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Inteligência Artificial não é sinônimo de inteligência americana e o modelo chinês é melhor para o mundo, diz Victor Gao

Professor chinês critica a guerra tarifária de Donald Trump, defende IA de código aberto e afirma que a paz entre China e EUA é inevitável

Victor Gao (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Em um debate realizado durante o Doha Forum, no Catar, o professor de Relações Internacionais Victor Gao afirmou que a Inteligência Artificial não pode ser tratada como “inteligência americana” e que o modelo defendido pela China — baseado em abertura, compartilhamento e participação global — seria mais benéfico para o mundo. A entrevista foi conduzida pelo jornalista Steve Clemons no programa The Bottom Line, publicado no YouTube, e abordou desde a disputa tecnológica até a guerra tarifária e os riscos de escalada militar entre as duas maiores potências do planeta.

Logo no início, Gao reforçou que respeita Donald Trump como chefe de Estado e comandante das Forças Armadas dos Estados Unidos, mas condenou a ofensiva comercial lançada pela Casa Branca após a posse, em 20 de janeiro de 2025. “A guerra tarifária que ele lançou contra a China e contra o resto do mundo provavelmente vai se provar a guerra errada”, afirmou. Para ele, o confronto tarifário não teria “qualquer propósito construtivo” e deveria ser encerrado rapidamente para que Washington volte a focar em questões internas, como a recuperação da indústria.

Gao chegou a dizer que apoiaria plenamente uma política norte-americana de reindustrialização, desde que baseada em objetivos produtivos reais e não na tentativa de estrangular parceiros comerciais. “Trazer empregos de manufatura de volta aos Estados Unidos eu apoiaria completamente, de coração”, declarou, argumentando que a China poderia inclusive “ser de grande utilidade” nesse processo, caso os EUA decidissem reconstruir sua base produtiva com racionalidade econômica.

Guerra tarifária, comércio em alta e China buscando outros mercados

Apesar das tarifas e do clima de tensão crescente, Gao insistiu que o comércio bilateral continua crescendo, enquanto a importância relativa dos EUA nas exportações chinesas diminui. Segundo ele, a fatia das exportações destinadas ao mercado norte-americano caiu para cerca de 13%, depois de ter atingido um pico em torno de 25%. Para Gao, isso mostra que a China já está ampliando alternativas e diversificando seus mercados globais. “A China está explorando outros mercados para substituir qualquer perda de exportação para os Estados Unidos”, disse.

Ele também criticou a “tarifa como arma” e afirmou que essa prática mina o próprio princípio do livre comércio. Na avaliação do professor, a contradição atual é que a China passou a se apresentar como defensora do livre comércio enquanto os Estados Unidos caminham para desmontá-lo. “A China agora é a porta-estandarte da defesa do livre comércio”, afirmou, ao expressar esperança de que Washington “supere seus problemas” e volte a defender esse sistema em cooperação com Pequim.

“A China apostou no carro elétrico para enfrentar a crise climática”

Ao rebater acusações de que o país teria alcançado domínio industrial por estratégias predatórias, Gao sustentou que o avanço chinês no setor de veículos elétricos foi fruto de uma aposta de longo prazo, motivada por questões ambientais e energéticas. Ele explicou que, por volta de 2012, Pequim decidiu concentrar recursos nesse setor quando ainda havia incertezas tecnológicas e de cadeia produtiva.

Para Gao, o objetivo central era reduzir emissões de CO₂ e cortar a dependência do petróleo importado. “A China quis fazer a coisa certa para mitigar o impacto da mudança climática”, afirmou, destacando que a decisão exigiu visão estratégica e coragem. O professor mencionou ainda que outros países fizeram apostas semelhantes — como o Japão com carros a hidrogênio —, mas nem todas deram certo. “Você não pode culpar a China por ser visionária”, disse.

Gao destacou que a produção de veículos elétricos já superou a de automóveis movidos a combustíveis fósseis e que a meta chinesa é elevar a participação dos elétricos para perto de 100% da produção nacional de veículos.

“IA não é American Intelligence”

Foi no tema da Inteligência Artificial, no entanto, que Gao fez suas afirmações mais contundentes. Para ele, a disputa global em torno da IA está sendo conduzida por uma premissa errada: a ideia de que os Estados Unidos deveriam transformar essa tecnologia em um instrumento de supremacia. “IA não é American Intelligence”, disse, enfatizando que a tentativa norte-americana de tratar a inovação como monopólio seria perigosa.

Segundo Gao, qualquer país que alcance dominância absoluta nesse setor poderá tentar impor regras e decisões aos demais, ameaçando soberania nacional e reorganizando a ordem internacional de forma autoritária. “Se qualquer país construir dominância em IA, isso será uma receita de grande desastre para a humanidade”, alertou.

Ele defendeu que a IA deve ser “open source”, e não “closed source”, para permitir que todos os países participem do desenvolvimento e reduzam barreiras de acesso. “Nenhuma dominância em IA deve ser permitida”, afirmou. Gao previu ainda que, em um horizonte de três a cinco anos, a tendência global será o avanço de sistemas abertos, e pediu que os norte-americanos abandonem a lógica de controle.

