Macron intensifica ofensiva na Índia e entra na corrida global por novos aliados estratégicos
Presidente francês busca megaacordo de caças Rafale, além de cooperação em inteligência artificial e energia nuclear
247 – O presidente da França, Emmanuel Macron, desembarcou na Índia em meio a um cenário de crescente tensão geopolítica e reconfiguração das alianças globais. A visita ocorre logo após sua participação na Conferência de Segurança de Munique, marcada por alertas sobre a fragilidade das relações transatlânticas e pela defesa de maior autonomia estratégica europeia. As informações são da newsletter Balance of Power, da Bloomberg.
Da atmosfera fria e carregada de apreensão em Munique ao calor intenso de Mumbai, o contraste simboliza também a mudança de foco diplomático. Segundo assessores de Macron, a viagem a Mumbai e Nova Délhi foi planejada para consolidar a relação da França com o país mais populoso do mundo, em um momento em que o multilateralismo enfrenta pressões e a Europa busca diversificar seus parceiros globais.
Megaacordo militar e autonomia estratégica
Um dos principais objetivos da visita é avançar nas negociações de um possível contrato para a venda de mais de 100 caças Rafale à Força Aérea Indiana. Caso seja fechado, o acordo pode alcançar dezenas de bilhões de euros, tornando-se um dos maiores contratos de defesa já firmados pela França.
A comitiva presidencial reflete essa prioridade estratégica. Executivos de empresas como Dassault Aviation e Eutelsat acompanham Macron, sinalizando o peso que Paris atribui à expansão de sua presença nos setores de defesa e tecnologia espacial na Ásia.
A França identifica na Índia uma ambição compartilhada de maior soberania e independência estratégica, especialmente no campo da defesa. A aproximação ocorre em um contexto no qual países buscam reduzir dependências excessivas tanto de Washington quanto de Pequim.
Inteligência artificial e padrões globais alternativos
Além do eixo militar, Macron participará de uma cúpula sobre inteligência artificial. A presença do presidente francês ocorre em reciprocidade à visita do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que foi convidado de honra em um encontro sobre IA realizado na França no ano passado.
O objetivo francês é promover padrões comuns que possam oferecer uma alternativa aos modelos de inteligência artificial moldados pelos Estados Unidos ou pela China. A iniciativa se insere na estratégia mais ampla de Paris de fortalecer uma via própria em áreas tecnológicas críticas.
Energia nuclear e diplomacia cultural
A agenda também inclui discussões sobre a venda de reatores nucleares — tema que se arrasta há anos — e o aprofundamento de laços culturais. Entre as possibilidades em análise está uma parceria entre o Festival de Cannes e a indústria cinematográfica de Bollywood, ampliando a cooperação cultural entre os dois países.
O esforço diplomático busca abrir novos mercados para empresas francesas e reduzir a dependência econômica de polos tradicionais como Pequim e Washington.
Contexto geopolítico e relação com os Estados Unidos
A aproximação franco-indiana ocorre em um momento delicado para a política internacional. O primeiro-ministro Narendra Modi mantém uma relação complexa com os Estados Unidos, liderados atualmente por Donald Trump, após a Índia ter sido inicialmente atingida por tarifas punitivas americanas relacionadas à compra de petróleo russo.
Durante a visita de Macron à Índia há dois anos, centenas de outdoors exibiam imagens de Modi e do presidente francês se abraçando ao longo do trajeto oficial. Agora, com o cenário geopolítico ainda mais turbulento, a cooperação entre os dois líderes ganha nova relevância estratégica.
Um mundo em transição
A movimentação de Macron na Índia reflete uma tendência mais ampla de reorganização das alianças globais. O enfraquecimento das estruturas multilaterais tradicionais e a intensificação da competição entre grandes potências têm levado países europeus a buscar novos parceiros estratégicos.
Ao reforçar laços com Nova Délhi, a França procura se posicionar como ator relevante em um sistema internacional cada vez mais fragmentado, no qual autonomia estratégica, tecnologia e defesa se tornaram eixos centrais de poder.
A visita sinaliza que, diante da instabilidade nas relações transatlânticas, Paris está disposta a ampliar sua presença no Indo-Pacífico e a consolidar parcerias capazes de sustentar seus interesses econômicos e geopolíticos no longo prazo.


