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Segundo gabinete de governo da primeira-ministra japonesa enfrenta três grandes desafios, relata Global Times

Especialistas avaliam que premiê Sanae Takaichi terá limites para governar diante de pressões fiscais, agenda militar e tensões regionais

Primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, em Tóquio 26/01/2026 David Mareuil/Pool via REUTERS (Foto: David Mareuil/Pool via REUTERS)

247 - Sanae Takaichi foi confirmada como primeira-ministra do Japão pela Câmara Baixa do Parlamento nesta quarta-feira (18), consolidando seu segundo gabinete à frente do governo japonês. A líder do Partido Liberal Democrático (PLD) garantiu a nomeação sem necessidade de segundo turno, em meio a aplausos de parlamentares durante sessão especial em Tóquio.

As informações foram divulgadas pela agência pelo jornal Global Times, que ouviu especialistas chineses e japoneses sobre os rumos da nova gestão. Após a cerimônia de posse no Palácio Imperial e a certificação dos ministros, o novo gabinete, formado em coalizão com o Partido da Inovação do Japão (PIJ), deverá ser oficialmente estruturado ainda nesta quarta-feira, segundo a imprensa local.

De acordo com as análises publicadas, o segundo gabinete de Takaichi tende a priorizar três eixos centrais: economia e política fiscal, segurança e defesa, além da integração política interna. Apesar do fortalecimento político após a vitória eleitoral, estudiosos alertam que a chefe de governo não terá liberdade irrestrita para implementar sua agenda.

O primeiro gabinete apresentou renúncia coletiva na manhã desta quarta-feira, conforme informou a agência Kyodo. Takaichi deve detalhar, em coletiva de imprensa, propostas defendidas durante a campanha para a Câmara Baixa, incluindo uma “política fiscal proativa e responsável”, a possibilidade de suspender por dois anos o imposto sobre consumo de alimentos e bebidas e a criação de um “conselho nacional de inteligência” para reforçar as atividades de inteligência do país.

A sessão extraordinária da Dieta terá duração de 150 dias, até 17 de julho. Em 20 de fevereiro, a premiê fará discursos sobre políticas públicas, dando início aos debates formais entre governo e oposição.

Estratégia política e composição do gabinete

Segundo o jornal Mainichi Shimbun, a manutenção inicial dos ministros do primeiro gabinete se explica tanto pelo curto intervalo, de cerca de quatro meses desde a formação da equipe anterior, em outubro, quanto pela necessidade de acelerar a tramitação do orçamento do próximo ano fiscal. A expectativa é que integrantes do PIJ possam ser incorporados em eventual reforma ministerial prevista para o outono.Masanari Koike, pesquisador da Faculdade de Economia da Universidade Keio e ex-membro da Câmara dos Representantes, avaliou ao Global Times que a entrada imediata do PIJ no gabinete implicaria compartilhar responsabilidades diretas pela governabilidade. Segundo ele, se surgirem problemas econômicos, fiscais ou administrativos, o partido dividiria os custos políticos com o PLD.

Koike observou que, caso a promessa de cargos se concretize em uma futura reforma ministerial, o PIJ poderá migrar da “cooperação externa” para a “participação interna”, consolidando seu capital político de maneira mais gradual.

Pressões fiscais e dilemas econômicos

No campo econômico, o Japão continua enfrentando crescimento lento e forte pressão do déficit fiscal. Para Koike, o governo deverá buscar estímulo ao investimento por meio de políticas industriais e de defesa, mas a tensão entre disciplina fiscal e expansão econômica será permanente.

Xiang Haoyu, pesquisador do Instituto Chinês de Estudos Internacionais, afirmou ao Global Times que, apesar da vitória eleitoral fortalecer a posição de Takaichi, ela não pode simplesmente “fazer o que bem entender”.

“Primeiro, ela conseguirá conter a alta dos preços e estimular a recuperação e o crescimento econômico? Esta é a questão de maior preocupação para o público japonês. Ela precisa apresentar resultados tangíveis rapidamente, ao mesmo tempo que equilibra eficazmente a contradição entre a política fiscal expansionista e a sustentabilidade da dívida”, declarou Xiang.

Agenda de segurança e revisão constitucional

Na área de segurança, Takaichi tem defendido o aumento do orçamento de defesa e a revisão da Constituição pacifista do pós-guerra. Koike aponta que esse será um dos núcleos centrais da nova gestão.

Xiang alertou para as resistências internas e externas a essa agenda. “Em segundo lugar, será que ela conseguirá superar a resistência interna e externa à sua agenda política radical? A aceleração de sua pressão por uma revisão constitucional radical e pelo fortalecimento das forças armadas — incluindo a criação de uma agência nacional de inteligência, a promulgação de uma lei antiespionagem e até mesmo a tentativa de iniciar substancialmente o processo de emenda constitucional — ainda enfrentará forte reação pública. Seus planos de expandir os gastos militares e reforçar o armamento também encontrarão restrições fiscais internas e contramedidas externas”, afirmou.

O debate sobre a chamada “remilitarização” do Japão tem provocado apreensão regional. O Fórum da Ásia Oriental destacou que uma postura excessivamente cautelosa poderia desagradar a base nacionalista de Takaichi, enquanto uma ampliação militar mais assertiva tende a gerar preocupação entre países vizinhos.

Relações com China e Estados Unidos

No plano diplomático, a reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), marcada para novembro na China, é vista como possível oportunidade de reaproximação bilateral. Ainda assim, Koike ponderou que, no atual cenário político japonês, a melhora nas relações com Pequim não figura como prioridade imediata.

Ele ressaltou que o governo busca alternativas para reduzir a dependência de insumos estratégicos chineses, como terras raras, incentivando a cooperação com os Estados Unidos.

Para Xiang, Takaichi não poderá adotar uma postura exclusivamente confrontacional em relação à China. “Em terceiro lugar, será que ela conseguirá romper o impasse diplomático com os países vizinhos? Seguir uma política externa de ‘fazer amigos distantes enquanto ataca vizinhos próximos’ acarreta riscos significativos. Manter a aliança Japão-EUA e mitigar a pressão econômica americana também não será nada fácil”, declarou.

O pesquisador acrescentou que, diante do peso econômico e político da China, o Japão poderá ser pressionado a retomar canais de diálogo, mas dificilmente abandonará políticas de contenção.

Repercussão regional

As discussões sobre segurança também repercutem no Sudeste Asiático. O primeiro-ministro de Singapura, Lawrence Wong, lembrou nas redes sociais o Dia da Defesa Total do país, que marca a queda de Singapura para forças japonesas em 1942. “O sofrimento daqueles anos nos deixou uma lição dura, mas duradoura”, escreveu.

Para Xiang, manifestações como essa indicam que a comunidade internacional acompanha com atenção os movimentos do governo japonês. Ele argumenta que iniciativas de revisão constitucional e fortalecimento militar não podem ser vistas apenas como questões domésticas, pois impactam diretamente a estabilidade do Leste Asiático e a ordem internacional estabelecida no pós-guerra.

Nesse contexto, o segundo gabinete de Sanae Takaichi inicia seu mandato diante de desafios econômicos estruturais, disputas políticas internas e um ambiente geopolítico sensível, fatores que, segundo analistas, limitarão sua margem de ação nos próximos meses.

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