A mudança mais importante em Davos é o avanço da China como maior mercado mundial, diz Pepe Escobar
No Pepe Café, analista afirma que discurso chinês sobre expansão do consumo interno foi o ponto decisivo do fórum
247 – A principal transformação revelada em Davos, segundo o analista geopolítico Pepe Escobar, é a aceleração do movimento que coloca a China no caminho para se tornar o maior mercado de consumo do planeta. A avaliação foi feita no programa semanal Pepe Café, no qual ele comentou discursos, bastidores e painéis do Fórum Econômico Mundial, sob a ótica de uma disputa de poder entre o Sul Global e a ordem internacional forjada no pós-guerra.
A análise foi apresentada por Escobar em vídeo publicado no YouTube, no qual ele sustenta que o discurso mais decisivo do encontro não veio de líderes ocidentais nem de figuras do establishment financeiro, mas do vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng, ao afirmar a “determinação da China de se tornar o mercado do planeta” e colocar o aumento da demanda doméstica como prioridade número um da agenda econômica.
O discurso chinês e a virada para o consumo interno
No programa, Escobar afirma que a China entrou em “uma nova fase” na qual o fortalecimento do mercado interno passa a orientar a política econômica, com reflexos no próximo plano quinquenal que, segundo ele, seria aprovado em março, em Pequim. Na leitura do analista, o efeito desse movimento é global: a reorganização de cadeias comerciais e de decisões empresariais em torno da China, na medida em que o país ampliaria sua centralidade como polo de consumo.
Para Escobar, esse ponto teria passado praticamente despercebido pela mídia ocidental, que, segundo ele, dedicou mais atenção a discursos e encenações políticas do que ao que considera a mudança estrutural do momento.
Davos como palco de emissários e a “loucura” acumulada
Escobar descreve Davos como um ambiente de “demência acumulada” e ironiza o fórum como uma “palhaçada absolutamente inominável”, sustentando que ali não estariam propriamente “as elites”, mas seus representantes e mensageiros. No comentário, ele afirma que o evento seria um “clube fechado” em que lideranças políticas e executivos de grandes corporações circulam para falar “entre eles”, enquanto os centros reais de poder permaneceriam acima do espetáculo.
Nessa moldura crítica, o analista mistura relatos de bastidores e interpretações geopolíticas, defendendo que a lógica do encontro é proteger a arquitetura internacional que, em sua visão, sustentou o “domínio da oligarquia financeira anglo-americana” desde 1945.
Big Tech e Big Finance: Palantir e BlackRock como síntese do risco
Um dos momentos que Escobar destaca é a mesa redonda em que Larry Fink, da BlackRock, dialogou com Alex Karp, CEO da Palantir. Ele classifica o encontro como “aterrorizante” e como símbolo de uma aliança entre “Big Tech” e “Big Finance”.
Segundo o analista, a conversa teria sido uma demonstração pública de ambições de controle abrangente sobre fluxos, dados e decisões, com potencial para ampliar mecanismos de vigilância e governança corporativa sobre Estados e sociedades. Para Escobar, o perigo maior é que esse tipo de articulação não seria uma teoria de bastidor, mas algo feito “abertamente” e já exposto ao domínio público.
Ucrânia, Moscou e o “kabuki” diplomático
No Pepe Café, Escobar relata um painel que chama de “Café da Manhã da Ucrânia” e afirma que o enviado Steve Witkoff teria sido chamado a falar pouco antes de viajar a Moscou, em um movimento que ele enquadra como encenação política. Na transcrição do vídeo, o analista afirma que Witkoff e Jared Kushner foram à Rússia para conversar com Vladimir Putin e descreve a iniciativa como tentativa de apresentar a administração de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, como capaz de “fechar o acordo” sobre a crise ucraniana.
Escobar sustenta, porém, que a decisão final não estaria no espetáculo de Davos nem no marketing diplomático de curto prazo. Em sua formulação literal: “A decisão final de tudo relativo à Ucrânia e de da retomada ou não relações geopolíticas e geoeconômicas entre Rússia e Estados Unidos, a palavra final vem do presidente Putin e do Conselho de Segurança em Moscou”.
Mark Carney e a disputa pela narrativa do “fim da ordem”
Embora trate o discurso de Mark Carney como um dos mais repercutidos, Escobar o apresenta como secundário diante do anúncio chinês. Na transcrição, ele descreve Carney como alguém que identificou o “colapso da Ordem Internacional Baseada em regras” e diz que isso gerou pânico, porque significaria admitir uma ruptura no sistema que, segundo ele, organizou o pós-guerra.
Para o analista, contudo, a formulação de Carney seria uma “recalibragem” retórica, não uma ruptura real. Escobar afirma que o ex-banqueiro central teria tentado substituir o conceito de soberania por uma multipolaridade “administrada” pelas elites e por uma “autonomia estratégica” para potências médias, como Canadá e europeus, preservando a arquitetura financeira que sustentaria o comando do sistema.
Europa “superpotência” e a lista de contradições
O programa também ironiza um painel em que o presidente do Banco Europeu de Investimentos teria declarado, literalmente: “Eu acho que a União Europeia é uma é uma superpência e eu acho que a gente tem que acreditar em nós e em nossa capacidade”. Escobar contesta a afirmação e enumera fragilidades que, na visão dele, esvaziam a ideia de superpotência: dependência militar da OTAN, ausência de exército próprio, dificuldade de decisão por consenso, dependência energética e desindustrialização.
Na mesma linha, ele afirma que a rejeição europeia à energia russa barata em 2022 teria provocado um “suicídio político, geoeconômico e energético”, com efeitos que, em sua avaliação, ainda estariam se aprofundando.
Groenlândia e o avanço territorial-militar dos EUA
Escobar cita a Groenlândia como tema central das conversas em Davos. Segundo ele, teria havido um entendimento envolvendo Estados Unidos e OTAN para ampliar presença militar no território, sem consulta efetiva a Dinamarca e à própria Groenlândia. Ele afirma que Donald Trump teria um objetivo mais amplo: colocar a Groenlândia “no mapa dos Estados Unidos”, como teria indicado em redes sociais, conforme a transcrição.
Para o analista, esse tipo de movimento revela a forma como o poder atlântico operaria: combinando pressão geopolítica, bases militares e reconfiguração de dependências — agora, segundo ele, inclusive sobre aliados tradicionais.
A conclusão de Escobar: o centro de gravidade está mudando
Ao final do comentário, Escobar amarra sua leitura em uma tese: o domínio do sistema financeiro anglo-americano estaria se aproximando do limite histórico, e o principal sinal disso em Davos seria justamente o avanço chinês como mercado e como referência comercial global. Em sua síntese, a virada decisiva não estaria em discursos de “regras”, nem em fórmulas de “realismo baseado em valores”, mas na mudança do centro de gravidade econômico do planeta.
No Pepe Café, ele conclui que a nova dinâmica empurraria empresas e países a “fazer bons negócios com a China”, fechando com a afirmação de que o mundo estaria entrando no “século da China e da Eurásia”, conforme a transcrição do programa.

