Trump fracassou e colocou o mundo à beira do precipício econômico, diz Mearsheimer
Cientista político afirma que ofensiva contra o Irã não terá fim rápido, enfraquece a projeção dos EUA e coloca a economia mundial à beira do colapso
247 – O cientista político John Mearsheimer, professor de Relações Internacionais da Universidade de Chicago, afirmou que a estratégia do presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, fracassou na guerra contra o Irã e que o conflito tende a se prolongar. Em entrevista ao programa The Bottom Line, apresentado por Steve Clemons, na Al Jazeera, ele foi direto: “Essa guerra no Irã é desastrosa para os Estados Unidos”.
Segundo Mearsheimer, embora o conflito não altere a estrutura básica do poder global, ele compromete seriamente a capacidade dos Estados Unidos de projetar influência no mundo. Para ele, a política externa adotada por Trump corrói alianças, enfraquece instituições internacionais e mina o próprio arcabouço que sustenta a liderança americana.
Estratégia falhou e levou a uma guerra de atrito
Na avaliação do professor, Washington e Israel apostaram em uma vitória rápida, baseada em uma estratégia de “choque e pavor” que buscava derrubar o regime iraniano ou forçar sua rendição. O cálculo, porém, mostrou-se equivocado.
“Eles pensaram que poderiam lançar uma estratégia de choque e pavor contra o Irã… mas o que aconteceu é que essa estratégia fracassou e agora estamos numa guerra de atrito”, afirmou.
Segundo ele, esse novo cenário favorece o Irã. “Nessa guerra de atrito em que agora nos encontramos, os iranianos têm quase todas as cartas, não nós”, disse, contrariando declarações de Trump de que os Estados Unidos estariam em posição dominante.
Poder americano não diminui, mas sua influência sim
Mearsheimer explica que o poder de um país está baseado em fatores materiais como riqueza, população e capacidade militar — elementos que permanecem intactos mesmo após guerras mal-sucedidas. No entanto, ele ressalta que a forma de usar esse poder pode ser profundamente afetada.
“O que está sendo minado é a nossa capacidade de projetar poder”, afirmou. Segundo ele, essa erosão decorre do enfraquecimento de instituições internacionais, do desprezo pelo direito internacional e da deterioração das relações com aliados.
“Precisamos dessas instituições. Precisamos de aliados. Mas o presidente Trump não acha que você precise de instituições multilaterais… e ele despreza nossos aliados”, disse.
Críticas à visão de independência dos EUA no Oriente Médio
O professor também criticou a narrativa de Trump de que os Estados Unidos seriam independentes do Oriente Médio. Para Mearsheimer, essa visão ignora interesses estratégicos fundamentais.
“Dizer que somos totalmente independentes do Oriente Médio é ridículo”, afirmou. Ele destacou que o Golfo Pérsico continua sendo uma região vital, especialmente por sua importância energética.
Além disso, reforçou que nenhuma potência global consegue atuar de forma isolada. “A ideia de que somos um ator independente que não depende de aliados é um argumento tolo”, declarou.
Guerra ameaça economia global
Um dos pontos mais preocupantes, segundo Mearsheimer, é o impacto econômico do conflito. Ele alerta que a guerra pode desencadear uma crise global profunda, especialmente com a instabilidade no Estreito de Hormuz, rota estratégica para o petróleo.
“Poder-se-ia argumentar que estamos prestes a fazer a economia internacional colapsar como resultado desta guerra”, disse.
Ele reforçou que o conflito já causa danos significativos e tende a piorar. “Estamos à beira do precipício em termos do estado da economia mundial por causa desta guerra”, afirmou.
China se fortalece enquanto EUA se desgastam
Para Mearsheimer, a China surge como principal beneficiária estratégica do conflito. Ao se envolver profundamente no Oriente Médio, os Estados Unidos desviam recursos e atenção de sua principal prioridade geopolítica: conter o avanço chinês.
“Do ponto de vista chinês, isso é maná caído do céu”, afirmou. Ele destacou que Washington está retirando capacidades militares da Ásia para reforçar o Oriente Médio, o que enfraquece sua posição no Indo-Pacífico.
Além disso, apontou que a imagem internacional dos EUA se deteriora. “Os chineses parecem ser os adultos na sala. Os Estados Unidos certamente não parecem um ator responsável”, disse.
Escalada pode devastar aliados no Golfo
Mearsheimer também fez um alerta contundente sobre os riscos de ampliar a guerra. Segundo ele, países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos podem sofrer consequências devastadoras caso o conflito se intensifique.
“Há uma chance muito grande de que esses países sejam destruídos como sociedades funcionais”, afirmou. Ele explicou que a infraestrutura crítica desses países, como usinas de dessalinização e instalações energéticas, é altamente vulnerável a ataques iranianos.
Por isso, defendeu uma solução diplomática urgente. “O que esses países deveriam fazer é pressionar os Estados Unidos a recuar e buscar um acordo negociado”, disse.
Mearsheimer contesta narrativa sobre o Irã
O cientista político também rejeitou a ideia de que o Irã seja a principal ameaça à estabilidade do Oriente Médio. “A maior ameaça à estabilidade no Oriente Médio é os Estados Unidos atuando em conjunto com Israel”, afirmou.
Ele acrescentou que o Irã não é um país altamente agressivo e criticou a narrativa dominante em Washington e Tel Aviv. “A ideia de que o Irã é esse grande desestabilizador é um mito”, disse.
Ao comentar a situação em Gaza, Mearsheimer fez acusações graves contra Israel e apontou cumplicidade americana. “O país que cometeu genocídio em Gaza não é o Irã. É Israel. E nós fomos cúmplices desse genocídio”, declarou.
Conflito regional amplia instabilidade
Mearsheimer também analisou outros focos de tensão no Oriente Médio, como o Líbano e o papel do Hezbollah. Segundo ele, Israel enfrenta dificuldades no terreno e não conseguiu neutralizar o grupo.
“Os israelenses estão sofrendo uma série de derrotas táticas”, afirmou, acrescentando que o Hezbollah segue ativo e capaz de atingir alvos relevantes.
Ele também apontou que a ofensiva israelense se estende por múltiplas frentes, incluindo Gaza, Cisjordânia e Síria, ampliando o risco de escalada regional.
Guerra sem horizonte de fim
Ao longo da entrevista, a conclusão de Mearsheimer é clara: não há sinais de um fim próximo para o conflito. A estratégia inicial fracassou, o cenário evoluiu para uma guerra de desgaste e os riscos globais aumentam a cada dia.
Para ele, a guerra contra o Irã não apenas expõe erros estratégicos dos Estados Unidos, mas também acelera a erosão da ordem internacional, abrindo caminho para um mundo mais instável, menos regulado e mais perigoso.


