Global Times: "Comunidade internacional deve reagir à lei da selva"
Editorial aponta risco de escalada global após ataques de EUA e Israel ao Irã e cobra defesa firme do multilateralismo
247 - Ataques surpresa realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã no último fim de semana provocaram forte reação internacional e ampliaram o temor de uma escalada no Oriente Médio.
As ações militares resultaram na morte do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, e de outros altos funcionários do país, em meio a negociações diplomáticas em curso entre Washington e Teerã.
Em editorial publicado nesta segunda-feira (2), o Global Times classifica o episódio como um marco perigoso nas relações internacionais, com críticas diretas à violação das normas fundamentais do sistema internacional. Segundo o texto, os ataques foram realizados enquanto havia diálogo aberto entre as partes, o que gera desconfiança e perplexidade na comunidade internacional.
O editorial sustenta que a morte do líder de um Estado soberano e a defesa pública de uma mudança de regime configuram desprezo pelas regras básicas que regem as relações entre países. Para o jornal, ainda que as ações tenham sido planejadas de forma estratégica, conflitos armados fogem ao controle humano e tendem a produzir consequências imprevisíveis. O Oriente Médio, afirma o texto, já demonstrou repetidamente como guerras podem desencadear ciclos prolongados de instabilidade.
O Global Times destaca que as operações militares deixaram civis iranianos mortos e feridos e provocaram uma reação em cadeia na região. O conflito atingiu países vizinhos como Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Catar. O Aeroporto Internacional de Dubai suspendeu operações, enquanto fumaça densa foi registrada nas proximidades do hotel Burj Al Arab. O fechamento do Estreito de Ormuz também aumentou a incerteza sobre o fornecimento global de energia e as cadeias de transporte marítimo.
O jornal cita ainda a avaliação de um pesquisador de um think tank britânico, que alertou para o risco de “instabilidade, migração, radicalismo, proliferação de grupos armados ou transbordamento regional”, com a possibilidade de inaugurar “outro ciclo catastrófico de conflito”.
Diante do cenário, o editorial afirma que a prioridade imediata, compartilhada por grande parte da comunidade internacional, deve ser a interrupção das operações militares e a contenção do conflito para evitar uma deterioração fora de controle. O texto destaca que muitos países defendem a retomada de canais políticos e diplomáticos, com o objetivo de criar condições para a desescalada e impedir que a crise geopolítica se transforme em uma crise econômica e de segurança de alcance global.
O Global Times argumenta que o ataque ao Irã não representa um episódio isolado, mas sim parte de um padrão mais amplo de ações unilaterais. O editorial relembra intervenções anteriores conduzidas pelos Estados Unidos sem aval da Organização das Nações Unidas (ONU), como as guerras no Afeganistão e no Iraque, além da imposição de sanções unilaterais e da aplicação de jurisdição extraterritorial. Para o jornal, tais medidas enfraquecem o sistema internacional centrado na ONU e têm contribuído para crises humanitárias prolongadas.
O texto adverte que, se “ataques preventivos” forem utilizados como justificativa para contornar a ONU e ignorar processos diplomáticos, o arcabouço internacional estabelecido após a Segunda Guerra Mundial perderá sua razão de ser. O editorial alerta para o risco de um cenário em que sanções e ações militares se sobreponham à Carta das Nações Unidas, permitindo que grandes potências atuem sem restrições efetivas.
Na avaliação do jornal, a comunidade internacional precisa assumir uma posição “mais clara e firme” contra o que chama de “lei da selva” nas relações globais. O editorial defende a soberania como base da paz mundial e sustenta que práticas de intimidação e jogos de poder representam fator de desestabilização da ordem internacional.
O texto conclui que a multipolaridade e a democratização das relações internacionais são tendências irreversíveis, reforçadas pela ascensão dos países do Sul Global. Para o Global Times, o hegemonismo é cada vez mais rejeitado e somente o fortalecimento do multilateralismo poderá afastar o risco de novos conflitos e atender ao anseio do Oriente Médio por estabilidade e paz duradoura.



