“Trump vai perder a guerra com o Irã”, diz Jeffrey Sachs
Trump vai perder a guerra com o Irã, diz Jeffrey Sachs, ao acusar o presidente dos EUA de ampliar uma escalada militar sem saída
247 - Jeffrey Sachs afirmou que Donald Trump e Benjamin Netanyahu estão conduzindo uma escalada militar que, segundo ele, não pode ser vencida e tende a aprofundar a crise no Oriente Médio. Na avaliação do economista, a guerra amplia riscos para toda a região, expõe a vulnerabilidade das monarquias do Golfo e aprofunda um cenário de instabilidade internacional.
Em entrevista ao canal ANI, publicada no YouTube, Sachs fez duras críticas à condução da política externa dos Estados Unidos e disse que Washington e Israel persistem em uma estratégia fracassada de confronto com o Irã. Ao longo da conversa, ele classificou a guerra como desnecessária, acusou a Casa Branca de ignorar alertas técnicos e afirmou que a atual ofensiva está produzindo custos profundos para o mundo.
Segundo Sachs, Estados Unidos e Israel seguem apostando em uma vitória que não virá. Para ele, a insistência em tentar controlar a política interna iraniana é fruto de uma ilusão estratégica, com consequências graves para a segurança regional e global. “Estamos caminhando para uma escalada ainda maior porque os Estados Unidos e Israel estão determinados a vencer uma guerra que não podem vencer”, afirmou.
O economista definiu o conflito como “uma guerra de escolha” e foi além ao dizer que se trata de “uma guerra de capricho”, atribuída por ele a Trump e a Netanyahu. Ainda de acordo com Sachs, a ofensiva é rejeitada pela opinião pública americana e observada com horror em grande parte do mundo. Em um dos trechos mais contundentes da entrevista, ele declarou: “Este é um desastre que está atingindo o mundo inteiro”.
Ao comentar a possibilidade de Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos entrarem diretamente no conflito, Sachs fez um alerta severo. Na visão dele, os países do Golfo estão excessivamente expostos e apostam de forma equivocada na proteção militar americana. “Eles serão destruídos ainda mais rapidamente se entrarem na guerra”, disse. Em seguida, reforçou a avaliação de que instalações petrolíferas, portos, refinarias e bases da região são alvos altamente vulneráveis.
Sachs também afirmou que cidades como Dubai e Abu Dhabi poderiam sofrer consequências devastadoras em caso de ampliação do confronto. “Dubai e Abu Dhabi podem ser destruídas se os Emirados entrarem na guerra”, declarou. Para ele, transformar centros turísticos e financeiros em zonas de guerra contraria a própria lógica econômica e estratégica desses países.
Outro ponto central da entrevista foi a avaliação de que Washington e Tel Aviv subestimaram seriamente a capacidade militar iraniana. Sachs afirmou que houve uma “profunda subestimação” e uma “má avaliação ainda mais profunda” ao supor que ataques contra a liderança iraniana e autoridades de alto escalão seriam suficientes para derrubar o regime. Segundo ele, a crença de que uma ofensiva de decapitação política encerraria rapidamente a crise foi um erro grave de cálculo.
Ao falar sobre a estrutura de poder nos Estados Unidos, Sachs elevou o tom. Disse que há uma deterioração da competência no topo do governo e atacou o círculo próximo de Trump. “Temos uma quebra de competência no mais alto nível”, afirmou. Em outro momento, declarou que o presidente americano é “um homem impulsivo, sem conhecimento, facilmente influenciável e incapaz de prestar atenção aos briefings”.
Na entrevista, Sachs também questionou a racionalidade das decisões tomadas pela Casa Branca. Segundo ele, parte do problema está no fato de que analistas e governos estrangeiros ainda tentam interpretar Trump como um líder que realiza cálculos sofisticados, quando, em sua avaliação, o processo decisório americano atravessa uma ruptura. “Não estamos vendo um calculista racional”, disse. “Estamos vendo um velho impulsivo completamente fora de sua profundidade.”
O economista ainda afirmou que há sinais de colapso institucional nos Estados Unidos. Ao comentar a presença de Elon Musk em uma ligação entre Trump e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, Sachs disse que, se a informação for correta, isso revelaria “um colapso quase completo da governança normal nos Estados Unidos”. Para ele, a influência política, financeira e tecnológica do Vale do Silício tornou-se central no funcionamento do poder em Washington.
Na mesma linha, ele declarou que o sistema político americano foi capturado por interesses privados e por um grupo reduzido de bilionários. “O grupo de interesse mais poderoso dos Estados Unidos é o Vale do Silício”, afirmou. Sachs sustentou que essa concentração de poder se reflete não apenas no financiamento eleitoral, mas também no controle de plataformas digitais, sistemas de inteligência artificial e contratos estratégicos com o Pentágono.
Ao abordar o papel do Paquistão em eventuais esforços de mediação, Sachs disse considerar a hipótese “bizarra”. Para ele, o protagonismo deveria caber aos Brics, sobretudo a Índia, a China e a Rússia, em uma tentativa coordenada de convencer Trump a recuar. “Francamente, vejo isso como bizarro”, afirmou, ao acrescentar que a escolha paquistanesa representa, em sua visão, “uma oportunidade perdida dos Brics”.
Sachs defendeu que essas potências intervenham politicamente para conter a escalada e estabelecer um novo marco de negociação. Segundo ele, o Irã precisa de garantias reais de segurança, enquanto os Estados Unidos teriam de interromper os ataques e abandonar a lógica da mudança de regime. O economista afirmou ainda que a retomada do acordo nuclear de 2015, o JCPOA, seria um ponto de partida mais realista do que a continuação da guerra.
Na avaliação de Sachs, a raiz mais profunda da crise está na política regional de Israel e na ausência de uma solução para a questão palestina. Ele sustentou que a única saída duradoura passa pelo reconhecimento de um Estado palestino dentro das fronteiras de 4 de junho de 1967. “A única maneira de realmente acabar com essas guerras é Israel viver dentro de suas fronteiras de 4 de junho de 1967 e haver um Estado da Palestina ao lado”, declarou.
O economista também reservou críticas duríssimas a Netanyahu, a quem chamou de “o maior criminoso de guerra em liberdade no mundo hoje”. Disse ainda que a política regional israelense ajudou a espalhar conflitos por vários países do Oriente Médio e acusou o governo de Tel Aviv de perseguir ideias “malignas” e “delirantes”.
Ao final da entrevista, Sachs insistiu que o momento exige a atuação de “adultos” capazes de interromper o curso da escalada. Para ele, o cenário atual é marcado por dirigentes sem controle, cercados por decisões improvisadas e por uma perigosa perda de racionalidade política. “Esses gângsteres não sabem administrar nada”, afirmou. Em sua leitura, é essa a realidade que hoje empurra o Oriente Médio para um conflito de consequências imprevisíveis.


