Países do BRICS lideram ações conjuntas para um futuro sustentável
Novas abordagens para o ambiente e o clima não se limitam apenas à energia verde
247 - A crise climática está forçando a humanidade a mudar radicalmente sua relação com a natureza. A maioria dos países do mundo já está se preparando para alcançar a neutralidade de carbono até 2050. No outono (setentrional) de 2023, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que o planeta havia vivenciado uma "temporada de aquecimento" (o verão mais quente já registrado) e observou que a crise climática já estava em curso. No entanto, esse recorde de temperatura não durou muito tempo. No verão seguinte, a temperatura subiu ainda mais e, de acordo com os dados anuais, ultrapassou a marca de 1,5°C, considerada "linha vermelha" pelo Acordo de Paris. De acordo com Igor Severguin, analista da TV BRICS, os efeitos do aquecimento global já são evidentes: no sul, as áreas desérticas estão se expandindo, enquanto no norte, as calotas polares estão derretendo. As perdas financeiras anuais relacionadas aos desastres naturais estão aumentando de forma significativa. Recentemente, elas ultrapassaram a marca de US$ 500 bilhões (R$ 2,6 trilhões). Nesse cenário, especialistas destacam que a agenda climática está se afastando cada vez mais das discussões sobre a velocidade de redução das emissões, concentrando-se em medidas práticas de adaptação. A especialista em legislação ambiental, Aleksandra Kudzagova, em um comentário à TV BRICS, afirmou que os países estão trabalhando ativamente na adaptação às mudanças climáticas.
"Hoje, todos os países concordam que há uma necessidade urgente de adaptação às mudanças climáticas. A comunidade internacional decidiu que, até 2035, o volume de financiamento para adaptação de países em desenvolvimento deve atingir US$ 1,3 trilhões [cerca de R$ 6,9 trilhões]" Aleksandra Kudzagova Vice-presidente do Conselho Público do Serviço de Hidrometeorologia e Monitoramento Ambiental (Roshydromet)
Riscos climáticos para os países do BRICS+
Os desafios climáticos que os países estão enfrentando hoje são bastante diversos. Por exemplo, a China tem sofrido com inundações sem precedentes nos últimos anos, enquanto o Brasil enfrenta ondas de calor anômalas, que não apenas destroem colheitas, mas também causam enormes incêndios florestais. A Rússia enfrenta outro problema crítico: o aumento das temperaturas está provocando o derretimento do permafrost, que cobre mais de 60% de seu território. Isso pode resultar na destruição de edifícios, estradas, oleodutos e outras infraestruturas. A temperatura na Rússia está aumentando 2,5 vezes mais rápido do que a média global, e Moscou, segundo o sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), está entre as três cidades que mais se aquecem, ficando atrás apenas de Teerã (Irã) e Calcutá (Índia). A ameaça de aumento do nível do mar também afeta os países da comunidade BRICS+. Cidades como Xangai, Mumbai, Rio de Janeiro, Vladivostok e muitas outras estão em zona de risco elevado. Isso não é surpreendente, pois quase 40% da população mundial vive a menos de 100 quilômetros da costa.
Progresso e liderança climática dos países do BRICS
Durante a XVII cúpula do grupo, realizada em 2015 em Ufá, na Rússia, os países do BRICS se comprometeram a enfrentar o problema das mudanças climáticas tanto em nível global quanto nacional. Desde então, a atividade do BRICS nessa área tem aumentado significativamente. Como observa a pesquisadora independente Genevieve Donnellon-May, nos últimos anos, o Brasil se tornou um dos principais coordenadores da agenda climática dentro do BRICS.
"Durante a presidência do Brasil no BRICS, as questões climáticas foram colocadas no centro da pauta do grupo. Isso permitiu alinhar documentos estruturais comuns e fortalecer a coordenação dos países do Sul Global nas negociações internacionais" Genevieve Donnellon-May Especialista em ecologia
De acordo com a especialista, em nível nacional, o Brasil também demonstrou progresso significativo. Nos 12 meses que antecederam julho de 2025, o desmatamento na Amazônia foi reduzido em 11,8%, alcançando o menor nível dos últimos 11 anos. Esse foi o terceiro ano consecutivo em que, sob a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os índices de desmatamento diminuíram, somando uma redução total de cerca de 50% em comparação com 2022. Cientistas há muito concluíram que não é possível neutralizar completamente a crise climática. No entanto, é possível desacelerá-la e dar tempo para que a população mundial se adapte. A chave para isso pode ser a transição dos combustíveis fósseis para fontes de energia renováveis, como solar, eólica, maremotriz, geotérmica, entre outras. Em outras palavras, para alcançar a neutralidade de carbono até 2050, abandonando o uso de carvão, petróleo e gás, e desacelerando o aquecimento global, a humanidade precisa começar a transitar para a energia verde agora. Um papel especial nesse processo é desempenhado pela China, que vê a agenda climática não como uma limitação, mas como um motor de desenvolvimento tecnológico e industrial, afirma a especialista em legislação ambiental, Aleksandra Kudzagova. "Por isso, em sua programação, a descarbonização gradual é combinada com o desenvolvimento e crescimento do comércio internacional. A China tem se concentrado no fato de que foi o desenvolvimento que tornou o país um gigante da energia renovável. A China não apenas investiu US$ 290 bilhões [R$ 1,5 trilhões] em energias renováveis em 2024 e aumentou a capacidade de sua energia solar em 20 vezes em 10 anos, mas também se tornou o principal fornecedor mundial de carros elétricos, painéis solares e turbinas eólicas", acrescenta a especialista.
