Estrutura dos “quatro parceiros” abre nova fase nas relações China-Canadá
Encontro entre Xi Jinping e Mark Carney retoma agenda de comércio, investimentos, cultura e multilateralismo
247 – A relação entre China e Canadá entrou, segundo Pequim, em um novo ciclo de reaproximação política e cooperação econômica após anos de turbulência diplomática. O movimento ganhou forma nesta sexta-feira, em Pequim, quando o presidente Xi Jinping recebeu o primeiro-ministro canadense Mark Carney no Grande Palácio do Povo, em uma visita oficial descrita como a primeira de um premiê do Canadá à China em mais de oito anos.
A avaliação foi apresentada em editorial do Global Times, que apontou o encontro como um marco de “virada” na relação bilateral e destacou a proposta de Xi de um novo eixo de entendimento, batizado de estrutura dos “quatro parceiros”.
O que são os “quatro parceiros”
De acordo com o editorial, Xi apresentou quatro pontos para sustentar um desenvolvimento “saudável, estável e sustentável” dos laços bilaterais. Em tradução literal, a China defende que os dois países sejam: “parceiros que se respeitam”, “parceiros que buscam desenvolvimento compartilhado”, “parceiros que confiam um no outro” e “parceiros que colaboram entre si”.
O texto argumenta que a fórmula combina lições históricas com uma orientação para o futuro e cria um “caminho claro” para o avanço de longo prazo das relações entre Pequim e Ottawa.
Respeito mútuo e a política de “uma só China”
O Global Times sustenta que o pilar político da relação China-Canadá é o princípio do respeito mútuo, mesmo diante de diferenças em “condições nacionais”, sistemas políticos e caminhos de desenvolvimento.
No encontro, segundo o editorial, Carney reafirmou a política canadense de “uma só China” — ponto tratado como central por Pequim e visto como condição para reconstruir confiança política e remover um obstáculo-chave ao restabelecimento de laços mais estáveis.
Comércio, investimentos e retomada de diálogo econômico
No campo econômico, o editorial afirma que a noção de “parceiros em desenvolvimento compartilhado” aponta para a cooperação pragmática. O texto cita que, nos primeiros 11 meses de 2025, o comércio bilateral de bens chegou a US$ 82,15 bilhões, e que um recorde de 125 empresas canadenses participou da 8ª Exposição Internacional de Importações da China.
O editorial também afirma que, conforme a Declaração Conjunta do encontro de líderes, os dois países vão revigorar o diálogo estratégico econômico-financeiro de alto nível, ampliar comércio bilateral, fortalecer investimento em mão dupla e aprofundar cooperação em agricultura, energia e finanças. O texto descreve a orientação como um esforço para “aumentar” a cooperação e “reduzir” a “lista negativa”.
Diplomacia pública e reaproximação entre sociedades
A dimensão social aparece como um componente decisivo da estratégia. Em tradução literal, o editorial diz que “uma onda quente de opinião pública está silenciosamente tomando forma entre China e Canadá” e associa esse ambiente ao chamado para “ser parceiros que confiam um no outro”.
Entre os resultados mencionados, o texto aponta a decisão de reiniciar o Comitê Conjunto China-Canadá sobre Cultura e ampliar intercâmbios em cultura, educação, artes, patrimônio e indústrias criativas.
O editorial também cita documentos de cooperação em áreas ligadas ao cotidiano, como segurança alimentar, quarentena para exportações de ração pet ao mercado chinês, construção moderna em madeira e promoção de turismo cultural. Segundo o texto, essas medidas teriam efeito direto sobre a população e ajudariam a reparar vínculos sociais afetados por turbulências políticas e por restrições da pandemia.
Multilateralismo e cooperação global
O quarto eixo — “parceiros que colaboram entre si” — é apresentado como a ponte para uma atuação conjunta no plano internacional. O editorial afirma que China e Canadá reafirmaram apoio ao multilateralismo, ao papel central da ONU e ao sistema de comércio multilateral sustentado pela OMC.
O texto acrescenta que os dois lados concordaram em aprofundar cooperação em fóruns como G20 e APEC e no Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, defendendo que, diante de desafios como mudança climática, instabilidade em cadeias de suprimento e recuos do multilateralismo, um mundo dividido não oferece soluções eficazes.
“Histórica”, “reiniciar” e “fortalecer”: os sinais políticos do recomeço
O editorial observa que, nos comunicados oficiais, a expressão “desenvolvimento positivo” aparece com frequência na versão chinesa, enquanto o lado canadense teria descrito a viagem sobretudo como “histórica”. O texto também afirma que os documentos repetiram termos como “reiniciar” e “fortalecer”.
Segundo o Global Times, foram assinados oito documentos específicos de cooperação em áreas como segurança pública, energia, cultura, alfândega e construção, o que demonstraria amplitude e profundidade do pacote anunciado.
Ao mesmo tempo, o editorial admite que haverá desafios e defende “sabedoria e paciência” para consolidar a reaproximação. Em tom de apelo, conclui que o Canadá deve preservar o “desenvolvimento positivo”, manter interferências externas sob controle, aprofundar a cooperação prática e avançar para a construção de uma nova Parceria Estratégica “forte e duradoura” com a China.



