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Serafini diz que quer desmontar esquema da extrema-direita no Rio

Serafini diz que quer desmontar esquema da extrema-direita no Rio e defende eleição direta, corte de cargos fantasmas e recomposição salarial

Serafini diz que quer desmontar esquema da extrema-direita no Rio

247 - O deputado estadual Flávio Serafini afirmou que a crise política do Rio de Janeiro revela um padrão de uso da máquina pública por grupos ligados à extrema direita e defendeu a realização de eleições diretas, além de uma ampla revisão administrativa no estado. Segundo ele, as medidas adotadas pelo governo interino são essenciais para conter distorções e garantir equilíbrio no processo político.

As declarações foram feitas em entrevista ao Bom Dia 247, na qual o parlamentar analisou o cenário após a renúncia do ex-governador Cláudio Castro, o impasse jurídico sobre a sucessão e as ações do governador em exercício, Ricardo Couto.

De acordo com Serafini, a crise atual tem origem na tentativa de alterar o tipo de eleição previsto para o estado. “O que está acontecendo no Rio é uma situação inédita: o governador renunciou no meio de um julgamento que poderia levar à cassação. Isso muda completamente o tipo de eleição que deve ocorrer”, explicou. Ele destacou que, caso houvesse cassação, a lei prevê eleição direta, enquanto a renúncia abre caminho para eleição indireta.

Na avaliação do deputado, essa manobra buscou manter o controle político da estrutura estadual. “A renúncia foi uma tentativa de forçar uma eleição indireta dentro da Assembleia Legislativa, para que o mesmo grupo continuasse controlando o governo”, afirmou.

Serafini elogiou as medidas adotadas pelo governo interino, especialmente as exonerações de cargos suspeitos de irregularidades. Para ele, esse processo é central no enfrentamento da crise. “Essas ações são fundamentais, porque expõem e começam a corrigir um problema estrutural no estado: o uso da máquina pública para fins políticos”, disse.

O parlamentar também ressaltou a importância da permanência temporária do governo atual até a definição do processo eleitoral. “A manutenção do governador em exercício é positiva neste momento, porque impede que o grupo que se beneficiou desses esquemas retome o controle da estrutura antes de uma eleição direta”, declarou.

Segundo ele, o número de exonerações deve crescer significativamente. “A expectativa é que novas demissões ocorram nos próximos dias, podendo chegar a milhares de cargos cortados. Isso não prejudica o funcionamento do governo — ao contrário, melhora a eficiência ao eliminar cargos que não têm função real”, afirmou.

Durante a entrevista, Serafini detalhou um mecanismo que, segundo ele, foi utilizado para inflar a máquina pública mesmo em um cenário de restrições fiscais. “Identificamos que cargos maiores eram fragmentados em vários cargos menores. Formalmente, pareciam de baixo valor, mas, na prática, eram complementados com gratificações até atingir salários mais altos”, explicou.

Ele descreveu o funcionamento do esquema: “Criavam cargos com valores muito baixos e, ao nomear alguém, completavam a remuneração com benefícios e gratificações. Assim, uma vaga podia ser transformada em várias, ampliando o número de nomeações com dinheiro público”.

O deputado afirmou que essas posições eram, em muitos casos, ocupadas por pessoas sem função efetiva. “Estamos falando de milhares de cargos espalhados pelo estado, muitos deles sem qualquer atividade real, funcionando como instrumentos políticos”, disse.

Serafini informou que seu gabinete está consolidando as informações para apresentar um relatório ao governo interino. “Estamos levantando dados nos diários oficiais para entender como essa estrutura foi montada e permitir que sejam tomadas medidas mais profundas”, afirmou.

Além da questão administrativa, o parlamentar destacou o impacto da crise sobre os servidores públicos. Ele afirmou que há perdas salariais acumuladas significativas e criticou a política adotada nos últimos anos. “Os servidores do estado acumulam perdas que chegam a cerca de 50%. Enquanto isso, havia recursos sendo direcionados para estruturas ineficientes e irregulares”, disse.

Ele defendeu a recomposição salarial como medida necessária e possível dentro das regras legais. “Existe uma recomposição já prevista em lei há anos que não foi cumprida. Como não se trata de um novo aumento, mas de um direito já aprovado, ela pode ser implementada”, explicou.

Outro ponto abordado foi o endividamento de servidores com empréstimos consignados. Segundo Serafini, muitos trabalhadores foram submetidos a condições desfavoráveis. “Há casos de servidores com praticamente toda a renda comprometida por empréstimos com juros muito acima do padrão. Isso é uma situação grave que precisa ser enfrentada”, afirmou.

No campo político, o deputado criticou a condução da eleição interna na Assembleia Legislativa. Ele afirmou que o processo buscava recolocar aliados do grupo anterior na linha de sucessão. “O objetivo era retomar o controle do governo por meio da estrutura da Assembleia. Não podemos legitimar esse tipo de movimento”, disse.

Serafini também comentou denúncias envolvendo parlamentares e possíveis conexões com atividades criminosas. Ele defendeu uma investigação rigorosa. “Se há suspeitas, elas precisam ser apuradas com seriedade. Não é possível que acusações dessa gravidade fiquem sem resposta institucional”, afirmou.

Na avaliação do deputado, a crise atual reflete problemas mais profundos do estado. “O Rio de Janeiro vive um processo de deterioração de décadas, com perda de capacidade econômica e aumento das desigualdades”, disse.

Ele defendeu uma mudança estrutural no modelo de gestão. “O estado precisa de um projeto que enfrente a desigualdade e rompa com práticas que usam o poder público para interesses particulares”, afirmou.

Ao resumir sua posição, Serafini destacou o objetivo político de sua atuação. “Nosso compromisso é desmontar esse sistema e construir um novo caminho para o Rio de Janeiro, com mais transparência e justiça social”, concluiu.

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