Paulo Gala: "O plano assistencialista não desenvolve um país"
Paulo Gala defende mais recursos para indústria e tecnologia e diz que a prioridade fiscal do Brasil limita o crescimento de longo prazo
247 - “O plano assistencialista não desenvolve um país.” A avaliação do economista Paulo Gala resume um dos pontos centrais de sua análise sobre os obstáculos ao crescimento brasileiro: a dificuldade do país em transformar planejamento econômico em investimento efetivo em indústria, inovação e tecnologia.
Em entrevista ao programa Ponto de Vista, da TV 247, Gala afirmou que o Brasil mantém iniciativas importantes no campo social, mas ainda não conseguiu dar a mesma centralidade a uma estratégia de desenvolvimento produtivo capaz de elevar renda, produtividade e capacidade tecnológica.
Ao longo da conversa, o economista sustentou que o problema não está na ausência de diagnósticos ou de projetos formais. Segundo ele, o governo já estruturou planos relevantes para reindustrialização, transição ecológica e inteligência artificial, mas esses programas esbarram em restrições orçamentárias e políticas que impedem sua execução em escala. “Os planos estão todos bem pensados, mas eles sofrem de falta de recursos, de falta de prioridade e de falta de convicção”, disse.
Na avaliação de Gala, políticas de transferência de renda cumprem uma função importante no combate à pobreza e na redução da desigualdade, mas não bastam para alterar o padrão de desenvolvimento do país. “O plano assistencialista é importante para reduzir desigualdade, para as pessoas não morrerem de fome, mas o plano assistencialista não desenvolve um país”, afirmou. Para ele, esse tipo de política tem alcance limitado quando o objetivo é ampliar de forma estrutural a renda do trabalho e a sofisticação da economia.
A crítica do economista se concentra na diferença entre aliviar carências imediatas e construir uma base produtiva capaz de sustentar crescimento de longo prazo. Segundo ele, o Brasil continua preso a uma estrutura de renda média porque não consegue consolidar um salto em complexidade industrial e tecnológica. Nesse quadro, o país não alcança o nível de inovação das economias centrais e também deixa de competir com países de custo mais baixo. “A gente corre o risco de ser uma economia de renda média para sempre”, declarou.
Gala argumentou que essa limitação aparece de forma concreta quando o país deixa de financiar áreas estratégicas. Um dos exemplos citados por ele foi o da CEITEC, estatal ligada à produção de chips e semicondutores. O economista lembrou que a empresa teve a liquidação revertida no terceiro governo Lula, mas segue sob pressão por falta de recursos para se reestruturar. “Precisava ser feito um investimento de R$ 1 bilhão no plano de modernização e de relançamento da CEITEC. Aí o governo travou isso”, afirmou.
Na comparação feita por Gala, a dificuldade em liberar recursos para setores considerados centrais ao futuro tecnológico do país contrasta com a facilidade em sustentar despesas em outras áreas do orçamento. “Se um país tem R$ 300 bilhões para transferir para as pessoas de baixa renda, por que ele não pode transferir R$ 1 bilhão para uma empresa que pode ser o coração da tecnologia, do desenvolvimento tecnológico brasileiro?”, questionou.
A leitura do economista é que a contradição revela uma escolha de prioridade. Para ele, o Estado brasileiro ainda dirige mais energia política e fiscal para políticas de compensação social do que para um projeto de desenvolvimento industrial de longo prazo. Ao tratar do tema, Gala evitou opor uma agenda à outra, mas insistiu na necessidade de reequilíbrio. Seu argumento é que a assistência é necessária, mas não substitui investimento em capacidade produtiva, inovação e avanço tecnológico.
Esse raciocínio também apareceu quando ele falou sobre inteligência artificial. Segundo Gala, o Brasil dispõe de um ecossistema relevante e já figura entre os dez maiores ambientes de desenvolvimento nessa área, além de contar com um plano nacional em elaboração no governo. Ainda assim, ele observou que o país não conseguirá se firmar nesse setor se não houver uma decisão mais firme de financiamento público e coordenação estratégica.
Na entrevista, Gala defendeu que o próximo passo do país deveria ser uma ampliação consistente dos recursos destinados a políticas industriais, tecnológicas e empresariais. “O que precisaria ser feito, eventualmente até pensando num Lula 4, é uma canalização de recursos muito mais parruda, muito mais consistente para esses planos de desenvolvimento”, afirmou. Em sua avaliação, esse movimento exigiria inclusive rever subsídios tributários que não geram retorno econômico e que, segundo ele, são mantidos por pressão de grupos de interesse.
Ao analisar o quadro brasileiro, o economista ressaltou que o país tem muito a avançar em produção manufatureira e em complexidade econômica. Para ele, esse é o ponto decisivo para que o Brasil deixe de conviver com crescimento limitado e salários médios baixos. “O que desenvolve um país é o plano de desenvolvimento”, declarou.
A conclusão apresentada por Gala é que o Brasil já formulou parte importante do caminho, mas ainda não fez a escolha política necessária para executá-lo com intensidade. Na sua avaliação, sem uma mudança de foco na direção da indústria, da inovação e da tecnologia, o país continuará operando com políticas que aliviam os efeitos da desigualdade, mas não resolvem o problema estrutural do desenvolvimento.


