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Jeffrey Sachs diz que Trump mente sobre negociações com o Irã e alerta para risco de catástrofe econômica global

Economista afirma que escalada militar impulsionada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu pode lançar o mundo em uma crise sem precedentes

Donald Trump e Jeffrey Sachs (Foto: Reuters/ABr)

247 – O economista Jeffrey Sachs fez um duro ataque ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ao analisar a escalada militar no Oriente Médio e seus possíveis efeitos sobre a economia mundial. Em entrevista concedida ao canal Judging Freedom, no YouTube, conduzida pelo juiz Andrew Napolitano, Sachs afirmou que Trump tem mentido sistematicamente sobre supostas negociações com o Irã e advertiu que a continuidade do conflito pode provocar uma crise energética e financeira de dimensão histórica.

Ao longo da entrevista, Sachs descreveu um cenário de “colapso de processo” dentro do governo dos Estados Unidos, criticou o comportamento de Trump diante da crise e sustentou que não há qualquer evidência de negociações reais em curso com Teerã. Para ele, a combinação entre improviso político, escalada militar e destruição de infraestrutura vital no Oriente Médio está empurrando o planeta para um ponto de não retorno.

Sachs acusa Trump de mentir e agir em pânico

Logo no início da conversa, Jeffrey Sachs foi questionado sobre a postura contraditória de Donald Trump, que em um momento fala em negociações produtivas e, em outro, ameaça destruir infraestrutura civil, energética e petrolífera. A resposta foi direta e devastadora.

“Trump está se debatendo porque ele e Netanyahu levaram o mundo à beira da maior crise econômica da história moderna”, afirmou Sachs. Em seguida, ampliou o tom da crítica: “Trump é em parte delirante, claro, um mentiroso compulsivo, mas também um homem preso por suas próprias absurdidades e crueldades. Ele é um psicopata, e Netanyahu também”.

Na avaliação do economista, os dois líderes impulsionaram uma escalada de violência que não produziu nenhum dos resultados políticos alegados e, ao contrário, apenas aprofundou a guerra e o caos. Sachs sustentou que o conflito já ameaça engolir o mundo inteiro, sobretudo porque a destruição não se limita mais a restrições de transporte ou bloqueios comerciais, mas atinge diretamente instalações físicas essenciais para a produção global de energia.

Infraestrutura energética sob ataque pode provocar crise inédita

Um dos pontos centrais da entrevista foi a advertência de Sachs sobre os impactos da destruição de refinarias, oleodutos, portos, campos de petróleo e gás no Oriente Médio. Segundo ele, trata-se de uma ameaça ainda mais grave do que os choques do petróleo da década de 1970.

“Não estamos falando da abertura ou do fechamento do estreito de Hormuz. Estamos falando da destruição física da infraestrutura energética que abriga cerca de um terço das reservas mundiais de petróleo”, declarou.

Ele ressaltou que essas instalações são altamente vulneráveis: “Esses campos de petróleo e gás, refinarias, instalações portuárias e oleodutos não foram construídos com sistemas antimísseis. Estão ali, completamente vulneráveis à destruição”.

Para Sachs, parte dessa destruição já começou e tende a se aprofundar a cada dia de guerra. O resultado, segundo ele, será duradouro: “Se isso não for irreversível numa escala de décadas, será irreversível por meses e anos. E isso significa uma crise econômica calamitosa no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos”.

“Não há uma palavra de verdade”, diz economista sobre supostas negociações

Ao comentar declarações de Donald Trump a bordo do Air Force One, nas quais o presidente dos Estados Unidos sugeriu que o Irã teria aceitado a maior parte de uma proposta de 15 pontos apresentada por Washington, Sachs negou categoricamente qualquer base real nessas afirmações.

“Não. Não há uma palavra de verdade nisso”, disse. “Não há negociação. Não há concessões. Há uma guerra acontecendo todos os dias. Há milhares de fuzileiros navais americanos chegando à região para uma operação que é iminente”.

