Prefeito de Milão rejeita atuação do ICE nos Jogos de Inverno: "é uma milícia que mata"
Agentes do ICE participarão do esquema de segurança do evento
247 - O prefeito de Milão, Giuseppe Sala, afirmou que agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) não são bem-vindos na cidade durante os Jogos Olímpicos de Inverno, que começam em 6 de fevereiro. A declaração foi feita em meio à confirmação de que integrantes do órgão norte-americano participarão do esquema de segurança do evento, gerando forte reação política e social na Itália. As falas do prefeito ampliaram o debate internacional sobre a atuação do ICE e as políticas migratórias adotadas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em entrevista à rádio italiana RTL 102.5, Giuseppe Sala foi direto ao criticar o órgão norte-americano. “Esta é uma milícia que mata… Está claro que não são bem-vindos em Milão, não há dúvida disso. Simplesmente, podemos dizer não a Trump por uma vez?”, afirmou o prefeito, ao comentar a possível presença de agentes do ICE na cidade-sede dos Jogos.
No mesmo dia, um porta-voz do ICE confirmou à agência AFP que agentes ligados à divisão de Investigações de Segurança Interna (HSI) participarão das operações de segurança durante a Olimpíada de Inverno, que ocorre entre 6 e 22 de fevereiro em Milão e Cortina d’Ampezzo. Segundo o comunicado, a atuação do órgão norte-americano se dará em cooperação com o Serviço de Segurança Diplomática do Departamento de Estado dos Estados Unidos e com as autoridades do país anfitrião.
“Os Jogos Olímpicos, a divisão de Investigações de Segurança Interna do ICE está apoiando o Serviço de Segurança Diplomática do Departamento de Estado dos Estados Unidos e o país anfitrião para avaliar e mitigar riscos provenientes de organizações criminosas transnacionais”, informou a agência. O ICE ressaltou ainda que “todas as operações de segurança permanecem sob autoridade italiana” e que “obviamente o ICE não realiza operações de controle migratório em países estrangeiros”.
O HSI, subordinado ao ICE, é uma agência federal responsável por investigar crimes como cibercrime, tráfico de armas, drogas e exploração sexual infantil. De acordo com informações publicadas em seu site oficial, o órgão também atua na proteção de cidadãos dos Estados Unidos “em casa, no exterior e online”.
Apesar das explicações oficiais, a possível presença de agentes do ICE nos Jogos provocou intensa controvérsia na Itália. A discussão ganhou força após a morte de dois cidadãos norte-americanos em Minneapolis, durante operações contra imigração irregular, episódio que colocou o órgão no centro de duras críticas internacionais. Inicialmente, autoridades italianas negaram qualquer participação do ICE na segurança do evento, mas depois passaram a minimizar o papel do órgão, afirmando que a atuação se limitaria ao apoio à delegação dos Estados Unidos.
A cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno, marcada para 6 de fevereiro em Milão, contará com a presença do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e do secretário de Estado, Marco Rubio, o que reforça a atenção diplomática em torno do evento e do debate sobre segurança.
A controvérsia ocorre paralelamente ao aumento das tensões internas nos Estados Unidos em relação à política migratória. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou o envio de Tom Homan, conhecido como o “czar” anti-imigração, ao estado de Minnesota, após a morte do enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, baleado por agentes federais de imigração em Minneapolis. “Estou enviando Tom Homan para Minnesota esta noite”, escreveu Trump em sua rede social Truth Social. “Ele não tem experiência nessa região, mas conhece e gosta de muitas pessoas de lá. Tom é firme, mas justo, e se reportará diretamente a mim”.
Tom Homan tem longa trajetória ligada ao ICE. Ele comandou a ala de deportação da agência durante o governo de Barack Obama e foi diretor interino do órgão no primeiro mandato de Trump. Em 2018, esteve entre os responsáveis por recomendar a política que resultou na separação de famílias na fronteira. Atualmente, como czar da fronteira, atua como um dos principais porta-vozes da repressão à imigração promovida pela Casa Branca.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou nas redes sociais que Homan será responsável por administrar as operações do ICE em Minnesota e coordenar investigações federais no estado, destacando que ele “continuaria prendendo os piores imigrantes ilegais criminosos”.
A condução das operações em campo, no entanto, tem sido liderada principalmente pela secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, ao lado de outros dirigentes do Departamento de Segurança Interna (DHS), como Gregory Bovino, responsável por supervisionar ações da Patrulha da Fronteira. Noem elogiou publicamente o envio de Homan para Minnesota. “Esta é uma boa notícia para a paz, a segurança e a responsabilização em Minneapolis”, escreveu.
De acordo com análise do Wall Street Journal, a decisão de Trump pode indicar uma mudança de estratégia na região. O jornal aponta que Tom Homan e Kristi Noem mantêm uma relação conflituosa desde o início do atual governo, com divergências sobre a abordagem das ações migratórias. Enquanto Homan defende foco em criminosos considerados perigosos, Noem tem priorizado operações mais amplas e ostensivas, incluindo prisões indiscriminadas e o uso de táticas de caráter militar.
Nos últimos meses, segundo o WSJ, a estratégia adotada pelo Departamento de Segurança Interna vinha prevalecendo, com ênfase no confronto com cidades-santuário e movimentos de oposição às políticas migratórias. O envio de Homan a Minnesota, porém, pode sinalizar uma inflexão nesse cenário, em meio à crescente pressão política interna e à repercussão internacional das ações do ICE, agora também no centro do debate sobre os Jogos Olímpicos de Inverno em Milão.


