Áudios, mensagens e transferências de dinheiro confirmam relação de Deolane com o PCC, afirmam promotores
Denúncia do MP-SP cita movimentações bancárias, áudios e conversas interceptadas para sustentar acusação de lavagem de dinheiro
247 - A advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra foi denunciada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) sob acusação de integrar um esquema de organização criminosa e lavagem de dinheiro supostamente ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo informações publicadas pela Folha de São Paulo, a denúncia sustenta que áudios, mensagens trocadas entre investigados e movimentações financeiras rastreadas pelas autoridades indicam uma conexão entre a influenciadora e integrantes da facção criminosa.
O documento, protocolado na Justiça na quarta-feira (10), possui 356 páginas e foi assinado por sete promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Além de Deolane, outras seis pessoas foram denunciadas, entre elas Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do PCC, seu irmão Alejandro Juvenal Herbas Camacho e dois sobrinhos.
De acordo com os promotores, as evidências reunidas durante a Operação Vértix incluem registros bancários, conversas extraídas de celulares apreendidos e arquivos de áudio encaminhados à Justiça. Na avaliação do Ministério Público, os elementos coletados indicariam que "Deolane Bezerra Santos compõe o núcleo financeiro da organização criminosa".
A defesa da influenciadora rejeitou as acusações. Em nota divulgada na quarta-feira, os advogados Josimary Vilhena, Luiz Ricardo Imparato e Rogério Nunes afirmaram que Deolane "não faz parte de nenhuma organização criminosa e tampouco cometeu qualquer crime, o que será provado ao longo do processo". Os defensores acrescentaram que ainda não tiveram acesso ao conteúdo integral da denúncia e que irão responder formalmente às acusações após a citação nos autos.
Já o advogado Bruno Ferullo, responsável pela defesa de Marcola, de seu irmão e dos dois sobrinhos denunciados, declarou que pretende "demonstrar a fragilidade narrativa acusatória e a improcedência das imputações" apresentadas pelo Ministério Público. Segundo ele, tanto Marcola quanto Alejandro estão presos e submetidos a rígidas restrições de comunicação, o que inviabilizaria qualquer participação nos fatos investigados.
Transferências sob investigação
Entre os principais elementos citados na denúncia estão transferências financeiras que teriam origem na Transportadora Lado a Lado. Conforme o Ministério Público, a empresa já foi reconhecida judicialmente como instrumento de lavagem de dinheiro do PCC e teria como sócios ocultos Marcola e seu irmão.
Os investigadores afirmam ter encontrado uma troca de mensagens de 2020 na qual uma conta bancária atribuída a Deolane é indicada para receber depósitos da transportadora. Segundo a denúncia, o beneficiário final das operações seria Alejandro Juvenal Herbas Camacho. Fotografias de comprovantes bancários anexadas ao processo indicariam que as transferências foram efetivamente realizadas.
A conversa ocorreu entre um dos sócios da empresa e Everton de Souza, apontado pelos promotores como operador financeiro ligado ao PCC. Ainda segundo a acusação, os interlocutores demonstravam preocupação com a segurança das comunicações, utilizando aparelhos telefônicos exclusivos para determinados contatos.
"Este telefone não fica comigo também", diz um dos participantes da conversa. "Deixo na casa de outra pessoa."
Em uma das diligências realizadas pela polícia, uma caixa com o nome de Deolane e a frase "O justo não se justifica" foi localizada em um endereço relacionado a Everton de Souza. No interior da caixa, foram encontrados R$ 7.800 em dinheiro vivo.
Áudios entregues à polícia
Outro ponto destacado pelos promotores envolve uma queixa-crime registrada por uma diarista contra Deolane e um de seus filhos. Conforme a denúncia, a trabalhadora foi acusada de furtar R$ 80 mil que estariam guardados na residência do filho da influenciadora.
A diarista negou participação no desaparecimento do dinheiro e afirmou ter sido vítima de ameaças e calúnia. Ao formalizar a ocorrência, ela entregou às autoridades um pendrive contendo áudios nos quais supostos criminosos afirmariam que os valores pertenciam à facção e que Deolane e seu filho realizavam lavagem de recursos ilícitos.
Segundo a denúncia, os conteúdos de áudio "dão conta de que Deolane mantinha dinheiro do Primeiro Comando da Capital em seus imóveis e de seus filhos". Os promotores afirmam ainda que a investigação teve acesso ao material entregue pela denunciante.
Movimentação financeira e intermediários
A acusação também destaca que grande parte das transações identificadas entre a influenciadora e o suposto operador financeiro da organização teria ocorrido por intermédio de terceiros.
Segundo os promotores, "a investigação demonstrou que Deolane, por si ou por meio de suas empresas, efetuou operações com vários intermediários em comum com os denunciados Everton, Leonardo Alexsander e Paloma". Apenas em relação a Everton de Souza, foram identificados 34 intermediários compartilhados.
Os relatórios financeiros anexados ao processo apontam que, ao longo de quatro anos e sete meses, as contas pessoais de Deolane registraram movimentação superior a R$ 27 milhões entre créditos e débitos. Após a exclusão de operações consideradas automáticas, estornos, devoluções e transferências entre contas da mesma titularidade, os investigadores calcularam uma movimentação efetiva de aproximadamente R$ 7,6 milhões.
Ainda segundo a denúncia, mais de R$ 1,3 milhão dos valores recebidos teria origem em depósitos em espécie ou cheques sem identificação de procedência. No mesmo período, a influenciadora declarou à Receita Federal rendimentos tributáveis de R$ 577.945,46.
Relações pessoais também são citadas
Além das movimentações financeiras, os promotores mencionam relações de amizade entre Deolane, familiares de Marcola e pessoas apontadas como integrantes do esquema investigado.
A denúncia cita registros fotográficos da influenciadora ao lado da esposa de Alejandro Juvenal Herbas Camacho e de Alejandro Juvenal Herbas Camacho Neto, sobrinho de Marcola. O Ministério Público também afirma ter reunido elementos que demonstrariam uma relação próxima entre Deolane e Everton de Souza, apontado como operador financeiro do grupo.



