Pepe Escobar: “Negociação Irã-EUA na Suíça expõe nova arquitetura de segurança no Golfo”
Pepe Escobar afirma que Paquistão, Arábia Saudita e Qatar foram decisivos para manter Teerã na mesa
247 - Em análise no programa Pepe Café, o jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que a recente negociação indireta entre Irã e Estados Unidos, realizada em Bürgenstock, na Suíça, foi marcada por tensão extrema, sucessivas ameaças de colapso e pela atuação decisiva de mediadores regionais.
Segundo Escobar, o encontro não foi uma negociação direta entre Washington e Teerã. “Os americanos e os iranianos não trocaram uma só palavra face a face”, afirmou. Toda a comunicação, de acordo com ele, passou por intermediários do Paquistão e do Qatar, em uma arquitetura diplomática desenhada para impedir qualquer contato direto entre as duas delegações.
O jornalista classificou a rodada de negociações como um verdadeiro "thriller de espionagem" e afirmou que os iranianos só aceitaram viajar à Suíça após receberem garantias de segurança do Paquistão. Segundo ele, havia temor de uma possível ação do Mossad contra a delegação iraniana ou contra o marechal Asim Munir, chefe do Exército paquistanês e um dos principais mediadores do processo.
Escobar destacou que o centro político das negociações não estava na Suíça, mas em Islamabad. Para ele, a viagem do presidente iraniano ao Paquistão, realizada antes da rodada em Bürgenstock, revelou o papel estratégico do país na construção do memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos.
"O memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã opera em solo paquistanês. Não é no Qatar, não é na Suíça e muito menos nos Estados Unidos."
De acordo com o analista, a delegação iraniana ameaçou abandonar as negociações ao menos três vezes, diante de declarações consideradas hostis por representantes do governo norte-americano. O processo só teria sido preservado graças à atuação direta do ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, príncipe Faisal bin Farhan, que, segundo Escobar, ofereceu garantias políticas e financeiras para impedir o colapso das conversas.
O jornalista afirmou que Riad se comprometeu a assegurar a liberação de recursos iranianos congelados caso Washington criasse obstáculos ao pagamento. O Qatar também teria assumido compromisso semelhante, uma vez que parte desses ativos permanece depositada em bancos do emirado desde acordos anteriores entre Teerã e Washington.
"Dois membros do Conselho de Cooperação do Golfo estão garantindo uma quantidade consequente de dinheiro para o Irã. Foi isso que manteve o Irã na mesa de negociação."
Na avaliação de Escobar, os acontecimentos revelam uma transformação mais ampla na geopolítica do Oriente Médio. Segundo ele, começa a surgir uma nova arquitetura regional de segurança menos dependente dos Estados Unidos e cada vez mais organizada pelas próprias potências da região, com participação decisiva de Paquistão, Arábia Saudita, Qatar e Irã, sob respaldo diplomático da China.
"O manchetão é o início do Golfo Pérsico pós-americano."
Para o analista, esse novo arranjo poderá redefinir o equilíbrio estratégico do Oeste da Ásia, reduzindo a influência direta de Washington e fortalecendo mecanismos regionais de mediação e segurança coletiva.
Escobar ressaltou, contudo, que as negociações ainda enfrentam obstáculos significativos. Entre os temas pendentes estão o eventual alívio das sanções impostas ao Irã, a devolução de ativos iranianos congelados no exterior, possíveis reparações financeiras pelos danos da guerra e a questão do programa nuclear iraniano, especialmente o destino do estoque de urânio enriquecido.
Segundo ele, os próximos 60 dias serão decisivos para avaliar se o memorando de entendimento conseguirá sobreviver às pressões políticas internas dos Estados Unidos e às tensões da região.
Ao concluir sua análise no Pepe Café, Escobar afirmou que o processo em curso representa o nascimento de uma nova ordem regional.
"Estamos indo em direção a uma nova arquitetura de segurança no Oeste da Ásia, coordenada pelo Paquistão, financiada pela Arábia Saudita e garantida pelo Qatar."



