“O império do caos entrou em pânico ao ser expulso da eurásia”, diz Pepe Escobar
Pepe Escobar afirma que ações de inteligência e guerras híbridas revelam desespero do Ocidente diante da reorganização geopolítica global
247 - A escalada das tensões internacionais, os protestos no Irã e o risco de um confronto militar direto no Oriente Médio foram analisados pelo jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar em entrevista ao programa Judging Freedom, apresentado pelo juiz Andrew Napolitano. Ao longo da conversa, Escobar traçou um panorama crítico das ações de potências ocidentais, descrevendo um cenário de instabilidade marcado por operações de inteligência, guerras híbridas e disputas estratégicas cada vez mais abertas.
A entrevista, veiculada em vídeo no YouTube e baseada na participação direta de Escobar, foi conduzida no contexto da publicação de seu artigo The Empire of Chaos Strikes Again, citado pelo apresentador como referência central para compreender os acontecimentos recentes no Irã e a postura dos Estados Unidos e de seus aliados.
Segundo Escobar, as agências de inteligência ocidentais erraram gravemente sua leitura da situação iraniana por não possuírem inserção real na sociedade do país. “Eles não têm inteligência no terreno”, afirmou, ao explicar que CIA, MI6 e Mossad operam a partir de células infiltradas, informantes e o que chamou de “quinta coluna”, sem compreender a vida cotidiana da população iraniana. Para ele, manifestações inicialmente legítimas, motivadas pelo aumento do custo de vida, foram instrumentalizadas por essas estruturas externas.
O analista descreveu o padrão das ações como típico de processos de “revoluções coloridas”. “O modus operandi é o mesmo de todas as revoluções coloridas”, disse, comparando a situação no Irã com o que presenciou em Hong Kong, em 2019. De acordo com Escobar, pessoas foram pagas para incendiar estações de metrô, ônibus, prédios públicos e instalações governamentais, em uma estratégia coordenada a partir do exterior.
Um dos elementos centrais dessa articulação, segundo ele, foi o uso do sistema de internet via satélite Starlink. Escobar afirmou que, no momento em que o Irã conseguiu bloquear o serviço com apoio técnico da Rússia e da China, a operação perdeu força. “No minuto em que os iranianos conseguiram bloquear o Starlink, tudo acabou”, declarou. Ele acrescentou que o monitoramento prévio das comunicações explica o grande número de prisões posteriores, resultado de um processo de triangulação de dados.
Sobre as consequências internas, Escobar negou a existência de execuções públicas e caracterizou as acusações nesse sentido como parte de uma campanha de propaganda. “Eles serão julgados e encarcerados, a maioria por prisão perpétua”, afirmou, ao comentar os processos contra os envolvidos. Também indicou que o país caminha para um modelo de internet mais fechado, regionalizado, semelhante ao sistema chinês. “É uma forma de sobrevivência”, disse.
Ao analisar o papel do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Escobar foi direto ao afirmar que ele não reconheceria fracassos em tentativas de mudança de regime. “Ele é um megalomaníaco narcisista, nunca admitiria que falhou”, disse, ao comentar os casos do Irã e da Venezuela. Para o analista, a mudança constante de narrativa — como a ênfase repentina em temas como Groenlândia — revela a ausência de uma estratégia consistente, enquanto as elites políticas da Otan estariam “absolutamente aterrorizadas”.
Escobar também comentou declarações atribuídas a Trump sobre o presidente francês Emmanuel Macron, relatando o profundo desgaste político interno na França. Segundo ele, “98% dos eleitores franceses gostariam que Macron estivesse fora desde ontem”, embora o sistema político do país não preveja mecanismos diretos de destituição semelhantes ao impeachment norte-americano.
Um dos momentos mais graves da entrevista ocorreu quando Escobar abordou episódios de extrema violência durante os distúrbios no Irã. Ele afirmou que houve decapitações e degolas, algo que, segundo ele, não tem precedentes na história moderna do país. “Isso é o manual do ISIS”, declarou, sustentando que esses grupos teriam sido importados de regiões de fronteira, como áreas próximas ao Afeganistão, Tajiquistão e ao Baluchistão paquistanês. Para Escobar, o objetivo dessas ações foi provocar repulsa generalizada e tentar culpar o governo iraniano desde o início.
O analista também alertou para o risco iminente de um ataque militar ao Irã. “Todas as apostas estão fora”, afirmou, ao mencionar a movimentação do porta-aviões USS Abraham Lincoln em “modo fantasma”. Segundo ele, a embarcação poderia se posicionar em poucos dias no mar de Omã, colocando-se a uma curta distância operacional do território iraniano. Escobar ressaltou que, em caso de ataque, a resposta iraniana seria imediata. “Ao primeiro indício de ataque, eles responderão”, disse, mencionando a possibilidade de ações contra Tel Aviv e bases norte-americanas no Golfo.
Ao tratar das relações entre Estados Unidos e Rússia, Escobar descreveu como “extremamente séria” a suspeita, nos círculos de poder em Moscou, de envolvimento da inteligência norte-americana em um ataque contra uma das residências do presidente Vladimir Putin. Segundo ele, o Ministério da Defesa russo apresentou evidências às autoridades militares dos EUA, embora sem torná-las públicas. “Há uma forte corrente em Moscou que acredita que tentaram matar o presidente”, afirmou.
Para Escobar, esse episódio enterra de vez qualquer ilusão sobre negociações de boa-fé entre Washington e Moscou. Ele citou o chanceler russo Sergey Lavrov para sustentar que os Estados Unidos são “não confiáveis para acordos”. Nesse contexto, o analista ironizou a proposta de Trump de criar um “conselho de paz” global. “É uma tentativa de criar uma ONU trumpista, um golpe financeiro”, disse, ao afirmar que o projeto envolveria a cobrança de US$ 1 bilhão por país participante e dificilmente seria aceito por Rússia e China.
Encerrando a entrevista, Escobar resumiu sua leitura do momento histórico ao afirmar que o comportamento do Ocidente decorre do medo de perder espaço estratégico. “Esse pânico de ser expulso da Eurásia explica tudo o que está acontecendo agora”, concluiu, conectando conflitos regionais, disputas econômicas e a ofensiva geopolítica do que define como o “império do caos”.


