A velha ordem morreu e o mundo multipolar não será derrotado
Em artigo na Foreign Affairs, o diplomata Kishore Mahbubani afirma que o Ocidente precisa aceitar a ascensão irreversível do Sul Globa
247 – A velha ordem internacional entrou em colapso, e a consolidação de um mundo multipolar já não pode ser revertida. Essa é a tese central do diplomata Kishore Mahbubani, em artigo publicado na revista Foreign Affairs, no qual sustenta que o Ocidente perdeu a capacidade de ditar sozinho os rumos da política global e se mostra incapaz de compreender as transformações profundas em curso no sistema internacional.
Ao analisar o ensaio “The West’s Last Chance”, do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, Mahbubani reconhece um acerto fundamental: o Sul Global será decisivo para definir se a nova era geopolítica caminhará para a cooperação, a fragmentação ou a dominação. O diplomata também concorda com a advertência de que esta pode ser a última oportunidade para o Ocidente convencer o mundo de que é capaz de dialogar, e não apenas impor sua visão. No entanto, ele acrescenta um ponto essencial: não há diálogo sem escuta — e o Ocidente, segundo sua análise, não está disposto a ouvir.
Sul Global rejeita a visão única do Ocidente
Mahbubani argumenta que os países do Sul Global não compartilham automaticamente as percepções dominantes do Ocidente sobre temas centrais da ordem mundial. Enquanto lideranças europeias e norte-americanas tratam China e Rússia como ameaças centrais, bilhões de pessoas na Ásia, na África e na América Latina enxergam essas potências sob outra perspectiva.
O diplomata critica o fato de que formuladores de políticas ocidentais raramente tentam compreender essas diferenças. Para muitos países do Sul Global, o histórico de intervenções, guerras e pressões exercidas pelo Ocidente gera desconfiança equivalente — ou até superior — àquela direcionada a seus rivais estratégicos. Por isso, segundo ele, qualquer tentativa séria de diálogo exige que o Ocidente reveja suas próprias posições e abandone a postura de superioridade histórica.
Guerra na Ucrânia expõe limites do poder ocidental
A guerra na Ucrânia é apresentada como um exemplo claro dessa desconexão. Mahbubani reconhece que diversos países do Sul Global condenaram a invasão russa, considerada ilegal. Ainda assim, a maioria deles se recusou a aderir às sanções impostas pelo Ocidente, mantendo relações normais com Moscou.
Como símbolo dessa postura, o diplomata cita a recepção ao presidente russo Vladimir Putin em Nova Déli, em dezembro de 2025, quando o primeiro-ministro indiano Narendra Modi o recebeu com honras de Estado, incluindo uma salva de 21 tiros. Para Mahbubani, o episódio demonstra que a tentativa ocidental de isolar a Rússia fracassou fora de seu próprio bloco.
O texto também questiona a narrativa de que a guerra foi totalmente “não provocada”. Sem negar a responsabilidade de Moscou, o autor sustenta que políticas adotadas pelo Ocidente após o fim da União Soviética contribuíram para a crise. Ele lembra que pensadores ocidentais como George Kennan e Owen Harries já haviam alertado que a expansão da Otan para o leste poderia provocar uma reação russa.
Nesse contexto, Mahbubani cita uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feita em maio de 2022, como expressão de uma visão mais equilibrada do conflito. Disse o presidente: “Putin não deveria ter invadido a Ucrânia. Mas não é só Putin que é culpado. Os Estados Unidos e a União Europeia também são culpados. Qual foi a razão para a invasão da Ucrânia? A Otan? Então os Estados Unidos e a Europa deveriam ter dito: ‘A Ucrânia não entrará na Otan’. Isso teria resolvido o problema.”
Segundo o diplomata, essa interpretação encontra ampla ressonância no Sul Global, que rejeita explicações simplificadas e unilaterais. Ele também destaca a popularidade das análises do cientista político John Mearsheimer, que apontam o papel do Ocidente na escalada do conflito e são amplamente compartilhadas fora do eixo atlântico.
Gaza compromete autoridade moral da Europa
Mahbubani afirma que a simultaneidade entre as guerras na Ucrânia e em Gaza, entre 2024 e 2025, abalou profundamente a autoridade moral da Europa. Enquanto líderes europeus denunciaram com razão a morte de civis na Ucrânia, permaneceram em grande medida em silêncio diante da devastação de Gaza por Israel.
