sequestro de Maduro revela o capitalismo sem disfarces e alerta para a escalada de ameaças na América Latina

Alysson Mascaro lança Crítica do Cancelamento na Casa de Portugal (Foto: Victor Barau)

247 – Em uma entrevista contundente concedida ao jornalista Leonardo Attuch na TV 247, o professor Alysson Leandro Mascaro afirmou que os acontecimentos recentes na Venezuela — descritos no programa como um “sequestro” do presidente Nicolás Maduro por agentes ligados aos Estados Unidos — inauguram uma fase em que o imperialismo deixa de fingir e passa a agir de forma aberta e escancarada. 

A conversa foi transmitida ao vivo no domingo, 4 de janeiro de 2026, e partiu da ideia de que, diante da escalada de Washington, até setores da grande imprensa passaram a expressar desconforto, ainda que sem romper com o alinhamento histórico ao poder estadunidense. O trecho que sintetiza a percepção dessa nova etapa foi enunciado por Attuch, em linha com a análise do jurista: “É a lei do mais forte, que vem e rouba”.

Attuch explicou que, apesar de a entrevista com Mascaro normalmente ocorrer na primeira semana de cada mês, a edição foi antecipada por causa da “emergência” venezuelana. Para Mascaro, o impacto do episódio não pode ser reduzido a um excesso individual de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, nem tratado como uma anomalia psicológica do ocupante da Casa Branca. O jurista sustentou que a crise deve ser compreendida a partir de uma palavra que a imprensa corporativa evita pronunciar, porque ela revela a estrutura real do sistema internacional.

 “O que define exatamente é a palavra imperialismo. (…) Quem não consegue falar a palavra imperialismo não passa na verdade do presente momento”, afirmou.

Ao longo da entrevista, Mascaro insistiu que a recusa em nomear o imperialismo está diretamente ligada à impossibilidade de admitir a palavra que o sustenta: capitalismo. Ele argumentou que os grandes meios de comunicação, os colunistas e setores da academia preferem reagir com espanto moral ou indignação vaga, porque assumir a categoria “imperialismo” obrigaria a encarar as bases materiais do poder global.

 “Falar em imperialismo leva a um conceito que também é outra palavra impronunciável para essa gente. E qual é essa palavra? Capitalismo.”

O império sem fantasia e a crise do disfarce liberal

Mascaro explicou que os Estados Unidos historicamente operam com duas margens ideológicas. Uma delas, associada ao Partido Democrata, utiliza o discurso do liberalismo: direitos humanos, direito internacional, “valores universais” e a ideia de que o capitalismo levaria progresso e democracia ao mundo. A outra, vinculada ao Partido Republicano, não necessita desse verniz: fala a linguagem do medo, da força e do saque direto. Para o jurista, ambas fazem parte da mesma engrenagem, mas o estilo republicano esgarça a máscara.

 “O Trump esgarça até a máscara da ideologia, só que é a mesma. (…) Havendo capitalismo, há imperialismo.”

Attuch reforçou esse ponto ao afirmar que, no estágio atual do capitalismo, a promessa de prosperidade compartilhada perdeu força. Ele comparou os ciclos anteriores do século XX, quando os Estados Unidos combinavam intervenção com pacotes de reconstrução e discursos de “modernização”, com o momento atual, em que a dominação passa a ser declarada sem pudor.

 “Agora é a lei da selva mesmo. Quem é mais forte vem e rouba.”

Na leitura do programa, o que se viu na Venezuela não foi apenas uma escalada pontual, mas um símbolo: o império apresentando-se como proprietário do mundo e impondo sua vontade pelo exemplo, pela intimidação e pela violência.

“Só resta bala”: a decadência que produz terror

Mascaro sustentou que a brutalidade aberta não é um acidente, mas um sintoma da própria decadência estrutural dos Estados Unidos. Ele disse que, sem capacidade de reorganizar seu modelo econômico e já deslocados da liderança produtiva — hoje concentrada na China —, os EUA recorrem cada vez mais à força e ao saque para prolongar sua hegemonia.

 “Só resta uma coisa. Bala. Só resta medo.”

Segundo ele, essa estratégia pode manter por décadas o poder de uma elite que vive “nababescamente”, mas aprofunda o colapso social interno dos próprios Estados Unidos e amplia a destruição externa. O professor lembrou que, mesmo com enorme aparato militar, o império já foi forçado a recuos vergonhosos, como no Afeganistão, e que a lógica do terror contém contradições. Ainda assim, o medo funciona especialmente contra regiões como a América Latina, cujos Estados, na visão dele, não possuem autonomia militar real.