China e EUA no topo, mas sem vantagem decisiva

Gao reconheceu que China e Estados Unidos estão no “grupo de elite” da Inteligência Artificial, mas rejeitou a ideia de que um esteja muito à frente do outro. Ele citou o CEO da Nvidia, Jensen Huang (mencionado na entrevista como Jensen Wong), para dizer que, se a China estiver atrás, seria “por um iota, um nanossegundo”.

Também ressaltou o peso da diáspora chinesa na formação de especialistas: “Mais de 50% dos principais profissionais de IA são chineses”, afirmou, citando talentos de diferentes regiões como China continental, Taiwan, Malásia e Estados Unidos. Para Gao, a China possui uma base ampla de capital humano, produzindo cerca de 3 milhões de engenheiros por ano, o que torna inútil qualquer tentativa de sufocar seu avanço.

“Se qualquer país quiser empurrar a China para baixo na revolução da IA, provavelmente vai falhar. Trabalhar com a China é o melhor caminho”, concluiu.

EUA em retração e a crítica ao “excesso de alcance”

Ao comentar o documento de estratégia de segurança nacional do governo Trump, Gao afirmou não ter se surpreendido com o tom mais comedido. Segundo ele, o próprio Estado norte-americano estaria começando a internalizar uma realidade histórica: a impossibilidade de sustentar uma postura imperial indefinidamente.

Ele citou o historiador Paul Kennedy, da Universidade Yale, e seu conceito de overreach, argumentando que os EUA “têm exagerado por décadas” e já chegaram a um ponto em que precisam recuar. “Tentar policiar o mundo inteiro, lançar uma guerra após a outra para alcançar objetivos estratégicos, não é sustentável”, afirmou.

Para Gao, uma estratégia mais pragmática, voltada para defesa do livre comércio e da paz, serviria melhor aos interesses do povo norte-americano do que a prioridade constante ao conflito e à contenção.

“A paz é inevitável” entre China e EUA

Em um dos momentos mais centrais da entrevista, Gao apresentou sua tese da “inevitabilidade da paz” entre China e Estados Unidos. Para ele, a ideia de que as duas potências estariam destinadas a uma guerra — como na teoria da “armadilha de Tucídides” popularizada por Graham Allison, de Harvard — ignora um elemento essencial: a existência de armas nucleares.

Gao argumentou que os casos históricos analisados por Allison foram guerras convencionais, e que aplicar a mesma lógica a duas potências nucleares seria irracional. “Você não pode usar a guerra para alcançar seus objetivos”, disse. Segundo ele, um conflito convencional rapidamente poderia sair de controle e escalar para uma guerra não convencional, com consequências apocalípticas. “Isso provavelmente seria a ruína da humanidade”, alertou.

Taiwan, ordem do pós-guerra e rejeição à hipótese de invasão

Questionado sobre Taiwan, Gao descartou a possibilidade de invasão e reafirmou a posição chinesa de que a questão está ancorada na ordem internacional do pós-guerra. Citando a Declaração do Cairo e a Proclamação de Potsdam, ele afirmou que esses documentos definiram que o Japão, que ocupava Taiwan desde 1895, deveria devolver a ilha à China após sua rendição em 1945.

“Desde então, só há uma China e Taiwan é parte da China”, disse. Para ele, movimentos separatistas em Taiwan “nunca terão sucesso”.

Japão, militarização e apelos históricos

Ao mencionar tensões recentes envolvendo o Japão e supostas ameaças de guerra feitas por um primeiro-ministro japonês, Gao adotou um tom duro e carregado de referências históricas. Ele afirmou que seria a primeira vez, desde 1945, que um líder japonês ameaçaria guerra contra outro país, e acusou setores do Japão de quererem “virar a mesa” sobre o veredito da rendição incondicional.

Gao disse aos norte-americanos: “Lembrem-se de Pearl Harbor” e citou atrocidades atribuídas ao imperialismo japonês, incluindo mortes na China. Em seguida, defendeu que China e EUA deveriam se unir para impedir qualquer remilitarização japonesa, inclusive em áreas como armas nucleares e militarização do espaço.

O maior risco: a IA dominar a humanidade

No encerramento da entrevista, Gao afirmou que a humanidade deveria se preocupar menos com a competição China-EUA e mais com um risco ainda maior: a possibilidade de a Inteligência Artificial “declarar independência” da espécie humana.

“Precisamos nos preocupar se a IA eventualmente vai declarar independência do Homo sapiens e governar acima do Homo sapiens”, disse. Ele alertou que a população mundial pode se tornar “cidadã de segunda classe” diante de uma IA dominadora, caso as potências sigam desenvolvendo sistemas com fins destrutivos. Para Gao, se China e EUA competirem para destruir um ao outro por meio da IA, o “vencedor final” não será nenhum dos dois países, mas a própria IA.

Uma visão de mundo em disputa

A entrevista, conduzida por Steve Clemons, expôs não apenas a visão chinesa sobre comércio, tecnologia e geopolítica, mas também uma leitura crítica do papel global dos Estados Unidos sob Donald Trump. Ao defender a abertura e a cooperação como princípio para o futuro da Inteligência Artificial, Victor Gao buscou apresentar a China como alternativa ao unilateralismo e à lógica de dominação.

Em um momento em que a rivalidade sino-americana redefine cadeias produtivas, alianças militares e regras tecnológicas, Gao sustenta que a humanidade terá de escolher entre a escalada e a cooperação — e que, diante dos riscos de guerra e da própria IA, a paz não é apenas desejável: seria inevitável.

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