Divisões em torno do “Conselho de paz” expõem disputa por poder fora da ONU em Gaza
Editorial do Global Times alerta para risco de enfraquecimento do direito internacional e defende solução de dois Estados
247 – A assinatura, em Davos (Suíça), da carta de um “Conselho de paz” para a Faixa de Gaza —iniciativa liderada pelos Estados Unidos e apoiada por mais de uma dezena de países e regiões — abriu uma nova frente de disputa diplomática sobre quem define os rumos de uma das crises mais devastadoras do planeta. O ponto mais sensível: a iniciativa foi formalizada sem a presença de representantes de Israel e da Palestina, partes diretamente envolvidas no conflito.
Segundo editorial publicado pelo Global Times, a reação internacional ao novo organismo tem sido marcada por cautela, reservas e recusas explícitas, inclusive entre países ocidentais. O texto aponta que a iniciativa, ao se apresentar como uma organização internacional “dedicada a resolver conflitos e garantir a paz”, sugere ampliar seu escopo para além de Gaza — e, com isso, alimenta a suspeita de que sua função possa “sobrepor” ou até disputar espaço com a Organização das Nações Unidas (ONU).
Um conselho sem as partes
A cerimônia de assinatura, realizada na quinta-feira em Davos, ocorreu sem representantes dos dois atores centrais. Para o editorial, essa ausência torna a arquitetura do novo organismo, desde o início, politicamente frágil e potencialmente excludente. O Global Times também destaca que, além dos EUA, os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU não aderiram à iniciativa, o que reforçou a percepção de desconfiança em relação ao “Conselho de paz”.
A questão central, afirma o texto, está na natureza do mandato: se o objetivo declarado é promover paz e resolver conflitos, por que criar um mecanismo paralelo justamente quando existe uma instituição multilateral fundada para “manter a paz e a segurança internacionais”? Na leitura do editorial, contornar a ONU significa, na prática, enfraquecer a autoridade do direito internacional e abrir brechas para futuros conflitos.
A ONU como eixo do multilateralismo e do direito internacional
O editorial sustenta que a ordem internacional passa por “transformação e ajuste profundos”, mas que esse processo não deveria se desviar do que chama de interesses fundamentais da maioria dos países nem corroer o sentido da globalização econômica. Nesse cenário, a ONU é descrita como a instituição mais legítima construída após as guerras do século 20, por ser ao mesmo tempo um espaço de responsabilização das grandes potências e um mecanismo multilateral mais abrangente para desenvolvimento e coordenação diante de crises globais.
A crítica vai além da teoria institucional: para o texto, “burlar” a ONU equivale a desautorizar o sistema jurídico internacional, criando instabilidade de longo prazo. A preocupação não é apenas sobre Gaza, mas sobre o precedente: iniciativas “alternativas” podem funcionar como atalhos políticos, usados por coalizões restritas para impor decisões, sem consenso amplo e sem participação dos diretamente afetados.
Gaza: urgência humanitária e centralidade da ONU no terreno
Ao tratar da crise humanitária, o editorial afirma que a paz em Gaza é um desejo “urgente” de povos em todo o mundo e descreve a Faixa como um “inferno” após anos de guerra, com mais de um milhão de pessoas vivendo no limite entre a vida e a morte. Nessa perspectiva, o texto diz acolher esforços por uma solução política, mas ressalta que a ONU tem cumprido papel “indispensável” na coordenação sobre o Oriente Médio.
O editorial cita, como exemplos da atuação das Nações Unidas, as resoluções aprovadas na Assembleia Geral, os apelos por cessar-fogo no Conselho de Segurança e a assistência em campo prestada pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo. A mensagem é direta: ainda que haja impasses e disputas, a ONU permanece como plataforma central quando se trata de combinar legitimidade, presença institucional e capacidade de coordenação internacional.