Na sequência, reforçou: “Não há um fiapo de verdade. Mas com quem ele está falando, além de si mesmo? Todo mundo consegue ver que isso está absolutamente fora de controle”.

Sachs argumentou ainda que a situação é acompanhada com perplexidade por outros líderes internacionais, que enxergariam em Trump uma conduta sem precedentes para um presidente norte-americano. Para ele, a fabricação de narrativas sobre conversações diplomáticas serve apenas para mascarar a gravidade do momento e esconder o vazio decisório em Washington.

Governo dos EUA estaria em “colapso completo de processo”

Outro eixo forte da entrevista foi a crítica ao funcionamento institucional dos Estados Unidos. Jeffrey Sachs afirmou que o governo vive um colapso operacional e político, sem deliberação séria, sem planejamento e sem controle efetivo por parte do Congresso.

“Temos um governo em colapso completo. Não há processo. Não há avaliação sistemática de alternativas, nem mesmo dentro do aparato de segurança”, afirmou. “Não há profissionalização dessas ações. Não há qualquer escrutínio por parte do Congresso. Não há planos”.

Segundo ele, o mais grave é que decisões com potencial de deflagrar uma catástrofe global estariam sendo tomadas com base em improviso, declarações contraditórias e ausência de coordenação técnica. Sachs resumiu esse quadro com uma frase contundente: “Estamos sendo liderados por gângsteres que estão completamente fora de sua profundidade”.

Ele também criticou o afastamento ou silenciamento de quadros técnicos experientes do governo norte-americano. Em sua visão, profissionais que saberiam avaliar corretamente os riscos foram “esmagados”, forçados a sair, ameaçados ou levados à renúncia, deixando o Estado à mercê de dirigentes incapazes.

Netanyahu é chamado de “fascista” e “megalomaníaco”

Sachs também dirigiu ataques frontais a Benjamin Netanyahu, a quem atribuiu uma estratégia deliberada de arrastar os Estados Unidos para uma guerra cada vez maior. Ao contrário de Trump, que ele descreve como alguém em pânico, Netanyahu foi apresentado como um ator racional dentro de uma lógica de escalada permanente.

“Acho que Netanyahu não está em pânico. Acho que ele está simplesmente pronto para continuar escalando e pronto para arrastar os Estados Unidos para a maior guerra possível”, afirmou.

Em outro trecho, foi ainda mais explícito: “Ele é um megalomaníaco. Ele é um fascista. Ele lidera um governo fascista”.

Para Sachs, não há freios reais sobre o premiê israelense enquanto Washington continuar oferecendo respaldo total. Segundo ele, essa cobertura política permite a Netanyahu seguir em qualquer caminho de agravamento do conflito, mesmo que isso tenha consequências devastadoras para a economia global e para a estabilidade regional.

Estreito de Hormuz deixa de ser único problema

Embora o bloqueio ou a instabilidade no estreito de Hormuz tenha sido tratado como um fator decisivo, Sachs insistiu que o ponto mais grave já não é apenas o tráfego marítimo, mas o dano acumulado à infraestrutura de produção e refino.

Ele lembrou que cerca de 20% do petróleo mundial costumava passar diariamente pelo estreito e destacou a forte disparada dos preços da energia. “O preço do petróleo subiu de cerca de 60 dólares por barril para algo em torno de 112 dólares por barril”, afirmou, referindo-se ao Brent.

Na sua avaliação, se a guerra prosseguir, o problema deixará rapidamente de ser o estreito em si. “Em poucas semanas, o estreito de Hormuz não será a questão, porque as instalações físicas de produção e refino estarão destruídas”, disse.

Sachs advertiu que, caso se confirmem operações terrestres dos Estados Unidos e a continuidade dos ataques israelenses, o resultado será um colapso abrupto do abastecimento mundial de petróleo e gás. Isso, segundo ele, produzirá “uma grande catástrofe econômica no mundo inteiro”.

