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Jeffrey Sachs alerta que guerra contra o Irã pode devastar a economia mundial

Economista afirma que Trump e Netanyahu precisam escolher uma saída para evitar a guerra regional, uma crise energética global e risco de conflito mundial

Jeffrey Sachs (Foto: Reprodução Youtube)

247 – O economista Jeffrey Sachs afirmou que a guerra contra o Irã chegou a um “momento decisivo” e alertou que uma nova rodada de bombardeios pode provocar uma escalada fora de controle, com consequências devastadoras para a economia mundial e para a estabilidade internacional.

Em entrevista ao jornalista Tucker Carlson, no YouTube, Sachs disse que os Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump, e Israel, liderado por Benjamin Netanyahu, precisam aceitar uma “rampa de saída” para evitar uma guerra regional que, em sua avaliação, poderia se transformar em um conflito mundial.

"Estamos realmente diante de uma bifurcação no caminho. Há uma rampa de saída. Definitivamente, definitivamente, definitivamente é essa que deveríamos tomar", afirmou Sachs.

Segundo ele, a situação é especialmente grave porque o Estreito de Hormuz permanece fechado, o que ameaça fluxos estratégicos de petróleo, gás, fertilizantes, petroquímicos, alumínio e outras commodities essenciais.

"Enquanto estiver fechado, isso significa que uma crise econômica mundial está se formando", disse.

Sachs avaliou que não há tempo para esperar semanas ou meses por uma solução, pois a crise já estaria em curso. Para ele, insistir em novas ações militares levaria inevitavelmente a uma resposta iraniana dura e rápida, com ataques contra instalações vulneráveis em toda a região do Golfo.

"Se não tomarmos a rampa de saída, eu pessoalmente não vejo nada realista que não seja uma guerra total", afirmou.

O economista advertiu que usinas de dessalinização, campos de petróleo e gás, portos e outras infraestruturas críticas no Golfo não estão suficientemente protegidos contra mísseis iranianos. Ele também disse que os sistemas antimísseis da região são limitados, permeáveis e, em muitos casos, já estão desgastados.

Para Sachs, uma escalada militar poderia destruir, em poucas semanas, parte significativa da infraestrutura regional.

"O resultado disso não seria paz seguida de uma recuperação fácil. Seria uma calamidade global provocada em poucas semanas", declarou.

Sachs também criticou duramente as motivações de Trump e Netanyahu. Segundo ele, os objetivos que levaram à guerra não eram legítimos nem alcançáveis.

"Não acho que os destinos individuais de dois políticos devam determinar o destino do mundo", afirmou.

O economista sustentou que a hostilidade dos Estados Unidos contra o Irã não começou com o atual conflito, mas remonta a 1953, quando Washington e Londres participaram da derrubada do primeiro-ministro iraniano Mohammad Mossadegh, após sua tentativa de nacionalizar o petróleo do país.

Segundo Sachs, desde a Revolução Islâmica de 1979, quando o Irã deixou de estar sob influência direta dos EUA, Washington passou a conduzir uma guerra permanente contra Teerã por meios militares, econômicos, financeiros e clandestinos.

"Desde 1980, os Estados Unidos estão em guerra com o Irã de várias maneiras", disse.

Ele também afirmou que a justificativa nuclear usada por Trump é uma “propaganda orwelliana”, pois, segundo ele, o Irã buscava um acordo sob supervisão internacional, e não uma arma nuclear.

"O que o Irã quis por 15 anos foi: vocês nos supervisionam, vocês nos controlam. Tudo bem, mas levantem suas sanções. Deixem-nos respirar", afirmou.

Sachs lembrou que o acordo nuclear de 2015, o JCPOA, foi firmado com Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha, além de ter sido aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU. O acordo, porém, foi abandonado por Trump em seu primeiro mandato.

Na avaliação de Sachs, Israel também tem uma agenda própria: alcançar domínio militar sobre o Oriente Médio e a Ásia Ocidental. Ele associou essa estratégia ao documento conhecido como “Clean Break”, de 1996, que teria influenciado a política de Netanyahu.

"Israel quer domínio militar. A ideia do Clean Break era: quando buscarmos isso, encontraremos resistência", afirmou.

Sachs disse ainda que as guerras no Iraque, Síria, Líbia, Sudão, Somália, Líbano e agora Irã fazem parte de uma mesma lógica de desestabilização regional.

"Seis desses lugares estão em caos. E, do ponto de vista de Israel, ótimo. Nós gostamos do caos. Isso significa que somos a hegemonia militar de toda aquela região", disse.

O economista alertou que a guerra contra o Irã pode provocar um choque econômico superior aos choques do petróleo dos anos 1970, pois agora não se trataria apenas de interrupção temporária de fornecimento, mas de destruição física de infraestruturas energéticas e industriais.

"O que acontecerá nas próximas semanas, se não escolhermos a rampa de saída, é a destruição física de grande parte da região do Golfo e do Oriente Médio de forma mais ampla", afirmou.

Segundo Sachs, os impactos seriam sentidos no preço da gasolina, da eletricidade, dos alimentos e dos fertilizantes, provocando inflação, desemprego e queda da renda em escala global.

"As pessoas terão menos dinheiro entrando e tudo custará mais para comprar", explicou.

Ele comparou o cenário à estagflação dos anos 1970, mas disse que a situação atual pode ser ainda mais grave se coincidir com eventos climáticos extremos, como um possível super El Niño.

Sachs também criticou a falta de processo decisório organizado no governo dos Estados Unidos. Ele comparou o momento atual à crise dos mísseis de Cuba, em 1962, quando John Kennedy criou um comitê executivo, ouviu especialistas, debateu alternativas e abriu canais diplomáticos.

Hoje, segundo ele, decisões de enorme consequência parecem concentradas na vontade de Trump e na influência de Netanyahu.

"Não vejo nenhum processo de decisão desse tipo ocorrendo agora, e isso é absolutamente perigoso", afirmou.

Sachs cobrou ainda que o Congresso dos Estados Unidos cumpra seu papel constitucional sobre decisões de guerra.

"Eles são um ramo coigual do governo. O artigo um da Constituição lhes atribui a responsabilidade pela guerra, pela declaração de guerra", disse.

Na conclusão da entrevista, Sachs defendeu que Trump imponha limites a Netanyahu e encerre a aventura militar.

"Agora vamos tentar a paz. É isso que ele precisa dizer", afirmou.

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