O contraste, segundo o autor, é percebido de forma contundente no Sul Global. Além do número maior de civis mortos em Gaza, estimativas indicam que as ações militares israelenses podem ter causado a morte de entre 5% e 10% da população do território — uma proporção considerada extremamente elevada.
Para ilustrar essa percepção, Mahbubani utiliza uma metáfora contundente: ninguém respeita “um padre adúltero que prega fidelidade conjugal”. Na visão do Sul Global, é assim que muitos líderes europeus passaram a ser vistos, o que contribui para o declínio da influência ocidental.
Trump, Europa e o isolamento crescente
O artigo também aponta que muitos países do Sul Global, impactados pelas consequências econômicas da guerra na Ucrânia — incluindo a redução de ajuda europeia anteriormente destinada a regiões como a África — passaram a apoiar iniciativas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltadas ao encerramento do conflito.
Por outro lado, Mahbubani critica líderes da União Europeia por tentarem dificultar esses esforços, incentivando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky a não fazer concessões em negociações de paz.
O diplomata observa que, quando os Estados Unidos reduziram seu apoio financeiro à Ucrânia, a Europa poderia ter assumido maior protagonismo. Nesse contexto, cita a declaração do primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk: “500 milhões de europeus estão implorando a 300 milhões de americanos por proteção contra 140 milhões de russos que não conseguiram superar 50 milhões de ucranianos por três anos.”
Ainda assim, segundo o autor, os líderes europeus não demonstraram disposição para assumir os custos políticos e econômicos dessa escolha, evitando cortes internos e buscando alternativas controversas, como a tentativa de confiscar ativos russos.
Relação com a China evidencia arrogância estratégica
Mahbubani sustenta que a postura europeia em relação à China também revela um erro estratégico profundo. Ele lembra que, no ano 2000, o Produto Interno Bruto combinado da União Europeia era cerca de sete vezes maior que o da China. Hoje, ambos estão em níveis semelhantes, e a tendência é que a economia chinesa ultrapasse amplamente a europeia nas próximas décadas.
Apesar dessa mudança estrutural, líderes europeus continuam adotando um tom considerado condescendente e bloqueando iniciativas de cooperação, como acordos de investimento. Para o diplomata, isso ignora o fato de que a China viveu, sob a liderança do Partido Comunista, um dos períodos mais bem-sucedidos de desenvolvimento econômico e social de sua história recente.
Embora reconheça desafios enfrentados pela economia chinesa, Mahbubani afirma que o país possui um dos governos mais eficazes do mundo, responsável por elevar sua participação na manufatura global de cerca de 6% em 2000 para aproximadamente 30% atualmente.
Reforma das instituições globais é inevitável
O artigo defende que a construção de uma nova ordem internacional exige reformas profundas nas instituições multilaterais. Mahbubani concorda com Stubb ao afirmar que organismos como o Conselho de Segurança da ONU precisam refletir melhor a distribuição atual de poder.
Ele propõe uma fórmula de reestruturação que ampliaria a representatividade global, incluindo países como Brasil, Índia e Nigéria entre os membros permanentes. Também sugere que o Reino Unido deveria considerar ceder seu assento permanente à Índia, como forma de reconhecer a nova realidade geopolítica e reparar parcialmente seu legado colonial.
O diplomata também critica a falta de reformas no Fundo Monetário Internacional, destacando a discrepância entre o peso econômico da China e sua participação nas decisões da instituição. Segundo ele, a resistência europeia em abrir espaço para novas potências incentiva a criação de instituições alternativas, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura.
Mundo multipolar exige diálogo entre iguais
Ao final, Mahbubani reforça a ideia de que o mundo caminha para um equilíbrio mais distribuído de poder, no qual Ocidente, Oriente e Sul Global precisarão coexistir em condições mais simétricas. Esse novo cenário, segundo ele, só será viável com base em cooperação genuína e diálogo entre iguais.
No entanto, o diplomata faz um alerta contundente: o principal obstáculo para essa transição continua sendo a incapacidade do Ocidente de ouvir. Representando apenas cerca de 12% da população mundial, o bloco ocidental ainda não aprendeu, segundo ele, a dialogar de forma respeitosa com os 88% restantes.
A conclusão é direta: a velha ordem morreu — e o mundo multipolar, impulsionado pelo Sul Global, não será derrotado.


