“O Lula representa a paz e o amor, mas a campanha vai ser de guerra”, diz Rui Falcão
Rui Falcão analisa 2026, a fragmentação da direita e a estratégia do PT para ampliar apoio social e parlamentar
247 - O deputado federal Rui Falcão (PT-SP), ex-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, afirmou que a disputa presidencial de 2026 exigirá mobilização intensa e confronto político direto. Para ele, não há espaço para ilusões diante do grau de polarização do país. “O Lula representa a paz e o amor, mas a campanha vai ser de guerra, de conflito e de enfrentamento. Não temos por que recuar”, declarou, ao defender que a esquerda trate o processo eleitoral como uma disputa dura, sustentada por organização social.
A avaliação foi feita em entrevista concedida à TV 247, no programa Horta da Verdade – Cenários de 2026, apresentado pelo historiador Fernando Horta. Ao longo de mais de duas horas de conversa, Rui Falcão abordou o cenário eleitoral, as divisões no campo conservador, os desafios internos do PT e a conjuntura internacional.
Direita fragmentada e risco de triunfalismo
Segundo Falcão, a fragmentação da direita brasileira decorre tanto do sistema partidário quanto da ausência de projetos claros. “O sistema permite a criação de partidos sem programa e sem identidade ideológica definida”, afirmou. Embora reconheça que essa divisão possa favorecer o presidente Lula no primeiro momento, ele alertou contra qualquer sensação antecipada de vitória. “Essa fragmentação não pode nos levar à euforia nem à ideia de que a eleição está ganha.”
O deputado também rejeitou a separação rígida entre direita e extrema direita. “Prefiro trabalhar com a ideia de direita como um todo, porque a experiência internacional mostra que, quando a esquerda rebaixa seu programa para enfrentar a extrema direita, acaba sendo engolida”, disse, citando exemplos recentes da política europeia.
Tarcísio, terceira via e o projeto da elite econômica
Ao analisar o papel do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, Falcão criticou a tentativa de apresentá-lo como alternativa moderada ao bolsonarismo. “Falar em bolsonarismo moderado é uma contradição. É tentar resolver a quadratura do círculo”, afirmou. Para ele, parte da elite econômica busca um candidato que preserve a agenda neoliberal sem os excessos retóricos do bolsonarismo.
Falcão ironizou a ideia de que Tarcísio poderia ser um “CEO do país”. “Se alguém quer ser CEO do Brasil, isso significa tratar a população como empregados. O país precisa de um presidente que conheça os problemas do povo e governe para a maioria.”
Sobre a gestão paulista, o deputado citou privatizações e seus impactos sociais. “A Sabesp foi privatizada, as tarifas aumentaram e há racionamento disfarçado, com redução da pressão da água nas periferias”, afirmou. Ele também mencionou recordes de feminicídio e criticou a baixa execução orçamentária destinada às políticas de proteção às mulheres.
Lula favorito, mas eleição será de confronto
Falcão reconheceu oscilações nas pesquisas, mas destacou um dado constante. “Em todas as pesquisas, o presidente Lula aparece como favorito, tanto na espontânea quanto na estimulada”, disse. Para ele, isso demonstra força política, mas não garante vitória sem mobilização. Citando o pensador galês Raymond Williams, resumiu sua visão de radicalidade: “Ser radical é tornar a esperança possível, em vez de convencer as pessoas do desespero.”
O deputado defendeu uma campanha com forte presença popular. “Não será uma campanha de conciliação. Será uma campanha de luta, porque só a mobilização social muda correlações de força”, afirmou, acrescentando que as elites demonstram receio quando a população ocupa as ruas.
Buscar o centro sem abandonar o programa
Questionado sobre alianças, Rui Falcão fez uma distinção clara. “Uma coisa é buscar o centro. Outra é ir para o centro e diluir o programa”, afirmou. Para ele, propostas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$5 mil e o fim da escala 6x1 dialogam com setores mais amplos da sociedade. “Essas medidas também interessam à classe média e não descaracterizam um projeto de esquerda.”
Segundo Falcão, a base de qualquer aliança deve ser formada por forças de esquerda e centro-esquerda, organizadas em torno de um programa. “Antes de discutir alianças, precisamos definir claramente qual projeto de país vamos apresentar”, disse.
Soberania e o cenário internacional
No debate internacional, o deputado traçou paralelos históricos e comentou o impacto do retorno de Donald Trump, identificado por ele como o presidente dos Estados Unidos, ao centro do cenário global. “Se houve algo positivo nesse contexto, foi a volta da palavra imperialismo ao debate público”, afirmou. Para Falcão, o Brasil precisa fortalecer a integração regional e adotar políticas firmes de soberania.
Ele também alertou para o tema da soberania digital. “Hoje, a maior parte dos nossos dados está armazenada em plataformas estrangeiras. Sem soberania digital, ficamos vulneráveis econômica e politicamente”, disse.
A marca do terceiro mandato e as prioridades futuras
Falcão rejeitou a tese de que o atual governo Lula careça de identidade. “Não concordo que o terceiro governo não tenha marca. Retiramos o Brasil do mapa da fome e iniciamos um processo de justiça tributária”, afirmou. Entre as prioridades que poderiam consolidar esse ciclo, citou duas de forma direta: “O fim da escala 6x1 e a regulamentação dos direitos dos trabalhadores de aplicativos podem ser marcos históricos.”
Renovação partidária e Congresso
O deputado defendeu mudanças estruturais no sistema político e criticou a profissionalização excessiva da política. “Quem está no mandato tem gabinete, verba e visibilidade. Assim, a renovação se torna quase impossível”, disse. Ele voltou a defender limites de mandatos e maior participação popular direta, como plebiscitos e iniciativas legislativas acessíveis.


