As verdades históricas sobre Cuba (1ª Parte)
O mundo precisa saber as verdades históricas sobre Cuba, que revelam as mentiras de Trump sobre quem é uma ameaça e quem é o inimigo antes e agora
Por Wilkie Delgado Correa (*) - Não se pode entender e explicar facilmente o pensamento estadunidense de hoje, através do pensamento ianque de ontem?
Cuba resiste há mais de duzentos anos à força de gravidade política dos Estados Unidos
Em seu édito mais recente, o Imperador Donald Trump afirma: "As políticas, práticas e ações do Governo de Cuba são projetadas para prejudicar os Estados Unidos e apoiar países hostis, grupos terroristas transnacionais e agentes malignos que buscam destruir os Estados Unidos", conforme afirma a ordem executiva. Por essa razão, ele diz, "a situação em relação a Cuba representa uma ameaça incomum e extraordinária" contra a segurança nacional e a política externa dos EUA. Portanto, "declaro emergência nacional em relação a essa ameaça", estipula o presidente dos EUA no documento.
Para enfrentar essa ameaça que declara, ele considera "necessário e apropriado" estabelecer um sistema de tarifas contra produtos de países estrangeiros que forneçam "direta ou indiretamente" qualquer tipo de petróleo a Cuba.
A imprensa mundial afirma que isso é uma medida contra Cuba, e é verdade; mas, é mais verdade que a ordem executiva se dirige, fundamentalmente, a todos os países do mundo e, em particular, àqueles que os Estados Unidos sabem que comercializam ou doam petróleo para Cuba; especialmente as duas grandes potências, Rússia e China, que são mencionadas como inimigas. Essa ordem executiva não pode ser interpretada como uma questão relativa ao petróleo; não é. É a tentativa e a desculpa para impedir todos esses países atuais ou potenciais de exercer seu direito soberano, sua independência, o direito respaldado pelo direito internacional e pela ONU, por meio de uma arma comercial, porém óbvia, de retaliação e ameaça usando a arma preferida do imperador, que são as tarifas. Quando todos os países do mundo ousarão desafiá-lo e impedir que possa assinar tais ordens executivas de maneira autoritária e mandona?
Neste primeiro artigo (e, posteriormente, em um segundo), vejamos alguns pontos para ser lidos atentamente sobre toda a questão de Cuba, para que não haja dúvidas sobre as VERDADES ESSENCIAIS que todos deveriam conhecer.
Como exemplo do antigo sonho estadunidense de apoderar-se de Cuba, é importante relacionar um resumo do pensamento estadunidense desde o século passado, mesmo muito antes da República de Cuba alcançar a independência e muito antes do triunfo da Revolução Cubana, em 1º de janeiro de 1959.
É marcante a semelhança daquelas propostas com as atuais declarações e ações dos dirigentes políticos e do governo dos Estados Unidos, que mantém seu bloqueio férreo genocida apesar da condenação quase unânime dentro da Assembleia Geral das Nações Unidas.
O chamado "Destino Manifesto" sempre tem povoado a mente dos políticos estadunidenses, que misturou teoria política com doutrina religiosa para justificar seu caráter expansionista e imperialista. Tem sido a ideologia da desapropriação e dominação dos "outros" por qualquer meio.
Assim, por exemplo, em 1800, o presidente Thomas Jefferson declarou: "embora com certa dificuldade (a Espanha) consentirá que Cuba seja adicionada à União para que não ajudemos o México e as outras províncias. Seria um bom preço".
James Madison, o quarto presidente estadunidense, proclamou, em 1810: "(...) a posição de Cuba dá aos Estados Unidos um profundo interesse pelo destino... dessa ilha que... não poderiam estar satisfeitos com sua queda sob qualquer governo europeu, que poderia tornar essa posse um apoio contra o comércio e a segurança dos Estados Unidos".
Em 1823, John Quincy, Secretário de Estado e, posteriormente, sexto Presidente dos Estados Unidos (1825-1829), disse: "A Ilha de Cuba, quase à vista de nossas costas, tornou-se, por múltiplas razões, de importância transcendental para os fins políticos e comerciais de nossa União".
Em 28 de abril de 1823, ele definiu o princípio desastroso do fruto maduro para os destinos soberanos de Cuba, afirmando: "Mas, existem leis da gravitação política assim como existem leis da gravidade física, e assim como um fruto separado de sua árvore pela força do vento não pode, mesmo que queira, deixar de cair no chão, assim, Cuba, uma vez separada da Espanha e quebrada a conexão artificial que as une, é incapaz de se sustentar sozinha; necessariamente, deve gravitar em direção à União Norte-Americana".
Meses depois, uma vez definida a política em relação a Cuba, o governo dos EUA estenderia, com a Doutrina Monroe, sua estratégia para todo o continente americano. Assim se expressava: "Essas ilhas [Cuba e Porto Rico], por sua localização, são apêndices naturais do continente (norte) americano, e uma delas [a ilha de Cuba], quase à vista de nossas costas, tornou-se, por múltiplas razões, de importância transcendental para os interesses políticos e comerciais de nossa União".
A tomada de Cuba significaria abrir as portas do Caribe e do restante da América para o império nascente. Desde então, a política dos presidentes dos EUA tem sido projetada para responder a esse objetivo geoestratégico.
