Jeffrey Sachs diz que guerra contra o Irã acelera declínio dos EUA
Economista afirma que ofensiva liderada por Trump expõe crise de governança em Washington e ameaça ampliar o colapso geopolítico
247 - O economista Jeffrey Sachs afirmou que a escalada militar envolvendo Irã, Israel e os Estados Unidos pode representar um ponto de ruptura para a influência global de Washington. Em entrevista, ele associou a ofensiva ao agravamento de uma crise política, institucional e estratégica nos Estados Unidos, além de alertar para o risco de uma desestabilização internacional de grandes proporções.
As declarações foram dadas ao programa Judging Freedom, apresentado por Andrew Napolitano, em vídeo publicado no YouTube. Nessa análise, Sachs concentrou suas críticas no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na condução da guerra e na ausência, segundo ele, de qualquer processo racional de deliberação em Washington.
Ao comentar declarações de Donald Trump sobre supostas conversas produtivas com o Irã, Sachs demonstrou forte ceticismo. Para o economista, a versão apresentada pela Casa Branca não encontrava respaldo nas manifestações públicas de Teerã e, por isso, levantava dúvidas graves sobre a condução política da crise. “É impossível que tenha havido uma resolução de questões centrais. Impossível”, afirmou. Em seguida, elevou o tom da crítica: “Se isso se revelar completamente falso, o que é ao menos uma possibilidade, acho que teremos de considerar a possibilidade de que o presidente realmente perdeu contato com a realidade”.
Sachs também sustentou que a negativa iraniana às alegações de avanço diplomático tornava ainda mais frágil a narrativa de Washington. Na avaliação dele, não se tratava apenas de uma contradição política comum em tempos de guerra, mas de um quadro potencialmente perigoso. “Isso não é uma tática. Isso é delirante e muito perigoso”, disse.
Ao longo da entrevista, o economista apresentou a guerra como uma ofensiva sem legitimidade internacional. “Ela é vista catastroficamente em todo o mundo”, declarou. Segundo Sachs, há uma compreensão disseminada em várias capitais de que se trata de “uma guerra de agressão nua e crua”, levada adiante sem justificativa aceitável. Em um dos trechos mais duros da conversa, ele afirmou: “Está muito claro que esta é uma guerra de agressão sem qualquer justificativa”.
Sachs também direcionou críticas severas ao governo de Israel e ao alinhamento de Washington com a estratégia militar israelense. Ao comentar notícias sobre a possibilidade de anexação do sul do Líbano, ele classificou o gabinete de Benjamin Netanyahu em termos extremos e disse que a orientação adotada por Tel Aviv e respaldada pelos Estados Unidos aprofunda o risco de uma guerra de maiores dimensões.
Na avaliação do economista, o conflito revelou não apenas uma crise constitucional nos Estados Unidos, mas um colapso mais amplo da capacidade de governar. “O que estamos vendo é um colapso da governança americana”, afirmou. Para Sachs, o problema vai além da concentração de poder nas mãos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele descreveu um cenário de decisões tomadas sem revisão institucional, sem debate público, sem audiências no Congresso e sem análise consistente das consequências.
“O que estamos vendo aqui não é apenas uma afirmação inconstitucional de poder; estamos vendo um colapso completo e total de competência, de processo normal e até de revisão racional de opções, discussões e possíveis consequências”, declarou. Em outro momento, reforçou a ideia de deterioração profunda do aparelho estatal: “Não estamos apenas sob governo de uma pessoa. Não estamos apenas no fim de nossa ordem constitucional. Estamos em um estado de completa incompetência”.
Sachs comparou esse quadro ao que disse observar em outros países. Ao mencionar sua estadia na China, afirmou ter acompanhado discussões estratégicas detalhadas e baseadas em planejamento de longo prazo, em contraste com o que descreveu como improvisação e ignorância no processo decisório norte-americano. O contraste serviu, na entrevista, para reforçar sua leitura de que os Estados Unidos atravessam uma crise sistêmica de liderança e formulação estratégica.
Outro eixo central da análise foi o impacto econômico da guerra. Sachs minimizou a importância da discussão recorrente sobre o chamado petrodólar como fator decisivo da força americana. Para ele, o elemento central da crise está em outro lugar: o risco de um choque de oferta em petróleo e gás, agravado não só pela ameaça ao transporte marítimo no Estreito de Ormuz, mas também pela destruição de infraestrutura energética.
“O ponto principal desta guerra é que temos uma profunda crise de oferta de petróleo e gás”, afirmou. Segundo ele, o problema se agrava porque não se trata apenas da interrupção do fluxo de navios, mas da destruição física de campos, refinarias e oleodutos. Sachs relatou ter ouvido de uma liderança política em Pequim que reconstruir esse tipo de infraestrutura exige tempo, investimento e grande esforço técnico. Foi com base nesse diagnóstico que ele relacionou o conflito ao recuo dos mercados asiáticos e à disparada dos preços da energia.
Para o economista, o abalo econômico ajuda a explicar a mudança de tom observada nas falas de Donald Trump. Sachs sugeriu que o presidente dos Estados Unidos pode ter percebido que suas ações colocaram o mundo “à beira da catástrofe” e, diante disso, buscou formular uma saída retórica sem reconhecer o erro. “Talvez Trump seja incapaz de formular qualquer declaração em que suas ações sejam colocadas em questão”, disse. E completou: “Acho que Trump fabula em sua mente uma solução para uma crise em que colocou o mundo inteiro”.
Ao comentar uma fala em que Donald Trump sugeriu que o controle do Estreito de Ormuz poderia ser exercido “por mim” e pelo aiatolá, Sachs reagiu com perplexidade. “Isso é realmente louco”, disse o apresentador, antes de o economista afirmar que as declarações eram “absolutamente absurdas” e “absolutamente sem sentido para além das confabulações normais de Trump no meio de uma guerra que ameaça o mundo”.
Nos momentos finais da entrevista, Sachs fez um apelo direto ao sistema político norte-americano. Cobrou reação de parlamentares republicanos e defendeu que o Congresso reassuma suas responsabilidades constitucionais. “Congressistas, um pequeno conselho ao presidente da Câmara e ao líder da maioria no Senado: leiam a Constituição. Lembrem-se do juramento de vocês. Vocês são responsáveis por esta guerra”, afirmou. Em seguida, insistiu: “Não podemos viver na ilusão deste homem. Temos de viver como adultos, olhando de forma racional e honesta para a situação”.
A entrevista termina com Sachs classificando o momento como uma crise gravíssima, tanto no plano militar quanto no plano institucional. Sua tese central é a de que a guerra contra o Irã não representa apenas mais um capítulo de instabilidade no Oriente Médio, mas um sintoma do desgaste profundo da liderança dos Estados Unidos no cenário mundial, com efeitos potenciais sobre a economia global, a segurança internacional e a própria estrutura política de Washington.


