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Secretário do Tesouro dos EUA volta a ameaçar Canadá com tarifa de 100%

Washington pressiona Ottawa por laços com a China, e especialista chinês classifica a estratégia como coercitiva e insustentável

Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent no Fórum Econômico Mundial em Davos 20/01/2026. REUTERS/Denis Balibouse (Foto: Denis Balibouse)

247 - O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, voltou a elevar o tom contra o Canadá ao reiterar a ameaça de impor tarifas de 100% sobre produtos canadenses, caso o país aprofunde sua cooperação comercial com a China. As declarações reforçam a linha dura adotada por Washington, que acusa Ottawa de colocar em risco a cadeia produtiva norte-americana ao reduzir barreiras comerciais com Pequim.

A informação foi divulgada originalmente pelo Global Times, que acompanha a reação de autoridades e analistas chineses às ameaças feitas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo a publicação, Bessent criticou duramente o engajamento comercial do Canadá com a China e indicou que Pequim também poderia ser alvo de novas sanções.

De acordo com o secretário do Tesouro, Ottawa estaria promovendo uma mudança radical de orientação ao negociar com a China. Em entrevista à rede ABC, no domingo (25), Bessent acusou o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, de dar uma “guinada de 180 graus” ao fechar um acordo para reduzir barreiras comerciais com os chineses. A fala ecoou ameaças recentes feitas por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, contra o Canadá, conforme noticiado pela Bloomberg.

Bessent afirmou que o Canadá poderia enfrentar tarifas de 100% caso firmasse um acordo de livre comércio com a China e passasse a funcionar como um canal para a entrada de produtos “artificialmente baratos” no mercado norte-americano, especialmente no setor automotivo. “Temos um mercado altamente integrado com o Canadá”, disse o secretário, acrescentando que mercadorias cruzam a fronteira diversas vezes durante o processo produtivo e que Washington não permitiria que o país vizinho servisse de rota para produtos chineses nos Estados Unidos.

Do lado canadense, Mark Carney rejeitou a interpretação americana. Segundo o jornal britânico The Guardian, o primeiro-ministro afirmou que o recente entendimento com a China apenas corrigiu distorções criadas nos últimos dois anos. “O que fizemos com a China foi retificar alguns problemas que surgiram nos últimos dois anos”, declarou, enfatizando que o Canadá não pretende negociar um acordo de livre comércio com Pequim.A reação chinesa às ameaças americanas foi dura. Zhou Mi, pesquisador sênior da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, afirmou ao Global Times que a decisão de iniciar negociações ou assinar acordos comerciais é um direito soberano dos países. Para ele, a postura dos Estados Unidos evidencia a politização do comércio e o uso de tarifas como instrumento de pressão. “As acusações ansiosas de Washington são fundamentalmente insustentáveis”, disse Zhou, ao destacar que acordos de livre comércio exigem longos preparativos, negociações complexas e estrita observância das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O especialista também alertou que tarifas unilaterais e táticas coercitivas minam o sistema multilateral e a ordem econômica internacional. Segundo ele, quando os Estados Unidos não conseguem oferecer produtos competitivos ou acesso suficiente ao mercado, recorrem a tarifas como ferramenta de interferência nas relações econômicas de terceiros países, uma estratégia que, em sua avaliação, apenas intensifica o confronto.

As tensões ocorrem após a visita de Estado de Mark Carney à China, entre 14 e 17 de janeiro, quando os dois países firmaram acordos para tratar de questões comerciais e assinaram um roteiro de cooperação econômica e comercial. O Ministério do Comércio da China informou que o Canadá concordou em permitir a entrada anual de até 49 mil veículos elétricos chineses, com tarifa de nação mais favorecida de 6,1%, isentando-os da sobretaxa de 100% aplicada em 2024.

Em meio ao impasse, Carney afirmou, em publicação na rede X citada pela CBC News, que o Canadá pretende priorizar “comprar produtos canadenses” e “construir o Canadá”, após as novas ameaças tarifárias feitas por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Já Zhou Mi advertiu que a China não aceitará intimidações abertas e que eventuais sanções adicionais acabariam por prejudicar a própria economia americana.

Para o pesquisador, o engajamento do Canadá com a China reflete uma escolha pragmática diante de um cenário internacional marcado por tensões e mentalidades herdadas da Guerra Fria. Ao diversificar parcerias e reduzir a dependência de um único país, argumenta Zhou, Ottawa busca proteger seu desenvolvimento econômico e sua segurança nacional, ao mesmo tempo em que contribui para uma ordem internacional mais multipolar.

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