Canadá lança nova estratégia de carros elétricos e aposta em parceria com a China
Plano bilionário prevê incentivos ao consumidor, joint ventures e ampliação de importações de veículos chineses para reduzir dependência econômica dos EUA
247 - O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, anunciou nesta quinta-feira (5) uma nova estratégia nacional para veículos elétricos (EVs), com o objetivo de modernizar a indústria automotiva do país, atrair investimentos e diversificar parceiros comerciais. A iniciativa inclui um programa de incentivos de grande escala e uma parceria estratégica com a China, considerada referência global no setor, em meio ao esforço canadense de reduzir sua dependência dos Estados Unidos, informa o Global Times.
De acordo com comunicado divulgado no site oficial do gabinete do primeiro-ministro, o governo canadense lançará um programa de cinco anos no valor de 2,3 bilhões de dólares canadenses, chamado “Programa de Acessibilidade a Veículos Elétricos”, destinado a estimular a compra e o leasing de automóveis eletrificados. O pacote prevê incentivos de até 5 mil dólares canadenses para veículos totalmente elétricos a bateria e modelos movidos a célula de combustível. Já consumidores que optarem por híbridos plug-in poderão receber até 2,5 mil dólares canadenses.
Além de ampliar o acesso da população a veículos elétricos, Carney destacou que o governo canadense firmou uma nova parceria estratégica com a China, com foco em diversificar o comércio e impulsionar investimentos no setor automotivo. Segundo ele, a cooperação prevê estimular joint ventures chinesas em território canadense e autorizar um volume fixo de importações de veículos elétricos chineses para o mercado do país.
A medida foi interpretada pela imprensa internacional como parte de uma reorientação econômica do Canadá. A BBC afirmou que as iniciativas representam o esforço mais recente de Ottawa para diminuir sua dependência dos Estados Unidos, especialmente diante da pressão do governo norte-americano por maior produção doméstica de automóveis.
O New York Times também destacou que a estratégia surge após o que descreveu como ataques econômicos dos EUA e ameaças à soberania canadense, fatores que deterioraram a relação entre os dois países. Durante visita a uma fábrica de autopeças perto de Toronto, Carney afirmou que o Canadá precisa se proteger diante do cenário internacional. “Precisamos cuidar de nós mesmos”, declarou. “Não podemos controlar o que os outros fazem”, acrescentou, segundo o jornal.
Especialistas chineses ouvidos pelo Global Times interpretaram o anúncio como uma mudança significativa em relação à política do governo anterior. Bao Jianyun, diretor e professor do Departamento de Política Internacional da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Renmin da China, avaliou que a postura de Carney indica um retorno ao pragmatismo econômico.
Segundo Bao, a estratégia marca uma guinada em comparação ao governo do ex-primeiro-ministro Justin Trudeau, que teria acompanhado a política dos Estados Unidos de contenção à China. Para ele, ao priorizar uma cooperação econômica e comercial vantajosa para ambos os lados, Ottawa estaria retomando o caminho de uma relação bilateral mais equilibrada.
O movimento de aproximação entre Canadá e China já vinha sendo desenhado desde janeiro, quando o governo canadense anunciou, durante visita de Carney a Pequim, a criação de uma cota anual de 49 mil veículos elétricos chineses autorizados a entrar no mercado canadense. Conforme dados divulgados no site do governo do Canadá, os automóveis dentro desse limite terão tarifa de nação mais favorecida de 6,1% e ficarão isentos de uma sobretaxa adicional de 100%. A cota deverá aumentar progressivamente nos próximos anos, seguindo um percentual definido.
Após o anúncio, uma pesquisa realizada pela empresa de pesquisa de mercado Leger indicou que a maioria dos canadenses apoia permitir a venda de mais veículos elétricos chineses no país, segundo informou a Canadian Press.
Outro especialista ouvido pela reportagem foi Zhang Xiang, secretário-geral da Associação Internacional de Engenharia de Veículos Inteligentes. Ele afirmou que a cooperação com a China pode trazer ganhos diretos ao Canadá ao ampliar a oferta de automóveis modernos e mais acessíveis. “Fortalecer a cooperação com a China no setor de veículos elétricos não apenas trará carros mais avançados tecnologicamente e mais econômicos para os canadenses, como também criará mais empregos e arrecadação de impostos, além de fortalecer toda a cadeia industrial do Canadá ao estimular novos investimentos diretos”, disse Zhang ao Global Times.
O especialista também destacou que a China manteve em 2025, pelo 11º ano consecutivo, a liderança mundial em produção e vendas de veículos de nova energia, sustentada pela maior e mais completa cadeia industrial do planeta. Segundo ele, o chamado efeito de escala contribui para reduzir os custos de componentes em comparação com aqueles produzidos fora do país.
Bao Jianyun avaliou ainda que a política canadense pode servir como exemplo para outros países, especialmente aliados dos Estados Unidos que foram atingidos por tarifas adicionais impostas por Washington. Para ele, a tendência é que mais governos busquem ampliar relações econômicas com Pequim diante do novo cenário global. “A tendência de um comércio global livre liderado pela China está em formação”, afirmou.



