Miguel Nicolelis: a democracia está morrendo nos Estados Unidos
Neurocientista alerta para avanço autoritário, desinformação e IA como ferramenta de controle, e projeta riscos para a eleição brasileira de 2026
247 - O neurocientista Miguel Nicolelis afirmou que a democracia representativa nos Estados Unidos entrou em uma fase de degradação acelerada, com sinais de autoritarismo se instalando “passo a passo” e sem reação institucional à altura. Ao longo de uma entrevista, ele associou esse quadro ao uso político da desinformação e ao peso crescente das grandes empresas de tecnologia na vida pública, avaliando que o modelo democrático americano está “em jogo”.
A análise foi feita por Nicolelis em entrevista ao programa Boa Noite 247. Na conversa, ele também comentou o impacto da inteligência artificial na disputa política e disse esperar que o Brasil enfrente um cenário de alta sofisticação de desinformação na eleição de 2026, caso não haja preparação institucional.
Violência, juventude e a imersão digital
A entrevista começou com uma discussão sobre um caso de extrema crueldade contra um animal no Brasil, levantado pelos entrevistadores como ponto de partida para refletir sobre comportamentos violentos em adolescentes e o papel do ambiente digital. Nicolelis evitou generalizações a partir de um episódio isolado, mas disse haver pesquisas que apontam efeitos da “imersão digital” em crianças e adolescentes.
Ele relatou uma cena que, segundo afirmou, se tornou comum: diante do choro de uma criança, a resposta imediata passa a ser entregar um dispositivo. “É muito comum hoje você vê uma criança começa a chorar, ela ganha um tablet ou ganha um telefone”, disse, acrescentando que, antes mesmo de falar, muitas já aprendem a executar movimentos na tela. Nesse processo, Nicolelis resumiu sua crítica com uma frase: “Essa conveniência está matando a agência do ser humano”.
IA, Guerra Fria e alertas antigos que voltam a se repetir
Ao desenvolver seu raciocínio, o neurocientista afirma estar escrevendo um livro sobre impactos da inteligência artificial na vida moderna e disse ter retomado a literatura das décadas de 1950 e 1960, quando já se discutiam riscos de automatização e perda de supervisão humana em sistemas críticos. A ideia de que alertas antigos foram ignorados apareceu como fio condutor do argumento.
Nicolelis citou autores e pesquisadores ligados à história da tecnologia e da computação, e descreveu um padrão que, segundo ele, se repete: avanço técnico acompanhado de efeitos profundos sobre a cognição e o comportamento social. “A automação… tem efeitos profundos na nossa cognição e na forma como nós nos comportamos”, afirmou.
Desinformação como “vírus informacional” e perda do controle do real
Na parte central da entrevista, Nicolelis sustentou que a inteligência artificial generativa ampliou de forma decisiva a crise de discernimento público, tornando cada vez mais difícil diferenciar verdade e falsidade em conteúdos digitais. “A grande contribuição da inteligência artificial generativa foi criar as condições para que você perdesse o controle do que é verdade nas redes sociais, na produção de vídeos, produção de áudios”, disse.
Ele descreveu esse mecanismo como um processo de contaminação mental em massa: “Eu chamo isso de um vírus informacional”, afirmou, ao explicar que uma peça falsa, quando difundida em escala, “sincroniza” milhões de pessoas em uma narrativa e depois se torna quase impossível desfazê-la. Na avaliação do neurocientista, a desinformação explora “arquétipos” e impulsos primitivos para mobilizar medo e agressividade política.
“Ferramenta de dominação e controle”
Ao rechaçar a visão de que a inteligência artificial representa apenas progresso tecnológico, Nicolelis foi direto ao afirmar o que considera ser o objetivo estrutural dessa indústria. “A inteligência artificial é basicamente uma ferramenta de dominação e controle”, declarou, relacionando a automação total a uma lógica de maximização de lucro e redução do custo do trabalho humano.
Ele também mencionou riscos e responsabilidades legais envolvendo chatbots e aplicações de IA em contextos sensíveis, citando situações em que pessoas estabelecem vínculos afetivos ou terapêuticos com sistemas automatizados. “As pessoas estão estabelecendo relações amorosas… e isso tá levando a até suicídios”, disse, ao abordar consequências que, segundo ele, já geram disputas judiciais.
Trump e o que Nicolelis descreve como instalação de uma ditadura “em tempo real”
Questionado sobre o cenário político nos Estados Unidos sob Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, Nicolelis afirmou que o país estaria vivendo um processo visível de endurecimento do poder. Ao ser perguntado sobre como seria uma ditadura com apoio de novas tecnologias, respondeu: “A gente tá vendo em tempo real… a gente tá vendo ela ser instalada passo a passo”.
Na entrevista, ele citou episódios e práticas que, segundo descreveu, alimentam medo e intimidação, como a identificação e o registro de manifestantes em bancos de dados. Também afirmou que protestos têm ocorrido, mas sem tradução efetiva em decisões do Congresso e com atuação limitada do Judiciário. Na avaliação do neurocientista, o impasse vai além de políticas pontuais e alcança o próprio modelo de democracia representativa, que estaria sendo contestado por setores poderosos do Vale do Silício.
Data centers, custos ambientais e comparação com o modelo chinês
Em outro trecho, Nicolelis criticou a atração de grandes data centers para o Brasil, descrevendo esse tipo de empreendimento como “parasita” do ponto de vista social e ambiental. “Eles são verdadeiros parasitas digitais, não tem geração de emprego, não tem transferência tecnologia”, afirmou, dizendo que o principal impacto seria consumo elevado de energia e água.
Ele também destacou que, segundo sua descrição, comunidades nos Estados Unidos estariam reagindo aos custos desse modelo, citando aumento de conta de luz e uso de água potável. Ao comparar abordagens, afirmou que a China teria seguido outro caminho: “O modelo da China… são pequenas empresas com investimentos muito menores, com treinamento específico”, defendendo aplicações mais direcionadas e menos dependentes de estruturas gigantescas.
Eleição de 2026 no Brasil: “bombardeio em múltiplas frentes”
Ao final, Nicolelis projetou um cenário de intensa disputa informacional no Brasil e afirmou que o eleitor será exposto a uma ofensiva ampla e simultânea. “Vai ser um bombardeio em múltiplas frentes… em todos os canais de comunicação disponíveis”, disse, argumentando que nada estaria decidido com antecedência e que crises e episódios de última hora podem virar eleições.
Ele defendeu que a Justiça Eleitoral precisará se preparar com antecedência e com apoio de especialistas fora do círculo estritamente jurídico, diante do que chamou de sofisticação crescente da desinformação. E fechou com um aviso resumido na recomendação atribuída a Benjamin Franklin: “Sempre durma com um olho aberto e o outro fechado”.