América Latina sob chantagem: submissão cautelosa ou soberania?

Ao tratar do impacto regional, Attuch afirmou que a crise venezuelana expôs com nitidez uma divisão presente no Brasil: de um lado, setores que fingem surpresa enquanto mantêm fidelidade ao imperialismo; de outro, entreguistas assumidos da extrema direita, que tratariam o episódio como um triunfo e até como ameaça direta contra o presidente Lula. Para o jornalista, o “sequestro” de Maduro teria sido didático ao revelar quem defende soberania e quem atua como inimigo interno.

 “Deu para ver exatamente quem está do lado da democracia e quem é inimigo do Brasil.”

Questionado sobre o que resta aos povos diante da chantagem aberta, Mascaro disse que o caso venezuelano ainda é obscuro e que, com menos de 48 horas, seria imprudente fechar conclusões. Ele levantou hipóteses sem cravar nenhuma: falhas defensivas, sabotagem externa, traição por dentro ou acordos de bastidor. Mas enfatizou que o desfecho se transformará em laboratório histórico para compreender os limites da luta política no século XXI.

 “Nós não sabemos direito ainda o que se passou internamente na Venezuela. (…) Isso é uma investigação que tem que ser dos fatos, não só de especulação.”

O dilema da resistência: preservar parte ou perder tudo para ensinar um tempo histórico

Em um dos trechos mais densos, Mascaro apresentou o que considera uma contradição permanente das lutas populares: diante da ameaça imperial, é melhor ceder para preservar conquistas ou resistir até o limite, mesmo que isso signifique perder tudo? Ele citou o papel potencial da vice-presidente Delcy Rodríguez, afirmando que sobre ela poderia recair uma pressão brutal: trair o chavismo para evitar um retrocesso total, ou manter lealdade e correr o risco de destruição completa.

 “É melhor garantir 50% e deixar o povo mais ou menos bem estabelecido ou lutar com dignidade e perder tudo?”

Mascaro declarou que sua posição é a de que a história também se constrói com perdas, porque derrotas podem reorganizar a luta e produzir aprendizado coletivo. Ele comparou essa disposição com exemplos de resistência na história brasileira, lembrando a ditadura militar e o golpe de Estado contra Dilma, além da prisão política de Lula em Curitiba, apontada no programa como parte de um processo de coerção imperial.

O celular como novo “ópio” e a fragilidade subjetiva das massas

Outro ponto forte da entrevista foi a análise de Mascaro sobre a transformação da subjetividade política na era digital. Ele afirmou que, no passado, militantes eram forjados em condições de solidão e sacrifício, capazes de suportar prisão, tortura e isolamento. Hoje, segundo ele, a dependência do celular, das redes sociais e do entretenimento permanente enfraquece a disposição de enfrentar sofrimento prolongado.

 “As pessoas hoje (…) se distraem 24 horas por dia. (…) O celular é o novo ópio do povo.”

Para o jurista, essa mudança pode ser decisiva para compreender a capacidade real de mobilização popular em cenários de confronto, como o que se abre na Venezuela.

O mundo não acaba: “A única saída é o socialismo”

No encerramento, Mascaro rejeitou o discurso catastrofista que, segundo ele, domina parte do debate público. Disse que falar do “fim do mundo” sem tocar no capitalismo é uma forma de impedir a mudança estrutural. Para ele, a crise ambiental, inclusive, só pode ser enfrentada com transformação social radical.

 “A única solução para acabar o catastrofismo é o socialismo.”

Ele citou a China como exemplo de capacidade estratégica e destacou que, mesmo diante do terror imperial, não se pode transformar o episódio venezuelano em sinônimo de derrota definitiva. Para Mascaro, o choque do presente pode ser, paradoxalmente, uma abertura pedagógica: o imperialismo está mais visível, e isso pode fortalecer a consciência política dos povos.

 “Por mais que seja absurdo um caso como esse (…) isso nos desperta eventualmente a ver o que até agora a gente não via. Então a esperança pode estar sim na frente da gente.”

Ao final, Mascaro fez um paralelo entre sua própria perseguição acadêmica e a ofensiva contra Maduro, sustentando que atos de força não silenciam vozes — ao contrário, podem intensificar a denúncia e colocar a verdade “em marcha”.

“Isto não cala uma voz. Isso, pelo contrário, faz com que falemos mais diretamente.”

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