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Jeffrey Sachs diz que não há paz sem uma Palestina livre

Jeffrey Sachs diz que não há paz sem uma Palestina livre e afirma que a crise regional está ligada à recusa de um Estado palestino

Jeffrey Sachs diz que não há paz sem uma Palestina livre (Foto: Reuters)

247 - A paz no Oriente Médio depende de uma Palestina livre, segundo Jeffrey Sachs, que sustenta que a crise regional está ligada à recusa de um Estado palestino e ao fracasso de iniciativas que, em sua avaliação, apenas aprofundam a guerra. Ao analisar as recentes tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, o economista afirmou que a escalada atual combina impasse diplomático, destruição e risco de agravamento econômico e energético.

Em entrevista ao canal Judging Freedom, no YouTube, Sachs classificou como “farsa” a longa rodada de conversas realizada em Islamabad e disse que não houve negociação real. “Foi claramente uma farsa”, afirmou. Segundo ele, o encontro se resumiu a uma lista de exigências dos Estados Unidos, sem espaço para concessões recíprocas nem discussão efetiva de saídas políticas.

Críticas à condução dos EUA

Ao longo da entrevista, Sachs dirigiu críticas duras ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a quem atribuiu a responsabilidade central pela condução da crise. Na avaliação do economista, a Casa Branca deixou de lado procedimentos institucionais, canais diplomáticos e mecanismos de supervisão para adotar decisões concentradas em um núcleo restrito de poder.

“Não é negociação, especialmente quando seus 100% não fazem sentido”, disse Sachs, ao comentar a postura adotada por Trump. Em outro momento, reforçou o diagnóstico de desorganização e incapacidade política: “Temos o presidente mais incapacitado e incompetente da história americana. Ele não consegue manter um cessar-fogo nem por dois dias.”

Sachs também afirmou que não houve, nos últimos anos, uma negociação séria comparável ao acordo nuclear firmado em 2015 entre Irã, Estados Unidos e outras potências. Para ele, aquele entendimento havia criado mecanismos de inspeção e compromisso verificável, mas foi desmontado posteriormente. Desde então, argumenta, a diplomacia teria sido substituída por pressão, bombardeios e tentativas de imposição.

Netanyahu e a questão palestina

Na parte mais ampla da entrevista, Sachs situou a atual crise dentro de uma leitura histórica do Oriente Médio e relacionou diretamente as guerras na região à questão palestina. Segundo ele, o ponto central é a recusa em admitir a convivência entre um Estado de Israel e um Estado da Palestina.

“Não há paz sem uma Palestina livre”, resumiu. Para Sachs, “toda a história do Oriente Médio moderno” remete à questão palestina, e a sucessão de conflitos, de Gaza ao Irã, passa por esse impasse. Ele afirmou que a orientação política liderada por Benjamin Netanyahu rejeita a perspectiva de um Estado palestino e busca impor soberania israelense sobre todo o território entre o rio Jordão e o Mediterrâneo.

Ao comentar essa estratégia, Sachs disse que houve uma ruptura deliberada com a ideia de “terra por paz”, princípio que associa a retirada israelense dos territórios ocupados em 1967 a um acordo político mais amplo. Em sua leitura, a oposição a esse modelo ajudou a consolidar uma política de confrontação permanente.

Escalada regional e mudança de regimes

Sachs afirmou ainda que guerras e intervenções ocorridas ao longo das últimas décadas devem ser compreendidas, em sua visão, como parte de uma lógica de enfrentamento a governos que apoiaram a causa palestina. Nessa linha, citou episódios envolvendo países como Iraque, Síria, Sudão e Irã.

Ao tratar do conflito com Teerã, o economista disse que a meta de setores alinhados a Netanyahu não seria um novo acordo, mas sim a queda do governo iraniano. “Eles não negociam porque não querem negociar”, declarou. Na mesma linha, acrescentou que Israel “não quer paz” e busca derrubar o governo do Irã.

Sachs também afirmou que a conduta dos Estados Unidos na região está ligada a uma busca persistente por hegemonia. Segundo ele, o rompimento do Irã com a influência americana após a revolução de 1979 marcou o início de um longo ciclo de hostilidade. “Estamos em guerra com esse país desde 1979”, disse.

Crise econômica e risco de agravamento

Além do impacto humano da guerra, Sachs alertou para as consequências econômicas da escalada. Segundo ele, o conflito não alcançou qualquer objetivo estratégico e, ao contrário, empurrou o mundo para uma crise mais profunda.

“Eles não alcançaram objetivo estratégico algum”, afirmou, referindo-se a Trump e Netanyahu. Na sequência, acrescentou: “Levaram a economia mundial a uma crise importante, que eu acho provável que piore muito.” Para o economista, a instabilidade na região amplia os riscos sobre energia, transporte e mercados internacionais.

Questionado sobre os desdobramentos mais imediatos, Sachs disse ver tendência de continuidade da escalada, justamente por não identificar sinais consistentes de estabilidade política. Em sua avaliação, a situação permanece aberta e sem resolução. “Estamos em uma crise muito profunda, sem qualquer solução neste momento”, afirmou.

Ataques ao papa e saúde mental de Trump

Na parte final da conversa, Sachs comentou a repercussão de ataques de Trump ao papa e de uma imagem gerada por inteligência artificial em que o presidente aparecia em uma representação de caráter religioso. O economista associou esses episódios ao que descreveu como delírios messiânicos.

“Trump tem delírios absolutamente messiânicos”, afirmou. Ele disse ainda que o entorno do presidente, formado por aliados políticos e religiosos, alimentaria esse tipo de comportamento. Para Sachs, o problema deixou de ser apenas retórico e passou a revelar uma crise institucional mais séria nos Estados Unidos.

Ao reagir à justificativa dada por Trump para a publicação da imagem, Sachs foi direto: “Se ele realmente não consegue ver a diferença, então precisa ser removido, porque qualquer criança de 10 anos saberia distinguir uma coisa da outra.”

A entrevista terminou com Sachs reiterando que a crise atual não pode ser dissociada da questão palestina e da ausência de uma solução política baseada em autodeterminação. Para ele, enquanto esse ponto permanecer bloqueado, a região continuará exposta a novas guerras, fracassos diplomáticos e instabilidade crescente.

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