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“Os Estados Unidos transformaram a guerra em seu próprio objetivo”, afirma Chico Teixeira

Irã, EUA e Israel no centro da geopolítica do caos expõem crise global, negociações de trégua e disputa por poder e recursos

Donald Trump e Chico Teixeira (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein/File Photo | Reprodução)

247 - A atual escalada de tensões envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel revela uma reconfiguração profunda da geopolítica global, marcada por conflitos armados, interesses econômicos e disputas estratégicas. A análise é do historiador Chico Teixeira, em entrevista ao programa Trus Entrevista, da TV 247, na qual ele detalha os bastidores das negociações e os impactos do conflito no cenário internacional.

Durante a entrevista exibida pela TV 247, Chico Teixeira destacou que há uma tentativa de construção de uma trégua entre Estados Unidos e Irã, mediada pelo Paquistão. Segundo ele, o país asiático ganhou credibilidade junto a Teerã por condenar, desde o início, os ataques americanos e israelenses, o que o diferencia de outros possíveis mediadores.

Na avaliação do historiador, o protagonismo do Paquistão está diretamente ligado à atuação da China. Ele afirma que Pequim teria formulado um plano de negociação e pressionado pela sua implementação, diante do risco de agravamento do conflito e de impactos econômicos globais, especialmente relacionados ao estreito de Ormuz, ponto estratégico para o fluxo mundial de petróleo.

Chico Teixeira chamou atenção para o fato de Israel não participar das negociações. Para ele, essa exclusão ajuda a explicar a intensificação das ações militares israelenses, como os ataques ao Líbano. Segundo sua análise, trata-se de uma tentativa de interferir no processo diplomático e forçar protagonismo nas decisões.

O historiador sustenta que, apesar da superioridade militar, Israel pode estar enfrentando uma derrota política. Ele recorre a exemplos históricos para afirmar que vitórias no campo de batalha não garantem sucesso estratégico duradouro. Nesse contexto, aponta um crescente isolamento internacional e fissuras na relação com os Estados Unidos.

Ao analisar a política externa norte-americana, Chico Teixeira rejeita a ideia de improvisação. Para ele, há uma lógica estruturada, ainda que baseada na destruição e na instabilidade. Em uma de suas declarações mais contundentes, afirmou: “A guerra é o objetivo dos Estados Unidos.” Segundo o historiador, o conflito atende a interesses do complexo industrial-militar e funciona como motor econômico e político.

A entrevista também abordou os efeitos econômicos da crise. Teixeira reconhece que a alta do petróleo e a inflação podem gerar desgaste interno nos Estados Unidos, mas avalia que o governo tenta compensar isso com nacionalismo, políticas protecionistas e controle sobre o mercado energético.

Outro aspecto destacado foi a influência do fundamentalismo religioso na política externa americana. Segundo o historiador, setores ligados ao chamado sionismo cristão exercem forte pressão em favor de políticas agressivas no Oriente Médio. Ele afirma: “O pior lobby que apoia Trump e apoia uma política de destruição do Oriente Médio, inclusive o genocídio palestino, é do sionismo cristão.”

Chico Teixeira também analisou a situação no Líbano e ressaltou a dependência de Israel em relação aos Estados Unidos. Além das operações militares, ele destacou a radicalização interna da sociedade israelense, com ações de colonos contra palestinos, ampliando o cenário de tensão.

Ao tratar da Europa, o historiador afirmou que a credibilidade dos Estados Unidos entre aliados foi profundamente abalada. Segundo ele, isso pode levar a mudanças na estrutura de defesa do continente e ao fortalecimento de iniciativas militares próprias, especialmente por parte de França e Alemanha.

Sobre a Rússia, Teixeira avalia que há sinais de desgaste com a guerra na Ucrânia e possível interesse em reduzir sua exposição militar. Ele também menciona movimentos envolvendo China e Taiwan como parte de um rearranjo global mais amplo.

Na análise sobre a América Latina, o historiador alertou para as pressões dos Estados Unidos sobre o Brasil, envolvendo temas como o Pix, o Mercosul, os Brics e recursos estratégicos. Em tom crítico, afirmou: “Eles querem acabar com a soberania brasileira.”

Ao final, Chico Teixeira defendeu que uma solução duradoura no Oriente Médio depende da garantia da soberania de Líbano, Israel e Palestina, com a criação do Estado palestino. Demonstrando ceticismo quanto ao papel das instituições internacionais, concluiu que o cenário atual aponta para um enfraquecimento da ordem global: “Os Estados Unidos estão desmontando a ordem mundial.”

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