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Como a ideologia foi crucial para coesão social na Índia e sua ascensão econômica

Da construção de identidade à consolidação de um projeto nacional, a Hindutva e o RSS moldaram a coesão interna que sustenta décadas de crescimento

Narendra Modi (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

247 – A ascensão econômica da Índia nas últimas décadas não pode ser compreendida apenas por indicadores macroeconômicos, reformas estruturais ou investimentos em tecnologia. Por trás da transformação que levou o país a figurar entre as maiores economias do mundo está um elemento menos tangível, porém decisivo: a construção de coesão social e identidade nacional por meio de uma ideologia organizada e persistente. Nesse processo, o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) e a doutrina da Hindutva desempenharam papel central.

Fundado em 1925, ainda sob o domínio britânico, o RSS surgiu com o objetivo de fortalecer a sociedade hindu e consolidar um sentimento de unidade cultural. Ao longo de quase um século, tornou-se a principal matriz ideológica do nacionalismo hindu contemporâneo e base organizacional do Bharatiya Janata Party (BJP), partido que hoje governa a Índia. A trajetória do atual primeiro-ministro Narendra Modi, formado politicamente no RSS, é emblemática dessa conexão entre ideologia, mobilização social e poder de Estado.

Identidade como base da coesão nacional

A independência da Índia, em 1947, foi marcada por um trauma profundo: a Partição que deu origem ao Paquistão e provocou deslocamentos em massa e violência sectária. O novo país reunia centenas de grupos étnicos, dezenas de idiomas e múltiplas religiões. Construir unidade em meio a essa diversidade era condição indispensável para qualquer projeto de desenvolvimento de longo prazo.

A Hindutva, formulada no início do século XX por pensadores como Vinayak Damodar Savarkar, propôs que a Índia deveria ser entendida como uma civilização essencialmente hindu. Não se tratava apenas de religião, mas de uma identidade cultural abrangente, capaz de fornecer um eixo simbólico comum para a maioria da população.

O RSS atuou como difusor dessa visão por meio de uma rede capilarizada de escolas, associações juvenis, organizações sindicais e grupos comunitários. Essa presença territorial permanente criou uma base social disciplinada e ideologicamente orientada.

Em termos políticos, a consolidação de uma identidade majoritária serviu como elemento agregador em um país de dimensões continentais. Para muitos analistas, essa coesão simbólica contribuiu para reduzir fragmentações internas que poderiam comprometer a estabilidade necessária ao crescimento econômico.

Organização social e continuidade estratégica

Diferentemente de partidos eleitorais tradicionais, o RSS funciona como uma estrutura de formação permanente. Seus membros participam de treinamentos regulares, atividades comunitárias e programas de educação política. Essa dinâmica criou uma espécie de “infraestrutura ideológica” paralela ao Estado.

Essa continuidade organizacional teve impacto relevante quando o BJP ascendeu ao poder nacional. A partir dos anos 1990, com a liberalização econômica iniciada ainda sob governos do Congresso Nacional Indiano, a Índia entrou em um ciclo de crescimento mais acelerado. A chegada do nacionalismo hindu ao centro do poder político agregou a esse processo uma narrativa de grandeza civilizacional e soberania estratégica.

O discurso do “Atmanirbhar Bharat” — Índia autossuficiente — sintetiza essa convergência entre orgulho nacional e política econômica. A ideia de fortalecer cadeias produtivas domésticas, expandir infraestrutura e investir em tecnologia passou a ser apresentada como parte de um renascimento histórico.

Essa narrativa ajudou a sustentar apoio popular a políticas de longo prazo, inclusive em áreas sensíveis como defesa, indústria pesada e inovação digital. Projetos estruturantes exigem estabilidade e horizonte estratégico — algo que a articulação ideológica contribuiu para oferecer.

Desenvolvimento e nacionalismo econômico

Nas últimas duas décadas, a Índia consolidou-se como polo tecnológico, ampliou sua presença no setor farmacêutico, fortaleceu a indústria de tecnologia da informação e expandiu significativamente sua infraestrutura. O país tornou-se protagonista no debate sobre cadeias globais de suprimento e busca ocupar espaço estratégico em um cenário internacional marcado pela rivalidade entre Estados Unidos e China.

A ideologia nacionalista forneceu legitimidade política para políticas industriais mais assertivas e para a ampliação do papel do Estado em setores estratégicos. Ao associar crescimento econômico à recuperação do orgulho civilizacional, o governo conseguiu conectar desenvolvimento material e identidade simbólica.

Esse fenômeno não é exclusivo da Índia. Experiências históricas mostram que projetos nacionais bem-sucedidos frequentemente se apoiam em narrativas identitárias fortes. A China, por exemplo, articulou modernização e resgate civilizacional sob liderança do Partido Comunista. Em outros contextos, nacionalismos econômicos serviram como motores de industrialização tardia.

No caso indiano, a Hindutva ofereceu um eixo de mobilização que ultrapassa o debate econômico estrito. O desenvolvimento passou a ser percebido como expressão da retomada de um papel histórico da Índia no cenário global.

Controvérsias e tensões internas

A consolidação desse consenso, entretanto, não ocorreu sem controvérsias. Críticos apontam que a ênfase na identidade hindu pode gerar marginalização de minorias religiosas, especialmente muçulmanos e cristãos, além de tensionar o caráter secular previsto na Constituição indiana.

Organizações de direitos humanos e setores da oposição argumentam que políticas identitárias podem enfraquecer o pluralismo e aumentar polarizações internas. Há também debates sobre liberdade de imprensa, autonomia universitária e direitos civis.

Por outro lado, defensores da Hindutva sustentam que a consolidação de uma identidade majoritária é condição para estabilidade política e fortalecimento nacional. Segundo essa visão, a coesão cultural permite enfrentar desafios externos e competir em um ambiente internacional cada vez mais hostil.

Essa tensão entre unidade nacional e diversidade plural é um dos eixos centrais do debate político indiano contemporâneo. Ainda assim, do ponto de vista estrutural, é inegável que a articulação entre ideologia organizada e projeto econômico produziu um alinhamento estratégico relativamente estável.

Ideologia e potência emergente

Hoje, a Índia projeta-se como potência emergente, integrante dos BRICS e ator relevante no chamado Sul Global. Seu crescimento econômico, ainda que desigual e marcado por desafios sociais profundos, alterou a geopolítica da Ásia e ampliou sua influência diplomática.

A experiência indiana indica que desenvolvimento não é apenas resultado de reformas técnicas ou ajustes fiscais. Ele envolve construção de identidade, mobilização social e narrativa nacional compartilhada. O RSS, ao longo de quase cem anos, ajudou a estruturar essa base cultural.

Se a Hindutva será capaz de manter coesão em uma sociedade tão diversa no longo prazo é uma questão ainda em aberto. O que já é visível, porém, é que a combinação entre ideologia organizada, disciplina social e estratégia econômica contribuiu para sustentar a trajetória de ascensão da Índia no século XXI.

A relação entre identidade e desenvolvimento permanece, assim, como elemento central para compreender o país que hoje disputa protagonismo global e redefine o equilíbrio de forças no cenário internacional.

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