O relato das manifestações de posse pela classe política e por outros agentes dos Estados Unidos é extenso.
Assim, em 1826, se opuseram à proposta do libertador Simón Bolívar, levada ao Congresso do Panamá, de tornar Cuba independente da Espanha e tentaram comprá-la em diferentes momentos, em 1848, 1853 e 1857, etc.
Em 1845, o senador Yudee, da Flórida, foi o primeiro a propor a compra de Cuba, apresentando um projeto de lei no Senado.
Em 1847, o senador Jefferson Davis afirmou: "A Ilha de Cuba tem que ser nossa".
Em 1847, Buchanam, um político dos EUA, disse: "Precisamos possuir Cuba... Vamos adquiri-la por um golpe de Estado em algum momento propício... que pode não estar longe de acontecer. Cuba já é nossa: sinto isso na ponta dos meus dedos".
Em 1848, no Senado, John Calhoun apontou: "Há casos de interposição em que eu recorreria aos recursos aleatórios da guerra: Designo o caso de Cuba".
Em 1848, uma publicação americana, Bow's Review, afirmava: "Não é exagero dizer que, se nos apoderarmos de Cuba, estaremos em posse do destino mais rico e do comércio mais extenso que já deslumbrou a cobiça do homem. E com esse comércio teremos o poder do mundo em nossas mãos".
Em 1854, o Subsecretário de Estado, Mann, escreveu: "Quando eu te encontrar, quero cumprimentá-lo com esta exclamação: Cuba é nossa ou como se fosse".
A entrada planejada na guerra de independência de Cuba contra a Espanha tinha como objetivo alcançar o sonho estadunidense no curto prazo.
Em dezembro de 1897, o Subsecretário de Guerra dos EUA escreveu ao chefe do Exército: "É evidente que a anexação imediata de Cuba seria uma loucura. Antes disso, precisamos limpar o país. Devemos destruir tudo dentro do alcance de nossas armas... Devemos concentrar o bloqueio, para que a fome e sua eterna companheira, a peste, minem a população civil e dizimem o Exército cubano. Em resumo: nossa política sempre deve ser: apoiar os mais fracos contra os mais fortes, até que obtenhamos o extermínio de ambos, a fim de anexarmos a Pérola das Antilhas".
Leonardo Wood, governador interventor dos EUA em Cuba, disse: "A missão dos EUA em Cuba era construir uma república anglo-saxônica...; estabelecer, em pouco mais de 3 anos, uma república exatamente inspirada na nossa república".
Após impor a Emenda Platt como uma faca na garganta da Constituição da República de Cuba, independente em 1902, planejaram e executaram por quase 60 anos sua política de neocolonização.
Em uma carta ao presidente Theodore Roosevelt, em 28 de outubro de 1901, o governador Leonard Wood resumiu a situação com estas palavras: "Pouca ou nenhuma independência resta para Cuba, claro, sob a Emenda Platt e a única coisa indicada agora é buscar a anexação".
Com a emenda Platt, impuseram o selo do neocolonialismo em Cuba, da subordinação política e econômica, e da presença militar na Base Naval de Guantánamo.
A triunfante Revolução Cubana, em 1º de janeiro de 1959, significou a abolição da subordinação política e econômica, embora não tenha conseguido eliminar a base militar, mantida apesar dos protestos cubanos.
Agressões de todos os tipos têm sido as armas que os Estados Unidos têm usado até hoje para prejudicar a vida normal do povo cubano. Sua estratégia é consistente com o que foi expresso em 6 de abril de 1960 pelo então Subsecretário adjunto do Departamento de Estado dos EUA, Lester D. Mallory, que escreveu um memorando interno propondo negar dinheiro e suprimentos a Cuba, reduzir seus salários e causar fome e desespero ao extremo. Em resumo, para que tudo isso pudesse causar desencanto e insatisfação.
Muito semelhante ao redigido em dezembro de 1897 pelo Subsecretário de Guerra, citado acima, o Memorando Mallory, de 6 de abril de 1960, afirmava: "... todos os meios possíveis devem ser usados rapidamente para enfraquecer a vida econômica de Cuba...; uma linha de ação que (...) alcance os maiores avanços na privação de dinheiro e suprimentos a Cuba; na redução de seus recursos financeiros e salários reais, na provocação da fome, do desespero e da derrubada do Governo".
Não se pode entender e explicar facilmente o pensamento estadunidense de hoje, através do pensamento ianque de ontem? Não é o mesmo pensamento ganancioso, conquistador, expansionista e avassalador? Não é uma vingança impiedosa contra o povo cubano pela audácia de proclamar seu status soberano, livre e independente?
Em conclusão, essas são as verdades do comportamento nefasto dos políticos estadunidenses com a ânsia imperial de apoderar-se e controlar Cuba. Mas, diante dessa filosofia de despojo, a firme resistência dos cubanos tem sido mantida. E isso veremos na parte 2 deste artigo, que vale à pena ler. Será como uma investida contra o facão do nosso exército Mambí! [NdT.: Os mambises (singular: mambí) foram guerrilheiros independentistas de Cuba que lutaram contra o domínio espanhol durante o século XIX, especificamente na Guerra dos Dez Anos (1868-1878) e na Guerra de Independência (1895-1898). Eram conhecidos por usar táticas de guerrilha na selva cubana].
Tradução: Rose Lima.


