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Rui Costa Pimenta alerta para “desbarrancada geral” no STF e vê caso Banco Master como crise profunda do regime

Ele afirma que a saída de Dias Toffoli do caso não encerra o escândalo, aponta risco de efeito dominó e diz que governo Lula enfrenta “tempestade”

Ministro do STF, Dias Toffoli 12/02/2026 REUTERS/Adriano Machado (Foto: Adriano Machado)

247 – A crise que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF) e o caso Banco Master pode estar apenas no começo e tende a se espalhar, com impacto direto sobre a estabilidade política do país e sobre o governo do presidente Lula. Segundo Rui, a decisão de Dias Toffoli de se afastar da relatoria relacionada ao Banco Master não resolve a crise, mas inaugura uma escalada. Para ele, o episódio expõe “um grande escândalo” e abre caminho para que outros ministros sejam atingidos, num movimento que pode retirar do STF a condição de “órgão de arbitragem” da política nacional.

Rui descreveu a renúncia de Toffoli à condução do caso como um passo insuficiente e interpretou a nota assinada por outros ministros como uma operação de contenção de danos. “A nota dos ministros é uma tentativa de entregar os anéis para salvar os dedos”, afirmou. Na sequência, projetou que a pressão pode levar a uma retirada mais ampla: “Eu vi o próprio Lula falando que o Toffoli deveria renunciar ao STF. Eu acho que esse o próximo passo deverá ser possivelmente a renúncia do Toffoli.”

Na leitura do dirigente, a permanência do ministro fica politicamente fragilizada porque o episódio se converteu em suspeição generalizada: “O que nós estamos vendo aqui é a suspeição do Toffoli, né? Ministro suspeito de ter interesses escusos e tal, como é que ele vai julgar as outras causas nesse momento aqui?”

Rui também mencionou o dilema de Toffoli diante de eventuais consequências legais: ao sair, ele perderia a proteção do cargo, o que poderia agravar sua situação. “Se a pessoa se afasta, a situação do STF fica melhor, mas a situação dele fica pior, porque ele perde essa proteção de ministro do STF”, disse.

Banco Master e sistema financeiro: “Cutucou o tigre com vara curta”

O ponto central da análise de Rui é que o caso Banco Master deixou de ser um assunto restrito a uma disputa jurídica e se tornou um confronto de interesses econômicos, com protagonismo do sistema financeiro. “Esse Banco Master, ele incomodou o sistema financeiro, que é muito poderoso. Ele cutucou o tigre com uma vara curta e o tigre foi para cima”, afirmou.

Para Rui, o problema se agravou porque ministros teriam resistido às pressões do mercado. “Na medida em que afetou o interesse do mercado financeiro e eles resistiram, eles não ouviram o recado… os banqueiros falaram: ‘Menino, quem manda nesse país sou eu, não é você’”, declarou.

Ele sustenta que a crise tem dinâmica interna de disputa entre frações do poder econômico: “A gente não deve achar que nada disso é ao acaso… é uma crise no interior da burguesia, uma crise que tem motivos econômicos.”

Efeito dominó: Moraes, outros nomes e risco de colapso institucional

Ao comentar a possibilidade de que Alexandre de Moraes também seja atingido, Rui rechaçou a ideia de que Toffoli seria sacrificado para proteger outro ministro. “Eu acho que é uma desbarrancada geral. O Toffoli é o primeiro dominó”, disse, sugerindo que a crise pode alcançar múltiplos atores e produzir consequências imprevisíveis.

Na entrevista, Attuch mencionou informações sobre relatório baseado em dados do celular de Daniel Vorcaro envolvendo Moraes. Rui respondeu de forma direta: “O Alexandre Moraes está envolvido, o Toffoli tá envolvido, sabe-se lá mais quem.”

O efeito político, na visão do dirigente, é a desmoralização do próprio STF como pilar institucional, o que abriria espaço para narrativas de direita e extrema direita, especialmente em torno de julgamentos anteriores. “O processo contra o Bolsonaro fica completamente desmoralizado… foi condenado por pessoas que não têm absolutamente nenhuma envergadura moral”, afirmou, prevendo que esse discurso será usado “com grande convicção” pelo bolsonarismo.