Estratégias de transição energética justa
Os países do BRICS+ apoiaram iniciativas internacionais relacionadas ao clima. A maioria assumiu compromissos de alcançar uma pegada de carbono zero entre 2050 e 2070. Analistas destacam que os principais componentes da cooperação nessa área serão a regulamentação de carbono, a adaptação às mudanças climáticas, o desenvolvimento de fontes de energia renováveis e a criação de mecanismos conjuntos para a implementação de projetos climáticos. O BRICS+ dedica especial atenção à "transição energética justa", cujo princípio é minimizar os riscos de uma mudança forçada para atingir as metas de emissões zero. A transição energética não deve prejudicar a economia dos países nem afetar negativamente a vida de suas populações. Como destacam os autores do estudo "Transição energética justa nos países do BRICS", a base dessa transição é a liberdade de escolher os caminhos para alcançar a neutralidade de carbono, equilibrando as necessidades energéticas e o desenvolvimento do setor de acordo com as peculiaridades e prioridades de cada nação. Segundo Genevieve Donnellon-May, a liderança climática no âmbito do BRICS hoje não é definida apenas pelos volumes de redução das emissões. "A liderança climática também envolve a capacidade de unir países com diferentes modelos econômicos e vulnerabilidades, desenvolvendo abordagens comuns para adaptação, financiamento e uma transição justa", observa ela.
Cidades do futuro e resiliência climática
De acordo com previsões da ONU, até 2050, a população urbana mundial crescerá em quase 2 bilhões, o que fará com que dois terços da população global viva em megacidades ou em outras áreas urbanizadas. Por isso, os planejadores das cidades do futuro já estão trabalhando para torná-las não apenas confortáveis e seguras, mas também ecologicamente sustentáveis. Qualquer conceito de cidade moderna atualmente está voltado para a preservação do ambiente natural. Entre as ferramentas que urbanistas estão utilizando para alcançar esse objetivo estão painéis solares em fachadas e telhados de edifícios, transporte inteligente movido por energia limpa e coleta de lixo a vácuo, em que os resíduos são direcionados por tubulações subterrâneas para as estações de reciclagem. É de conhecimento geral que as cidades energeticamente autossuficientes, capazes de gerar 70-80% dos seus recursos, são muito mais resilientes a situações extremas, incluindo desafios climáticos. Não obstante, novas abordagens para o ambiente e o clima não se limitam apenas à energia verde. Para lidar com o calor intenso, foi desenvolvida um programa que cria um modelo 3D da paisagem urbana e analisa o processo de absorção de calor. Os "pontos quentes" identificados são transformados em praças e parques. Como afirmam os cientistas, as árvores podem reduzir a temperatura em 3,5 ºC a 5,5 ºC graus. Outro problema enfrentado pela civilização moderna são as inundações. A história do planeta já registrou chuvas que duraram mais de um ano. Embora tais anomalias sejam raras, meteorologistas observam que o aquecimento global está aumentando a frequência de chuvas fortes. Muitas autoridades de megacidades estão tentando resolver o problema das inundações nas ruas com o projeto "cidade esponja", que visa, por um lado, reduzir coberturas impermeáveis, como asfalto e blocos de concreto, e substituí-las por materiais mais naturais. Por outro, busca ampliar as zonas verdes. Dessa forma, o solo absorve a água durante a chuva, protegendo a cidade da inundação. Se ocorrer uma seca, a água é liberada para as plantas e microrganismos. A cidade que mais se aproxima da implementação desse projeto é Xangai, onde se espera que, até 2030, 80% de sua área esteja alinhada a essa concepção. As cidades do futuro, servindo como modelos experimentais para a futura existência da humanidade, estão sendo construídas em praticamente todos os países do BRICS. Esse e outros aspectos da cooperação dentro da agenda climática atual permitem que os membros do grupo troquem novas tecnologias, resolvam conjuntamente questões relacionadas à redução das emissões de carbono, mantenham uma posição consolidada na arena internacional e defendam os direitos dos países em desenvolvimento.


