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Entenda o que diz a 25ª Emenda da Constituição dos EUA e como ela pode ser usada para afastar Trump, o “rei louco”

Dispositivo prevê a remoção de um presidente incapaz de governar, mas depende de decisão do vice e do gabinete, além de eventual aval do Congresso

Protestos contra Trump levaram milhões às ruas (Foto: Reuters)

247 – A 25ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos voltou ao centro do debate político em meio a críticas ao comportamento do presidente Donald Trump, frequentemente descrito por analistas e opositores como errático e perigoso. O mecanismo constitucional, adotado em 1967, estabelece regras para substituição do presidente em casos de incapacidade, incluindo a possibilidade de afastamento contra sua própria vontade.

A discussão ganhou força diante de avaliações como a do economista Jeffrey Sachs, que classificou Trump como “psicopático” em entrevista recente, e de outros analistas que apontam riscos institucionais decorrentes de decisões impulsivas na política externa e militar dos EUA.

O que é a 25ª Emenda

A 25ª Emenda foi criada após o assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963, para esclarecer procedimentos de sucessão e incapacidade presidencial. Ela é composta por quatro seções, sendo a mais relevante para o cenário atual a Seção 4.

Esse dispositivo permite que o vice-presidente, junto com a maioria dos principais membros do gabinete (ou outro órgão definido por lei), declare que o presidente está “incapaz de exercer os poderes e deveres do cargo”.

Como funciona o afastamento

O processo começa com uma declaração formal enviada ao Congresso pelo vice-presidente e pela maioria do gabinete. A partir desse momento, o vice assume imediatamente como presidente interino.

Caso o presidente conteste a decisão — o que é esperado —, ele pode declarar que está apto a governar. Nesse caso, abre-se uma disputa institucional.

Se o vice-presidente e o gabinete insistirem na incapacidade, o Congresso é convocado a decidir. Para manter o afastamento, são necessários dois terços dos votos tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado.

Sem essa maioria qualificada, o presidente retoma o cargo.

Por que a emenda é difícil de aplicar

Apesar de prever um caminho formal para afastamento, a Seção 4 da 25ª Emenda nunca foi usada contra a vontade de um presidente. Isso ocorre porque o processo depende de atores políticos diretamente ligados ao próprio governo.

O primeiro obstáculo é o vice-presidente, que precisa liderar o movimento. Em seguida, é necessário o apoio da maioria do gabinete, composto por aliados nomeados pelo próprio presidente.

Além disso, a exigência de dois terços no Congresso torna o processo ainda mais complexo, especialmente em um ambiente político polarizado.

O debate sobre Trump

Críticos de Donald Trump argumentam que seu comportamento impulsivo, sua retórica agressiva e decisões controversas — especialmente em temas de guerra e política externa — levantam dúvidas sobre sua capacidade de governar.

Expressões como “rei louco” têm sido usadas por analistas e comentaristas para descrever o estilo de liderança do presidente, evocando a ideia de decisões erráticas e potencialmente perigosas em um contexto de poder nuclear.

Nesse cenário, a 25ª Emenda aparece como um instrumento institucional extremo, pensado justamente para situações em que o presidente não reúne condições psicológicas ou cognitivas para exercer o cargo.

Diferença entre impeachment e 25ª Emenda

É importante distinguir a 25ª Emenda do processo de impeachment. Enquanto o impeachment é um julgamento político por crimes ou irregularidades, a 25ª Emenda trata exclusivamente da incapacidade de governar.

Ou seja, não se trata de punir o presidente, mas de garantir a continuidade do funcionamento do Estado em caso de impossibilidade de exercício do cargo.

Um instrumento político e institucional

Na prática, a aplicação da 25ª Emenda é tanto jurídica quanto política. Mesmo que haja questionamentos sobre a capacidade do presidente, a decisão depende de correlação de forças dentro do governo e no Congresso.

Por isso, embora o mecanismo exista, sua utilização permanece altamente improvável sem uma ruptura significativa dentro da própria base governista.

Ainda assim, o simples fato de voltar ao debate público indica o grau de tensão institucional vivido nos Estados Unidos, especialmente em um contexto de crises internacionais, como a guerra envolvendo o Irã, e de crescente questionamento sobre o papel global do país.

A 25ª Emenda, nesse sentido, permanece como uma salvaguarda extrema da democracia americana — raramente utilizada, mas concebida para momentos de risco excepcional.

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