Governo Lula no centro da tempestade: “Quem dorme com os cachorros…”

Rui avaliou que o governo do presidente Lula está preso a um impasse: precisa se descolar do STF para reduzir danos, mas enfrenta uma oposição organizada que tentará ligar Planalto e Supremo. “O governo Lula tá no meio de uma tempestade sem muita cobertura”, disse. E sintetizou o custo de uma aproximação política com o tribunal: “Quem dorme com os cachorros acorda com as pulgas.”

Para Rui, o vínculo político foi longe demais: “O PT foi muito longe, o governo Lula foi muito longe nessa simbiose aí com o STF. Agora é difícil também de romper os laços. Vai atingir o Lula.”

Ao discutir estratégia eleitoral, Rui afirmou que seria difícil ao presidente Lula se apresentar como “antissistema” depois de anos de alianças institucionais. “Eu acho que tá um pouco tarde… precisaria ter uma campanha bem radical… o governo teria que dar uma verdadeira guinada política”, afirmou, criticando também a defesa de autonomia policial e a ideia de apoio irrestrito a estruturas de Estado que, segundo ele, não seriam controláveis democraticamente.

Polícia Federal e “autonomia”: lições de 2016 e o “golpe de Estado contra Dilma”

Rui foi contundente ao falar sobre a Polícia Federal e o que chamou de ausência de controle político. “Ninguém controla essa Polícia Federal… é controlada pelos grandes capitalistas e pelo capital estrangeiro, inclusive pelo imperialismo”, afirmou, lembrando episódios do passado recente e reforçando a crítica ao arranjo institucional pós-2016.

Ao mencionar o período do impeachment, ele classificou os eventos como ruptura institucional: “O que eles fizeram foi uma coisa… por isso que a gente fala que foi um golpe de estado”, disse, em referência ao golpe de Estado contra Dilma. Na avaliação dele, a crença de que pequenos acenos seriam suficientes para reverter o quadro institucional é ilusória: “Eles acham assim que eles vêm, fazem um agrado ali e pronto, vão controlar a situação de novo. Não.”

Cenários para 2026: terceira via, bolsonarismo e instabilidade global

Rui observou que setores do poder econômico poderiam preferir uma alternativa eleitoral “nem Lula nem Bolsonaro”, ainda que isso dependa de desdobramentos imprevisíveis. Ele levantou a hipótese de que, em condições extremas, poderia surgir pressão por rearranjo de candidaturas: “A burguesia… gostaria de ter o candidato da terceira via… se o Lula abandonar a candidatura… para ela seria melhor.”

No pano de fundo, Rui conectou a crise brasileira a uma tendência internacional de desgaste do modelo liberal, citando exemplos europeus e os Estados Unidos. Ao mencionar os EUA, ele destacou que Donald Trump é o atual presidente dos Estados Unidos e usou o cenário norte-americano como indicador de radicalização política: “Nos Estados Unidos ganhou o Donald Trump… e se o Trump sair, vai aparecer gente mais radical do que ele.”

“Resetar” ou afundar: transparência e disputa política pelo desfecho

Ao final, Rui argumentou que o caso Banco Master pode expor uma rede extensa de interesses e ligações, exigindo transparência. “Eu acho que a gente deveria exigir que o processo fosse feito às claras. Tem que suspender o sigilo, né? Porque o país tem que saber o que aconteceu”, disse.

Na síntese, ele descreveu a conjuntura como uma crise “gigantesca” e comparou o potencial de desorganização institucional a operações de grande impacto: “É um negócio assim… tipo processo das mãos limpas na Itália… tem gente que fala inclusive que isso pode resetar o sistema político brasileiro.”

Com a escalada do caso e o peso eleitoral de 2026, a entrevista sugere que a crise do STF, Banco Master e seus desdobramentos podem se tornar um dos eixos centrais do debate político nacional, com efeitos sobre instituições, governo e oposição, num ambiente em que, como definiu Rui, “do jeito que a coisa vai, ninguém nem sabe o que pode aparecer”.

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