Saddam Hussein: amigo do Brasil e ex-aliado estratégico que foi morto pelos Estados Unidos
Nascido em 28 de abril de 1937, líder iraquiano atravessou conflitos globais, construiu laços com o Brasil e deixou um legado que ainda divide opiniões
247 – Saddam Hussein, nascido em 28 de abril de 1937, na vila de Al-Awja, próximo a Tikrit, no Iraque, foi uma das figuras mais marcantes e controversas da geopolítica mundial no século XX. Presidente do Iraque entre 1979 e 2003, ele protagonizou uma trajetória que ilustra as contradições das relações internacionais: de aliado estratégico dos Estados Unidos durante a Guerra Fria a inimigo declarado de Washington, sendo capturado após a invasão de seu país e executado em 2006.
Sua história combina modernização econômica, autoritarismo político, guerras regionais e alianças internacionais que mudaram conforme os interesses das grandes potências.
Ascensão ao poder e construção do Iraque moderno
Saddam Hussein emergiu politicamente dentro do Partido Baath, de orientação nacionalista árabe e socialista. Após participar do golpe que levou o partido ao poder em 1968, consolidou sua influência ao longo da década seguinte até assumir formalmente a presidência em 1979.
Durante seu governo, o Iraque passou por um período de forte expansão econômica, impulsionado pela nacionalização do petróleo. O país investiu pesadamente em infraestrutura, saúde e educação, alcançando indicadores sociais relevantes para a região. Bagdá chegou a ser vista como um centro de desenvolvimento no Oriente Médio.
Ao mesmo tempo, o regime era marcado por forte centralização de poder e repressão a opositores, característica que alimentaria críticas internacionais e consolidaria sua imagem autoritária.
O aliado estratégico dos Estados Unidos
Nos anos 1980, em meio à Guerra Fria, Saddam Hussein foi considerado um aliado estratégico dos Estados Unidos. O contexto era a Revolução Islâmica no Irã, que alterou o equilíbrio regional e preocupava Washington.
Durante a Guerra Irã-Iraque (1980–1988), o governo iraquiano recebeu apoio indireto dos EUA e de países ocidentais, interessados em conter a influência iraniana. Essa relação evidencia o caráter pragmático da política externa norte-americana, baseada em interesses geopolíticos mais do que em alinhamentos ideológicos permanentes.
Nesse período, Saddam era tratado como um parceiro relevante no Oriente Médio, ainda que seu regime já fosse conhecido por práticas autoritárias.

A ruptura e a transformação em inimigo
A relação com os Estados Unidos começou a se deteriorar após o fim da guerra com o Irã. Enfrentando dificuldades econômicas, Saddam decidiu invadir o Kuwait em 1990, movimento que desencadeou a Guerra do Golfo.
A resposta veio por meio de uma coalizão internacional liderada pelos EUA, que derrotou o Iraque em 1991 e impôs duras sanções ao país. A partir daí, Saddam passou a ser retratado como um dos principais inimigos do Ocidente.
O ponto de ruptura definitivo ocorreu em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque sob a justificativa de que o país possuía armas de destruição em massa — alegação que nunca foi comprovada. Saddam foi capturado no mesmo ano e executado em 30 de dezembro de 2006, em um processo que também foi alvo de críticas internacionais.
Saddam e o Brasil: uma relação estratégica
Um capítulo pouco explorado da trajetória de Saddam Hussein é sua relação com o Brasil, especialmente durante as décadas de 1970 e 1980.
O livro “Saddam, o amigo do Brasil”, do jornalista Leonardo Attuch, resgata esse período e destaca como o Iraque manteve uma parceria estratégica com o país. Durante seu governo, Saddam buscou estreitar relações com nações em desenvolvimento, incluindo o Brasil, com foco em cooperação econômica e tecnológica.
O Iraque foi um importante parceiro comercial brasileiro, especialmente no fornecimento de petróleo em condições favoráveis e na contratação de empresas brasileiras para grandes projetos de engenharia. Essa relação se inseria em uma lógica de cooperação Sul-Sul, que buscava maior autonomia em relação às potências tradicionais.
O Iraque após Saddam
Desde a invasão de 2003 e a queda de Saddam Hussein, o Iraque enfrentou um longo período de instabilidade política, conflitos internos e fragmentação institucional.
A dissolução das estruturas do Estado iraquiano e o vácuo de poder abriram espaço para guerras sectárias, o surgimento de grupos extremistas — como o Estado Islâmico — e uma prolongada crise de governabilidade. Embora o país tenha avançado em alguns aspectos institucionais nos últimos anos, ainda enfrenta desafios significativos em termos de segurança, economia e soberania.
A presença estrangeira e as disputas regionais continuam a influenciar a dinâmica interna do Iraque, refletindo os efeitos duradouros da intervenção de 2003.
A imagem de Saddam Hussein hoje
A figura de Saddam Hussein permanece profundamente divisiva. Para muitos no Ocidente, ele é lembrado como um ditador responsável por repressão e violações de direitos humanos. Já em partes do mundo árabe e entre setores críticos à política externa dos Estados Unidos, sua imagem é por vezes associada à resistência ao imperialismo e à defesa da soberania nacional.
Essa dualidade reflete não apenas sua trajetória pessoal, mas também as disputas narrativas sobre o Oriente Médio e o papel das grandes potências na região.
Décadas após sua queda, Saddam Hussein continua sendo um símbolo de uma era marcada por conflitos, alianças voláteis e profundas transformações geopolíticas — cujos efeitos ainda são sentidos no cenário internacional contemporâneo.



