HOME > Entrevistas

Paulo Nogueira Batista Jr.: "Trump é louco, mas sua loucura tem método"

Economista afirma que ações do presidente dos Estados Unidos seguem estratégia de poder de uma superpotência em declínio

Paulo Nogueira Batista Jr.: "Trump é louco, mas sua loucura tem método" (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein | Divulgação )

247 - O comportamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no cenário internacional não deve ser interpretado apenas como excentricidade pessoal ou impulsividade. Segundo o economista Paulo Nogueira Batista Jr., as iniciativas do governo norte-americano fazem parte de uma estratégia mais ampla, associada à tentativa de conter a perda de influência global de Washington e de reafirmar sua posição por meio de pressão econômica e militar.

Na avaliação do economista, a leitura simplista de que Trump age apenas por infantilidade ou desequilíbrio psicológico obscurece o elemento central da política externa dos Estados Unidos no atual contexto. A análise foi apresentada por Paulo Nogueira Batista Jr. em entrevista à TV 247, na qual ele examinou os riscos geopolíticos do momento e o padrão de atuação do governo norte-americano.

Ao comentar episódios recentes envolvendo declarações e iniciativas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Paulo afirmou que ele próprio chegou a duvidar da veracidade de algumas informações. “Frequentemente eu vejo coisas nas redes que acho que são fake e que são reais. Quando vi essa carta do Trump à Noruega, pensei que fosse fake, não acreditei que pudesse ser real. Depois confirmamos que era real”, relatou.

Apesar disso, o economista alertou para o risco de subestimar o dirigente norte-americano. “A gente não deve descartar o Donald Trump como simplesmente infantil ou louco, que ele é de certa maneira, mas é uma loucura com método. É uma loucura que obedece a uma estratégia maior do império americano”, afirmou. Para ele, o foco não deve estar apenas na figura de Trump, mas no movimento estrutural da política externa dos Estados Unidos.

Paulo Nogueira Batista Jr. sustenta que o pano de fundo das ações do governo norte-americano é o declínio relativo do poder dos Estados Unidos. “O que transcende o Donald Trump é que os Estados Unidos são uma superpotência em declínio, inconformada com a perda de status e disposta a usar todos os instrumentos, inclusive militares, para tentar recuperar essa hegemonia que vem se esvaindo nos últimos 10 ou 15 anos”, disse.

Segundo o economista, a deterioração da competitividade econômica dos Estados Unidos reduziu a eficácia dos mecanismos tradicionais de influência utilizados desde o pós-Segunda Guerra Mundial. “Os instrumentos mais tradicionais de dominação foram corroídos pela perda de competitividade dos Estados Unidos. Eles agora querem prevalecer na base da força, e ainda são a principal superpotência militar”, afirmou, ao caracterizar o atual momento como especialmente perigoso para a estabilidade global.

Essa lógica ajuda a explicar, de acordo com Paulo, a postura agressiva adotada inclusive contra aliados históricos. “Uma das coisas que mais me surpreenderam no governo do Trump foi a disposição de atacar os seus aliados mais tradicionais com tarifas exorbitantes e, agora, ameaçar o uso da força militar para anexar um território que pertence a um país da União Europeia, que é a Groenlândia”, declarou.

Na análise do economista, esse comportamento está alinhado com documentos estratégicos recentes dos Estados Unidos. “Segundo a estratégia nacional divulgada há pouco mais de um mês, os Estados Unidos querem estabelecer hegemonia no hemisfério ocidental. Isso é consistente com ataques a países como a Venezuela e com ameaças dirigidas aos próprios europeus”, observou, ao classificar essa orientação como uma política imperial baseada na coerção.

Paulo Nogueira Batista Jr. também destacou que a forma como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se relaciona com outros países depende diretamente da capacidade de reação desses atores. “O Trump só respeita a força bruta, força econômica, força militar”, afirmou. Na mesma linha, acrescentou: “Rússia e China são países que ele até respeita. Já quem não tem força militar ou força econômica vai ficar muito vulnerável a ataques americanos nos próximos anos.”

Para o economista, esse padrão de conduta reforça a gravidade do momento internacional. “É um jogo de força impressionante. O mundo já era perigoso antes, agora acendeu-se um alerta vermelho para todos os países”, concluiu, ao defender que a atual conjuntura exige avaliações realistas sobre poder, soberania e capacidade de dissuasão no sistema global.

Artigos Relacionados