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Tarso Genro: “A polarização só termina com a derrota do fascismo”

Ex-governador analisa 2026, defende frente democrática, cobra maioria no Congresso e avalia pressões externas de Trump

Tarso Genro (Foto: Marcos Oliveira/Agencia Senado)

247 - A poucos dias de completar o primeiro mês de 2026, a política brasileira já entrou no modo de alta voltagem. Em conversa longa e direta, o ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro Tarso Genro apresentou sua leitura sobre o tabuleiro eleitoral, os impasses da governabilidade e os riscos que, na sua visão, rondam a democracia em um ambiente de radicalização e disputa permanente por narrativas.

A entrevista foi exibida no programa Horta da Verdade, comandado por Fernando Horta, na TV 247. Ao longo do diálogo, Genro analisou a fragmentação do campo conservador, discutiu a necessidade de uma frente ampla com base programática e comentou a conjuntura internacional sob pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. 

“Eu fui militante político desde os 14 anos”

Logo no início, Genro enquadrou sua trajetória como uma militância contínua, ainda que fora de cargos eletivos. “Eu fui militante político desde os 14 anos de idade e continuo militante político”, afirmou, ao explicar por que não se vê “fora da política”, mas em outra forma de intervenção. Na mesma linha, contou como responde quando é abordado na rua com pedidos para retornar às disputas eleitorais: “Não, eu não larguei da política, só cheguei um momento que eu tive que mudar o meu tipo de interferência na política”, disse, citando a necessidade de abrir espaço a novas lideranças.

Direita em movimento, extrema direita organizada e o peso do antipetismo

Questionado sobre o colapso de uma direita liberal tradicional e a ascensão da extrema direita, Genro avaliou que o processo segue “em movimento” e ainda não está definido. Para ele, o Rio Grande do Sul antecipou dinâmicas nacionais ao consolidar uma direita mais ideológica e operacional, com capacidade de organizar alianças nas elites e na sociedade civil.

Nesse contexto, apontou a centralidade do antilulismo e do antipetismo, além do papel de grupos de comunicação no desgaste histórico da esquerda. Ao descrever o ambiente local, afirmou que houve “um deslocamento da direita tradicional para a extrema direita” e falou em “crescimento ideológico… de uma visão fascista da sociedade”. Também criticou o modo como o bolsonarismo foi “normalizado” no estado: “O Bolsonaro foi uma figura naturalizada aqui no estado. Isso é muito grave na política”, declarou, ao comparar tratamentos distintos na cobertura pública.

Terceira via e “centro doutrinário”: o que estaria em jogo

Para Genro, o centro brasileiro não pode ser apenas uma posição de conveniência. “O centro aqui no Brasil nunca foi um programa. O centro no Brasil foi uma relação”, afirmou, defendendo a construção de um “centro doutrinário” — isto é, mais programático e menos fisiológico.

A seu ver, o debate nacional está fortemente polarizado: “Toda a movimentação política nacional hoje gira entre a candidatura do presidente Lula e a candidatura de um candidato da extrema direita”, disse. Daí sua defesa de uma recomposição que afaste a direita tradicional da extrema direita — não como ornamento do sistema, mas como barreira política para evitar alianças com o extremismo.

Ao falar sobre o peso da liderança de Lula, Genro descreveu uma realidade em que a condução política se concentra no presidente: “Quem conduz as grandes operações políticas do PT e de uma parte da esquerda é o presidente Lula”, avaliou. E definiu o petista com precisão: “Ele é um homem de centro esquerda, mas ele é um centrista para formar o seu governo”.

Congresso, Senado e a disputa decisiva de 2026

Se a eleição presidencial domina o debate, Genro insistiu que a chave da governabilidade está no Legislativo. Afirmou que, para alterar o rumo do país, será necessário fortalecer bancadas progressistas: “Nós temos que ter uma maioria no Senado e… uma maioria progressista também na Câmara, senão a crise de governabilidade vai se aprofundar”, alertou.

No trecho mais enfático sobre a dinâmica política do período, cravou: “Concordo integralmente” com a ideia de impedir que a direita obtenha força para mudanças constitucionais e afirmou conhecer a convergência de Lula com esse objetivo. Para Genro, essa disputa legislativa funciona como eixo de contenção e também como condição para reorganizar a democracia diante da escalada extremista.

“A polarização… é proposta pela extrema direita”

Ao discutir o risco de um segundo turno e as amarras do cenário eleitoral, Genro ressaltou que a polarização não seria uma escolha do PT ou da direita tradicional. “Há uma polarização hoje que não é determinada pela vontade política do PT e nem pela direita tradicional. É uma polarização determinada e proposta pela extrema direita… pelo fascismo”, afirmou.

Em seguida, sintetizou seu diagnóstico com a frase que ecoou como alerta e linha de corte do debate: “Essa polarização só termina com a derrota do fascismo”. Para ele, a travessia é longa e exige estratégia desde o primeiro turno, tratando a disputa como se fosse necessário ampliar base social e alianças democráticas de forma consistente.

Trump, soberania e o “sistema imperial colonial”

A entrevista também avançou sobre a conjuntura externa e as pressões internacionais. Ao ser provocado sobre a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Genro afirmou ter publicado artigo recente e elevou o tom ao descrever o que chamou de colapso de parâmetros de direito internacional: “O sistema imperial colonial chegou ao cúmulo da hipocrisia, do cinismo, do mandonismo, do desrespeito ao direito internacional”, disse.

No mesmo bloco, elogiou a postura de Lula diante do conflito diplomático e comercial: “O que fez de admirável o presidente Lula nesse momento?… agir com inteligência… ponderação… dignidade”, sustentando que houve recuo do lado norte-americano e abertura para negociação.

Questionado sobre defesa nacional, rejeitou a ideia de bomba atômica e defendeu capacidade defensiva e tecnológica: “Eu acho que fabricar uma bomba atômica não adianta… nós temos é que… ter uma tecnologia defensiva do nosso território”. E, ao falar de Forças Armadas, afirmou temer mais a vulnerabilidade externa do que o fortalecimento institucional: “Eu tenho mais medo de não fortalecer e deixar o nosso país exposto à dominação imperial colonial”.

Democracia em posição defensiva e uma “revolução antifascista”

Na parte final, Genro descreveu um mundo reorganizado pelo domínio do capital financeiro e pelas plataformas que moldam informação e poder. Disse que o fascismo atual, na sua avaliação, não é mero “prolongamento” das crises como se pensava no passado: “Eu acho que ele é algo novo”, afirmou, citando a interpenetração econômica global e novas polaridades.

Também reconheceu erros de avaliação do passado recente: “Eu falhei achando que o Bolsonaro jamais chegaria no poder… eu achava impossível… como Trump ser presidente… mas está aí o Trump governando”, disse, defendendo que a defesa democrática precisa ganhar densidade histórica e política: “A defesa radical da democracia… uma revolução antifascista”, nas suas palavras, seria a referência do próximo período.

Ao encerrar, Genro resumiu o horizonte que considera urgente: “Formar uma grande frente democrática e republicana nesse país para derrotar a extrema direita”, mirando um “novo patamar” de democracia social, política e autonomia externa.

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