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“Trump é um louco, mas isso não pode virar atenuante”, diz Luciano Elia

Psicanalista afirma que a psiquiatrização de líderes e crimes desloca o debate político e pode produzir desresponsabilização criminal e internacional

O presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Vincent Thian/Pool via REUTERS)

247 - A forma como parte do debate público recorre a diagnósticos para interpretar ações de autoridades voltou ao centro das discussões com a atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no cenário internacional. Para o psicanalista Luciano Elia, transformar categorias clínicas em chave de leitura da política pode deslocar o foco do essencial: a responsabilização por atos de governo.

A avaliação foi apresentada por Elia em entrevista ao Bom Dia 247, ao comentar os riscos de chamar Trump de “louco” e, ao mesmo tempo, usar essa classificação como explicação para medidas que, segundo ele, devem ser tratadas no campo político e jurídico. Na conversa, o psicanalista defendeu que a psicanálise precisa operar com “cuidado ético e político” quando o assunto é figura pública. 

Elia disse que há uma tendência de “psiquiatrização da sociedade” que atinge desde o debate sobre estadistas até a interpretação de crimes do cotidiano. Para ele, quando esse recurso vira atalho explicativo, pode funcionar como amortecedor da gravidade política. “A tentativa de psicopatologizar essas figuras me parece muito perigosa”, afirmou. Em seguida, explicou o motivo da crítica: “A psicanálise precisa ter um cuidado ético e político para não usar suas categorias — e nem as categorias psiquiátricas — de um jeito que crie atenuantes e apague a dimensão política, que é a principal”.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de falar em “loucura” no caso de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, Elia respondeu de forma direta, mas fez uma distinção. “Se a pergunta é se há loucura no Trump, eu digo que sim. Para mim, é evidente”, declarou. Na sequência, ele delimitou o alcance dessa afirmação: “Chamar alguém de louco não significa que a gente deva tratar isso como diagnóstico clínico. O ponto central não pode ser esse”.

Na entrevista, o psicanalista insistiu que, mesmo quando se reconhece um traço de desorganização ou irracionalidade, isso não pode deslocar o debate sobre responsabilidade. “O que importa é que ele tem de responder pelos crimes que comete”, disse, ao afirmar que o enquadramento clínico pode produzir desresponsabilização. “Não importa se ele é doente ou não: os atos estão aí, e são atos criminosos. Se a gente entra nessa de ‘ele tem um quadro’, corre o risco de tirar de cena a responsabilidade política e internacional”.

Elia também associou esse debate ao que chamou de medicalização crescente, com impactos no campo jurídico e moral. “Hoje existe um processo de psiquiatrização muito forte, que está em sintonia com uma lógica neoliberal”, afirmou. Ele citou a expansão do consumo de psicofármacos e apontou o efeito social que vê nesse movimento: “Isso acaba produzindo um efeito desresponsabilizante, inclusive do ponto de vista civil e criminal”.

Para ilustrar o argumento, Elia mencionou um caso que disse ter acompanhado por relatos. “Soube de uma mulher em São Paulo que atropelou o ex-namorado e a atual namorada dele, matou os dois, e a defesa passou a sustentar que ela tinha um diagnóstico, que tomava medicações”, relatou. Em seguida, conectou o exemplo ao que considera um padrão: “Esse tipo de discurso pode virar justificativa, pode virar atenuante, e isso é muito grave”.

Ao voltar ao caso de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, Elia argumentou que certas ações devem ser tratadas com a linguagem própria do direito e da política, sem substituição por explicações psiquiátricas. Ao comentar um episódio que envolveu a Venezuela, ele defendeu que o foco deveria ser o ato e suas consequências. “Ele tem de responder pelo que fez”, afirmou. Na sequência, descreveu a gravidade do que avaliava: “Isso é um sequestro, é um ato de pirataria. A gente não pode tirar essas palavras de cena só porque alguém quer explicar tudo pela via da patologia”.

Na parte final da entrevista, Elia acrescentou uma ressalva sobre o uso indiscriminado do termo “loucura” como sinônimo de canalhice ou criminalidade. Para ele, além de despolitizar, essa confusão também distorce a compreensão social sobre sofrimento psíquico. “Quando a gente iguala crime e loucura, a gente também acaba ‘criminalizando’ o louco”, disse. E completou: “Muita gente com sofrimento mental é gente de bom caráter, gente que busca tratamento. Não dá para colocar no mesmo lugar quem comete crimes de Estado e quem é paciente”.

A posição defendida por Luciano Elia no Bom Dia 247 sustenta que, ao discutir Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, o debate público não deveria trocar a responsabilização política e criminal por uma leitura clínica capaz de funcionar como atenuante, nem produzir uma confusão que transfere a violência do campo político para o terreno da patologia.

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