Gramsci segue atual: por que o pensador italiano ainda ilumina disputas de poder no século XXI
Conceitos como hegemonia, guerra cultural e papel dos intelectuais ajudam a entender política, mídia e democracia contemporâneas
247 – Antonio Gramsci, intelectual marxista italiano que morreu em 27 de abril de 1937, segue sendo uma das referências mais influentes para compreender as disputas de poder no mundo contemporâneo. Mesmo após quase um século de sua morte, suas reflexões sobre hegemonia, cultura, Estado e sociedade civil continuam sendo mobilizadas por analistas, acadêmicos e atores políticos para interpretar os conflitos ideológicos e as transformações sociais do século XXI.
Preso pelo regime fascista de Benito Mussolini, Gramsci escreveu, durante o cárcere, os célebres Cadernos do Cárcere, obra na qual desenvolveu conceitos que ultrapassaram o campo teórico e se tornaram ferramentas centrais de análise política. Seu legado permanece atual justamente por tratar do poder não apenas como coerção, mas como construção de consenso — uma chave essencial para entender o funcionamento das democracias modernas.
Hegemonia: o poder que se constrói na cultura
Um dos conceitos mais conhecidos de Gramsci é o de hegemonia. Para ele, as classes dominantes não se mantêm apenas pela força do Estado, mas pela capacidade de moldar valores, ideias e percepções na sociedade.
"A hegemonia nasce da fábrica e exige apenas para ser exercida uma certa quantidade de profissionais da política e da ideologia", escreveu o pensador italiano.
Na prática, isso significa que o poder se exerce também por meio da mídia, da educação, das religiões e das redes sociais — espaços onde se formam visões de mundo. Essa leitura ajuda a explicar, por exemplo, o avanço de discursos extremistas ou a consolidação de narrativas políticas que se tornam dominantes mesmo sem respaldo material imediato.
No Brasil e no mundo, disputas em torno de temas como democracia, direitos sociais e soberania nacional passam diretamente por essa batalha de ideias. A ascensão de lideranças de extrema direita em vários países evidencia como a construção de hegemonia cultural é decisiva para a conquista do poder político.

Guerra de posição e disputa prolongada
Outro conceito central de Gramsci é o de “guerra de posição”. Diferentemente de uma tomada abrupta do poder, como em revoluções clássicas, ele defendia que, nas sociedades complexas, a transformação ocorre de forma gradual, por meio da ocupação de espaços na sociedade civil.
Essa ideia se mostra particularmente relevante no cenário atual, marcado por disputas prolongadas entre projetos políticos. Em vez de rupturas imediatas, o que se observa são embates contínuos em instituições, meios de comunicação e plataformas digitais.
A política contemporânea, com sua dinâmica permanente de disputa narrativa, reflete exatamente esse modelo gramsciano. Partidos, movimentos sociais e grupos econômicos atuam de forma estratégica para influenciar a opinião pública ao longo do tempo, buscando consolidar legitimidade.
Intelectuais e formação da consciência
Gramsci também redefiniu o papel dos intelectuais. Para ele, todos os grupos sociais produzem seus próprios intelectuais, responsáveis por organizar ideias e dar coesão a projetos políticos.
"Todos os homens são intelectuais, mas nem todos exercem na sociedade a função de intelectuais", escreveu.
No mundo atual, essa noção ganha nova dimensão com a ampliação dos meios de comunicação. Jornalistas, influenciadores digitais, acadêmicos e até criadores de conteúdo nas redes sociais desempenham funções que, em muitos casos, se aproximam do papel de “intelectuais orgânicos”.
Esse fenômeno ajuda a entender como novas lideranças emergem fora das estruturas tradicionais e como discursos ganham força rapidamente, moldando percepções coletivas.
Estado ampliado e democracia em disputa
Outro ponto-chave da obra de Gramsci é a ideia de “Estado ampliado”, que inclui não apenas as instituições formais — como governo, parlamento e Judiciário —, mas também a sociedade civil.
Essa visão é particularmente útil para analisar crises democráticas contemporâneas. O enfraquecimento de instituições, a disseminação de desinformação e a polarização política mostram que a disputa pelo poder ocorre em múltiplos níveis, não apenas no âmbito eleitoral.
No Brasil, por exemplo, o debate sobre democracia, soberania e justiça social passa necessariamente por essa compreensão mais ampla do Estado. As tensões entre projetos políticos revelam que a luta não se dá apenas nas urnas, mas também na construção de consenso social.
Atualidade em um mundo multipolar
Em um cenário global marcado pela transição para uma ordem multipolar, com o fortalecimento de países do Sul Global e blocos como os BRICS, as ideias de Gramsci ganham ainda mais relevância.
A disputa entre modelos de desenvolvimento, sistemas políticos e narrativas geopolíticas pode ser interpretada à luz da hegemonia internacional — conceito que dialoga diretamente com o pensamento gramsciano.
A ascensão de novas potências, a contestação da ordem liderada pelos Estados Unidos e o fortalecimento de projetos nacionais soberanos indicam que a luta por hegemonia não ocorre apenas dentro dos países, mas também no sistema internacional.
Um pensador do presente
Quase cem anos após sua morte, Antonio Gramsci continua sendo um dos autores mais citados nas ciências sociais e no debate político global. Sua capacidade de interpretar o poder como uma combinação de força e consenso faz de sua obra uma ferramenta essencial para compreender o presente.
Em tempos de polarização, guerra informacional e disputa por narrativas, suas reflexões mostram que o controle das ideias é tão estratégico quanto o controle das instituições — e que a política, em última instância, é também uma batalha cultural permanente.



