“Trump entrou em um atoleiro no Oriente Médio”, diz Thomas Toledo
Historiador vê impasse dos EUA na guerra contra o Irã
247 - O historiador e professor Thomas Toledo afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está enfrentando uma situação estratégica difícil no Oriente Médio ao se envolver diretamente na escalada militar contra o Irã. Para o especialista, o cenário indica que Washington entrou em um conflito de difícil resolução e com múltiplos interesses em disputa. “Trump entrou em um atoleiro”, disse Toledo ao analisar o atual estágio da guerra.
A avaliação foi apresentada durante entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, na qual o historiador discutiu a declaração do presidente dos Estados Unidos de que o conflito estaria próximo do fim. Segundo Toledo, a situação real do campo de batalha e das disputas geopolíticas indica um quadro mais complexo.
De acordo com o professor, a participação norte-americana no conflito responde a pressões políticas internas e externas. Ele afirma que diferentes grupos de interesse influenciam a atuação do governo dos Estados Unidos. “Ele precisava sair o mais rápido possível dessa situação, porque entrou num atoleiro”, afirmou.
Toledo explicou que a relação histórica entre Washington e Israel exerce forte peso nas decisões estratégicas da Casa Branca. Segundo ele, fatores como financiamento político e lobby no sistema eleitoral norte-americano ajudam a compreender a proximidade entre os dois países. “Tem a questão de financiamento de campanha, o lobby sionista é muito importante nos Estados Unidos para financiar candidatos republicanos e até democratas também”, declarou.
O historiador acrescentou que o governo norte-americano também precisa atender interesses da indústria de defesa. Na avaliação dele, o financiamento eleitoral proveniente desse setor cria compromissos políticos que influenciam decisões militares. “O Trump também tem contas a pagar com a indústria bélica que financiou a campanha dele. Não adianta ele ser pacifista e não jogar arma, não torrar míssil”, afirmou.
Segundo Toledo, o conflito atual reúne três estratégias distintas, protagonizadas pelos Estados Unidos, Israel e Irã. Cada um desses atores, na avaliação do historiador, busca objetivos próprios dentro da guerra. “O que eu vejo é que são três estratégias diferentes: a estratégia do Trump, a estratégia de Israel e a estratégia do Irã”, disse.
Para ele, a estratégia norte-americana teria sido entrar no conflito com objetivos limitados, buscando demonstrar força militar e atender compromissos políticos internos, mas sem se envolver em uma guerra prolongada. Toledo descreveu esse movimento como o pagamento de um “pedágio político”. “O Trump só queria pagar um pedágio. Ou ele tinha contas a pagar com a indústria bélica, com o lobby israelense ou com outros interesses”, afirmou.
Na avaliação do historiador, Israel teria interesses estratégicos diferentes e mais amplos. Ele argumenta que o governo israelense identificou um momento favorável para confrontar o Irã, considerando o enfraquecimento de alguns aliados regionais de Teerã. “Israel viu uma janela de oportunidade sem precedentes na história deles”, declarou.
O professor também destacou que, mesmo diante dessa ofensiva, o Irã mantém capacidade de reação e busca atingir estruturas militares adversárias. Segundo Toledo, o objetivo de Teerã seria reduzir a capacidade de ataque dos Estados Unidos e de Israel contra seu território. “O objetivo do Irã nesse momento é desmantelar a infraestrutura dos Estados Unidos e de Israel que possa atingi-lo”, afirmou.
Outro fator apontado pelo historiador é a continuidade das negociações diplomáticas mesmo durante a guerra. Ele destacou que diálogos entre representantes dos países envolvidos seguem ocorrendo em paralelo às ações militares. “Enquanto tem míssil caindo em Tel Aviv e nas bases dos Estados Unidos, você tem diplomatas dos três países reunidos discutindo a guerra sob outra perspectiva”, disse.
Para Toledo, essa dinâmica demonstra que o conflito envolve simultaneamente enfrentamento militar e negociação política. Ele citou o teórico militar Carl von Clausewitz para explicar essa relação. “A guerra é a continuidade da política por meios violentos”, afirmou.
Ao avaliar o momento atual, o historiador afirmou que os interesses estratégicos dos três atores centrais do conflito permanecem incompatíveis. Na visão dele, essa divergência é o principal fator que dificulta uma solução rápida para a guerra. “São três interesses antagônicos. O interesse dos Estados Unidos não é o mesmo de Israel, e o do Irã vai no sentido oposto de todos esses”, declarou.


