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Ualid Rabah: “Os Estados Unidos são o nosso grande inimigo”

Ualid Rabah relaciona a ofensiva no Líbano à disputa regional por território, energia e poder

Ualid Rabah (Foto: Arquivo )

247 -  A escalada militar no Oriente Médio, com ataques sobre o Líbano, pressão contra o Irã e agravamento da tragédia palestina, foi descrita por Ualid Rabah como parte de uma disputa mais ampla por território, energia e poder. Ao afirmar que “os Estados Unidos são o nosso grande inimigo”, o presidente da Fepal (Federação Árabe Palestina do Brasil) sustentou que a ofensiva na região não pode ser analisada de forma fragmentada, porque envolve um redesenho geopolítico que atinge do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico.

As declarações foram dadas por Ualid Rabah em entrevista à TV 247, no programa “Mario Vitor & Regina Zappa. Ao longo da conversa, ele concentrou sua análise na situação do Líbano, no papel dos Estados Unidos e de Israel no conflito e nos desdobramentos da guerra sobre Gaza, a Cisjordânia e o equilíbrio internacional.

Na avaliação de Rabah, o que ocorre no sul do Líbano não é um episódio isolado, mas a continuidade de um projeto histórico de ocupação. Segundo ele, a ofensiva israelense sobre a região deve ser compreendida à luz de uma estratégia antiga de controle territorial. “O projeto de tomada do sul do Líbano sempre esteve presente dentro de um projeto maior”, declarou, ao defender que o conflito precisa ser analisado com perspectiva histórica.

O dirigente afirmou que esse movimento está ligado a uma ambição regional mais ampla. Em uma das falas centrais da entrevista, disse: “O grande Israel é o nome fantasia do grande espaço vital dos Estados Unidos em todo o Oriente Médio”. Na leitura de Rabah, a disputa ultrapassa a fronteira entre Líbano e Israel e envolve interesses sobre rotas marítimas, reservas energéticas e fontes de água em diversos países da região.

Ao detalhar esse raciocínio, ele afirmou que o Líbano ocupa posição estratégica num tabuleiro que inclui Palestina, Síria, Jordânia, Iraque, Egito, Arábia Saudita e Irã. Para Rabah, a guerra precisa ser lida como parte de uma engrenagem de dominação mais ampla. “Há uma guerra dos Estados Unidos e não de Israel”, afirmou, ao sustentar que Washington atua como centro político e estratégico dessa ofensiva.

Segundo o presidente da Fepal, a atual escalada também precisa ser entendida a partir da dimensão energética do conflito. Em sua avaliação, a disputa pelo controle de petróleo, gás e corredores de circulação desses recursos se tornou um dos eixos centrais da confrontação internacional. Por isso, ele afirmou: “Os Estados Unidos desencadearam a grande guerra energética mundial”.

Rabah argumentou que esse processo afeta não apenas o Oriente Médio, mas também Europa, Ásia e América Latina. Ao citar o peso estratégico do estreito de Ormuz, do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico, ele afirmou que o controle dessas áreas tem impacto direto sobre China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Brasil. Em sua avaliação, a disputa atual já produz reflexos econômicos e políticos em escala global.

Ao tratar diretamente do enfrentamento entre Irã e Israel, Rabah afirmou que Teerã tem conseguido impor danos relevantes ao aparato israelense. Segundo ele, foram atingidos setores ligados à infraestrutura energética, bases militares, sistemas anti mísseis, radares e outros ativos estratégicos. A partir dessa leitura, disse que o conflito corrói a imagem de invulnerabilidade cultivada por Israel há décadas.

Uma das frases mais fortes da entrevista foi precisamente sobre esse ponto. “O Irã está impondo a Israel o desmonte de todos os seus mitos”, afirmou. Na sequência, argumentou que a ideia de superioridade bélica absoluta de Israel teria sido abalada pelos acontecimentos recentes. Para Rabah, essa mudança afeta não só o campo militar, mas também a imagem internacional do Estado israelense como fornecedor de tecnologia e segurança.

O dirigente também fez uma advertência grave sobre o risco de escalada nuclear. Em sua análise, há possibilidade de agravamento extremo do conflito caso os Estados Unidos decidam ampliar o confronto de maneira direta. “Eu desconfio que eles já estão preparando o uso de artefatos nucleares, bombas atômicas táticas contra o Irã”, declarou.

Em seguida, ele reforçou essa hipótese ao dizer: “Os Estados Unidos estão propensos a fazer isso com Israel. Israel é que lançará”. A declaração foi apresentada por Rabah como um alerta diante do padrão de escalada que, segundo ele, vem sendo adotado na região. Ao abordar esse cenário, o presidente da Fepal afirmou que o problema central não é apenas a ação israelense em si, mas a articulação estratégica dos Estados Unidos.

Ainda sobre o Irã, Rabah sustentou que o país não dispõe de armamento nuclear. “O Irã não tem artefato nuclear”, afirmou, ao mencionar as inspeções internacionais. Na entrevista, ele também defendeu que os países tenham direito ao desenvolvimento de capacidade tecnológica de dissuasão, inclusive no campo nuclear, dentro de uma lógica de soberania e defesa estratégica.

Em outro momento marcante, Rabah criticou o foco exclusivo em Israel como chave interpretativa do conflito. Para ele, essa leitura encobre o protagonismo dos Estados Unidos. “Quem perder tempo analisando Israel não vai conseguir compreender” o que está em jogo, afirmou, ao insistir que a engrenagem principal do confronto é comandada por Washington.

Ao longo da entrevista, o presidente da Fepal apresentou a guerra em curso como parte de uma crise mais profunda da hegemonia norte-americana. Segundo ele, os Estados Unidos já não conseguem sustentar sua influência apenas por meio de instrumentos econômicos, diplomáticos e culturais, e por isso recorrem com mais intensidade à guerra aberta. Em sua formulação, trata-se de uma tentativa de preservar o poder num cenário internacional em transformação.

Rabah também associou esse processo ao avanço dos Brics, ao fortalecimento da China, à resistência da Rússia e à reorganização de fluxos comerciais globais. Para ele, o enfrentamento em torno do Irã e do Líbano não pode ser separado dessa disputa sistêmica. Na avaliação do dirigente, o conflito atual expressa uma reação violenta à perda relativa de capacidade de comando dos Estados Unidos sobre a ordem internacional.

Ao final da entrevista, a situação palestina voltou ao centro da análise. Segundo Rabah, Gaza vive hoje um quadro ainda mais grave porque passou a receber menos atenção internacional à medida que o foco se deslocou para o confronto envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. “Pior do que antes, porque é invisibilizada”, afirmou, ao resumir a situação do território palestino.

Ele acrescentou que os palestinos continuam sendo mortos pela falta de ajuda humanitária e pela ausência de reconstrução, ao mesmo tempo em que a repressão avança na Cisjordânia. Na mesma linha, denunciou o aumento das prisões de palestinos por Israel e afirmou: “Este é o maior sequestro de palestinos da história”. Segundo Rabah, há hoje cerca de 25 mil palestinos detidos, sendo entre 6 mil e 7 mil capturados em Gaza e os demais na Cisjordânia desde outubro de 2023.

A entrevista foi encerrada com um diagnóstico severo sobre o estágio da crise no Oriente Médio. Ao enfatizar o Líbano, o Irã e Gaza como frentes conectadas de um mesmo processo, Ualid Rabah apresentou um quadro de escalada prolongada, reorganização geopolítica e aprofundamento da violência contra a população palestina, em meio a um cenário que, segundo sua leitura, já ultrapassa em muito os limites de um conflito regional.

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