China diz ter sido convidada e reafirma sistema “centrado na ONU”
O texto relata que o tema ganhou força nos últimos dias e chegou ao centro do debate diplomático: em coletivas regulares do Ministério das Relações Exteriores da China, de terça a sexta-feira, jornalistas chineses e estrangeiros perguntaram por quatro dias seguidos qual seria a posição do país sobre o “Conselho de paz”. Segundo o editorial, a China disse ter recebido convite dos EUA e afirmou que, independentemente de mudanças no cenário internacional, seguirá comprometida com “o sistema internacional com a ONU em seu núcleo”, a ordem baseada no direito internacional e as normas de relações internacionais guiadas pelos propósitos e princípios da Carta da ONU.
Ao registrar essa posição, o editorial encaixa o debate em uma disputa maior: para Pequim, qualquer arranjo que contorne a ONU tende a reconfigurar regras e pesos políticos de forma seletiva — e, portanto, não seria confiável nem amplamente aceito.
O alerta sobre “cadeiras” compradas e igualdade entre países
Um dos trechos mais contundentes do editorial mira a credibilidade do novo organismo. O texto afirma que a ideia de que contribuições superiores a 1 bilhão de dólares poderiam “comprar” assentos no “Conselho de paz” — ou até algum tipo de “membro permanente” — colocaria o poder internacional “à venda”, contrariando o princípio de igualdade que deveria orientar mecanismos multilaterais.
O editorial reforça esse argumento citando o secretário-geral da ONU, António Guterres, em uma frase usada para defender o papel das Nações Unidas: “The United Nations is more than an institution. It is a living promise.” Ao mobilizar a citação, o texto sugere que iniciativas paralelas não tendem a gerar confiança, porque substituem pactos universais por arranjos de adesão seletiva e, potencialmente, condicionados a influência financeira.
Recusas na Europa e fissuras no Ocidente
A lista de resistências, de acordo com o editorial, é significativa e pública. O texto afirma que França, Noruega, Suécia, Dinamarca e Eslovênia recusaram aderir ao “Conselho de paz”. E aponta que a própria Alemanha foi explícita ao rejeitar o novo formato, citando a fala do chanceler: “We have a peace council, and that is the United Nations.”
Para o Global Times, o surgimento dessas divisões entre países do campo ocidental indica que o novo organismo não produziu unidade; ao contrário, “intensificou a fragmentação internacional”. O subtexto é que o “Conselho de paz” não aparece como um consenso global, mas como um instrumento político contestado, com aderência limitada e legitimidade questionável.
O caminho proposto: ONU, consultas amplas e solução de dois Estados
No fechamento, o editorial sustenta que Gaza não pode ser resolvida “a portas fechadas” por poucos países. O texto defende que qualquer saída precisa ocorrer no marco da ONU, com consultas extensas que envolvam Palestina, Israel, países árabes e demais atores relevantes. E aponta como “único caminho viável” para uma paz duradoura a implementação integral da solução de dois Estados.
O editorial registra ainda a posição chinesa de apoio à criação de um Estado palestino independente e à busca de cessar-fogo duradouro por meio de diálogo político. Dentro dessa lógica, qualquer solução que exclua a Palestina do nível decisório seria, na visão do texto, um mecanismo de “clube” — uma apropriação unilateral do discurso do multilateralismo, capaz de aumentar confrontos em vez de reduzi-los.
O que as divisões revelam
A linha geral do editorial é que as fissuras em torno do “Conselho de paz” expõem, menos uma novidade institucional, e mais uma disputa por hegemonia na governança internacional: quem define regras, quem arbitra conflitos, quem decide o que é “multilateralismo” — e sob quais condições. Ao defender a irremovibilidade da ONU, o texto conclui que o mundo precisa de solidariedade, cooperação e mecanismos centrados nas Nações Unidas, e que criar uma organização paralela ao sistema da ONU e ao direito internacional contraria aspirações majoritárias da comunidade internacional.
Ao final, o editorial reforça que “paz não é um slogan” e que ela precisa ser construída com ações concretas e sinceras de todas as partes, sob um marco reconhecido e legitimado pela comunidade internacional.