Consequências humanitárias já estariam em curso

Além dos efeitos macroeconômicos, Sachs chamou a atenção para os desdobramentos humanitários da guerra. Segundo ele, a interrupção de cadeias de abastecimento já afeta centros urbanos importantes da região.

“Já estamos vendo que os suprimentos de alimentos até para cidades famosas e importantes dos Emirados Árabes Unidos desapareceram das prateleiras”, afirmou. “Remessas básicas para as necessidades diárias já pararam. Isso já está acontecendo”.

Ele alertou ainda para o risco de destruição de usinas de dessalinização em uma região desértica, o que teria efeitos imediatos sobre o acesso à água potável e o funcionamento de hospitais e serviços essenciais. Nesse ponto, sua fala reforça a ideia de que o conflito, para além da disputa militar, ameaça produzir um colapso social em larga escala.

Sachs cobra Congresso e adultos em Washington

Ao longo da entrevista, Jeffrey Sachs repetiu que os Estados Unidos precisam urgentemente de “adultos na sala”. Para ele, o silêncio ou a omissão do Congresso diante do comportamento de Trump é incompatível com a gravidade da situação.

“Onde estão os adultos em Washington? Onde está a 25ª Emenda? Onde está algum controle antes que tenhamos uma catástrofe mundial completa e irreversível?”, questionou.

Mais adiante, reforçou a cobrança institucional: “Não é uma pergunta sobre o que Trump fará em seguida. Nós sabemos o que Trump fará. Ele vai mentir. Vai fabular. Vai improvisar de forma imprudente. Não há processo aqui”.

Segundo Sachs, a pergunta central deve ser outra: “O que nós vamos fazer em seguida? O que nós vamos fazer em nosso governo?”. Em sua visão, cabe ao Congresso e ao restante do Poder Executivo agir para restabelecer a legalidade, a racionalidade decisória e o controle constitucional do poder.

Crítica se estende a Biden e ao sistema político norte-americano

Embora o foco principal da entrevista tenha sido Donald Trump, Sachs também fez referência ao ex-presidente Joe Biden, argumentando que os problemas de funcionamento do sistema político norte-americano não começaram agora. Segundo ele, o país já havia convivido com um presidente sem plena capacidade mental e com uma estrutura de poder interessada mais na encenação do que na substância.

“Tivemos também um presidente que não estava em pleno juízo. Joe Biden não estava saudável, e sua equipe interna sabia disso e escondeu isso do povo americano por dois anos, porque nosso governo se tornou espetáculo e não substância”, afirmou.

A observação foi usada para sustentar sua tese de que os Estados Unidos entraram numa fase de degradação institucional profunda, na qual crises gravíssimas são tratadas com marketing político, gestão de imagem e manipulação narrativa, inclusive em temas de guerra.

Alerta final: “Esta guerra deve parar agora”

No encerramento, Jeffrey Sachs defendeu que lideranças internacionais com maior peso político tentem frear Donald Trump antes que a situação se torne irreversível. Ele citou nominalmente o presidente da China, Xi Jinping, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, como figuras que deveriam procurar interlocução imediata com a Casa Branca.

“Esta guerra deve parar agora”, afirmou.

Ele também voltou a responsabilizar diretamente Netanyahu pela escalada. “Um criminoso de guerra como Netanyahu, que nunca deveria ter chegado perto do poder em seu próprio país, muito menos perto dos Estados Unidos”, disse.

Em sua conclusão, Sachs alertou que os norte-americanos poderão enfrentar desemprego em massa e queda brutal no padrão de vida caso a destruição da infraestrutura energética siga adiante. “Se você acha que seu padrão de vida já está em perigo agora, espere um pouco mais. Isso será uma catástrofe”, declarou.

A entrevista termina com uma advertência clara: na visão de Jeffrey Sachs, a combinação de improviso, militarismo e mentira política está levando os Estados Unidos e o mundo para uma crise de grandes proporções. Seu apelo é para que as instituições retomem o controle antes que a guerra produza consequências irreversíveis.

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